Ortografia: «outrem»

Por conta de outrem

      Uma coisa irritante é, de impressos de organismos oficiais a traduções, poucas vezes o vocábulo «outrem» estar correctamente grafado, isto é, sem o acento. Se o acento tónico está na penúltima sílaba, gostava de saber como pronuncia a palavra quem a escreve com acento. A regra geral, em relação às palavras graves, sabemos, é não terem acento gráfico. Em contrapartida, poucas vezes vejo acentuada a forma verbal «contém», que precisa do acento, pois se trata de uma palavra aguda não monossilábica terminada em -em, como «além», «alguém», «armazém», «Belém», «Cacém», «catém», «cuiavém», «curtarém», «Jerusalém», «Matusalém», «ninguém», «refém», «retém», por exemplo.

Léxico: «chaptalização»

Coisas do vinho

      Ouvi-a ontem na Antena 1. Nunca tinha ouvido a palavra antes. A chaptalização é a adição de açúcar de beterraba ao mosto, para aumentar o teor alcoólico. O termo (em francês chaptalisation) deriva do nome de quem difundiu a prática: Jean-Antoine Chaptal (1756-1832), conde de Chanteloup, médico e químico francês. Com a chamada reforma do vinho, a prática da chaptalização mantém-se, o que é contestado pelos países do Sul da Europa.

Silabadas

Atenção

      Mário Crespo, o nosso melhor apresentador de telejornais, entrevistou ontem José António Barreiros, recém-eleito presidente do Conselho Superior da Ordem dos Advogados. A determinada altura, Mário Crespo afirmou que há «escritórios a funcionar quase em /cártel/». O entrevistado não respondeu à acusação (porque não percebeu a palavra?), e eu só quero dizer que «cartel» tem acento tónico na última sílaba e com o a fechado, como «Abel», «anel», «Babel», «granel», «papel», «Raquel»...

Lexicografia; «repère»

Ça tire

      Nunca deixo de ficar espantado — posso? — com certas técnicas e critérios dicionarísticos. Pego, por exemplo, no Grande Dicionário Francês/Português de Domingos de Azevedo (13.ª edição, 1998) e procuro o verbete do vocábulo «repère». Leio: «Sinal ou marca que se põe nas diferentes peças de uma obra para se poderem ajustar com exactidão e facilidade.│Marcas ou sinais que se fazem em uma parede, em um terreno, etc., para se encontrar um alinhamento, um nível, uma altura, uma distância.│Point de repère, ponto de partida; ponto de referência; sinal; indicação.» Ter-me-ei enganado de dicionário? Mas não, este é mesmo um dicionário bilingue. Então, porque é que me aparece uma definição em vez de um ou vários vocábulos correspondentes na língua portuguesa? E a locução final, point de repère, não acaba por condensar as correspondências em português? Repère, afinal, pode ser muita coisa: as nossas miras de acerto, da indústria gráfica, serão repères em francês; em sentido figurado, sim, será um marco, um marco cronológico, por exemplo; um ponto de referência para encontrar uma casa, por exemplo, é um repère; o traço que serve de índice de leitura num instrumento de medida é um repère; as marcas para a posição de montagem de um instrumento são repères; as hastes pintadas de duas cores, chamadas varolas, usadas em trabalhos de topografia, são repères. Etc.

Léxico contrastivo: «disque-droga»

Ao domicílio

      «O oficial é acusado de manter um disque-drogas em sua casa para atender a consumidores em bairros nobres das zonas Sul e Oeste. Segundo a polícia, Fragata vendia entre cinco e 10 quilos por semana. Cada grama custava em torno de R$ 100 com a droga já misturada. Fragata atendia às pessoas em casa, contactadas através de telefone e email» («PF desarticula quadrilha que fazia disque-drogas», Felipe Sáles, Jornal do Brasil, 19.12.2007, p. A13). Este vocábulo nem sequer no Aulete Digital está registado. Como se depreende, é um serviço de venda de droga em que esta é entregue em casa do cliente. Comodamente. Como se de uma piza se tratasse.

Pronúncia de «euro»

Orgulhosamente poucos     

      A jornalista Isabel Gaspar Dias, da Antena 1, deve ser dos poucos portugueses que pronunciam a palavra «euro» com «o» a soar, dada a posição de átona final, como «u» (à semelhança de qualquer palavra grave, como «cinco», «lado»...). E nisto segue alguns dos nossos melhores especialistas da língua portuguesa. E claro que «euro» tem plural — dizer «cem euro» é tão irracional como dizer «língua banto», por exemplo.


Pleonasmos

Enfrentar como deve ser
 
      De vez em quando, os jornalistas saem-se com estes pleonasmos risíveis: «Para grandes males, grandes remédios. Um grupo de mais de 500 autores literários britânicos — Ian Rankin, Nick Hornby, Jackie Collins ou Andrew Motion, entre outros — apelou por carta ao primeiro-ministro inglês, Gordon Brown, para enfrentar de frente o problema da iliteracia infantil» («A “leitura” do problema», Meia Hora, 19.12.2007, p. 21). Como é que o jornalista queria que se enfrentasse — pelas costas, talvez? Quanto às criancinhas britânicas, algumas serão mais tarde professores de Inglês, sobretudo no estrangeiro.

Latinismos

Buscador de latinismos

      Não é, seguramente, o mais completo, mas tem outras potencialidades: não precisamos de introduzir a locução latina completa para fazer a busca. Tem actualmente 512 expressões. Aproveito a oportunidade para relembrar que também tenho no blogue um Glossário das coisas romanas, até ao momento com 314 entradas. Aqui.

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