Lexicografia; «repère»

Ça tire

      Nunca deixo de ficar espantado — posso? — com certas técnicas e critérios dicionarísticos. Pego, por exemplo, no Grande Dicionário Francês/Português de Domingos de Azevedo (13.ª edição, 1998) e procuro o verbete do vocábulo «repère». Leio: «Sinal ou marca que se põe nas diferentes peças de uma obra para se poderem ajustar com exactidão e facilidade.│Marcas ou sinais que se fazem em uma parede, em um terreno, etc., para se encontrar um alinhamento, um nível, uma altura, uma distância.│Point de repère, ponto de partida; ponto de referência; sinal; indicação.» Ter-me-ei enganado de dicionário? Mas não, este é mesmo um dicionário bilingue. Então, porque é que me aparece uma definição em vez de um ou vários vocábulos correspondentes na língua portuguesa? E a locução final, point de repère, não acaba por condensar as correspondências em português? Repère, afinal, pode ser muita coisa: as nossas miras de acerto, da indústria gráfica, serão repères em francês; em sentido figurado, sim, será um marco, um marco cronológico, por exemplo; um ponto de referência para encontrar uma casa, por exemplo, é um repère; o traço que serve de índice de leitura num instrumento de medida é um repère; as marcas para a posição de montagem de um instrumento são repères; as hastes pintadas de duas cores, chamadas varolas, usadas em trabalhos de topografia, são repères. Etc.

Léxico contrastivo: «disque-droga»

Ao domicílio

      «O oficial é acusado de manter um disque-drogas em sua casa para atender a consumidores em bairros nobres das zonas Sul e Oeste. Segundo a polícia, Fragata vendia entre cinco e 10 quilos por semana. Cada grama custava em torno de R$ 100 com a droga já misturada. Fragata atendia às pessoas em casa, contactadas através de telefone e email» («PF desarticula quadrilha que fazia disque-drogas», Felipe Sáles, Jornal do Brasil, 19.12.2007, p. A13). Este vocábulo nem sequer no Aulete Digital está registado. Como se depreende, é um serviço de venda de droga em que esta é entregue em casa do cliente. Comodamente. Como se de uma piza se tratasse.

Pronúncia de «euro»

Orgulhosamente poucos     

      A jornalista Isabel Gaspar Dias, da Antena 1, deve ser dos poucos portugueses que pronunciam a palavra «euro» com «o» a soar, dada a posição de átona final, como «u» (à semelhança de qualquer palavra grave, como «cinco», «lado»...). E nisto segue alguns dos nossos melhores especialistas da língua portuguesa. E claro que «euro» tem plural — dizer «cem euro» é tão irracional como dizer «língua banto», por exemplo.


Pleonasmos

Enfrentar como deve ser
 
      De vez em quando, os jornalistas saem-se com estes pleonasmos risíveis: «Para grandes males, grandes remédios. Um grupo de mais de 500 autores literários britânicos — Ian Rankin, Nick Hornby, Jackie Collins ou Andrew Motion, entre outros — apelou por carta ao primeiro-ministro inglês, Gordon Brown, para enfrentar de frente o problema da iliteracia infantil» («A “leitura” do problema», Meia Hora, 19.12.2007, p. 21). Como é que o jornalista queria que se enfrentasse — pelas costas, talvez? Quanto às criancinhas britânicas, algumas serão mais tarde professores de Inglês, sobretudo no estrangeiro.

Latinismos

Buscador de latinismos

      Não é, seguramente, o mais completo, mas tem outras potencialidades: não precisamos de introduzir a locução latina completa para fazer a busca. Tem actualmente 512 expressões. Aproveito a oportunidade para relembrar que também tenho no blogue um Glossário das coisas romanas, até ao momento com 314 entradas. Aqui.

Próclise

Sucessos e desventuras

      Pode ler-se na edição de hoje do jornal Meia Hora: «O Presidente russo anunciou ontem que será candidato a primeiro-ministro se o candidato que apoia para o suceder no Kremlin, Dimitri Medvedev, ganhar as presidenciais» («Putin candidata-se a PM se Medvedev ganhar o Kremlin», Meia Hora, 18.12.2007, p. 9). Por coincidência, uma das consultas publicadas hoje no Ciberdúvidas — que continuo a ler, apesar de já me ter visto descaradamente plagiado por um dos consultores — incidia nesta matéria, sendo a resposta da consultora Sara Leite muito esclarecedora, propondo uma útil forma de saber se se deve usar o pronome lhe, por o complemento ser indirecto, ou o/a, por o complemento ser directo. No caso em apreço, «suceder a alguém», logo, «suceder-lhe» (ou «lhe suceder», como no caso, porque a presença da preposição «para», sem ser atractora de próclise, nos deve levar a preferir esta redacção).
      Em contrapartida, no Diário de Notícias pode ler-se: «Visto como um dos mais liberais homens de Putin, Medvedev, de 42 anos, foi a escolha do Presidente para lhe suceder no Kremlin» («Putin será primeiro-ministro se Medvedev for presidente», 18.12.2007, p. 27)

Pronúncia: «orago»

Ora, ora…

      Acabei de ouvir, na Antena 1, o escritor, ensaísta e antigo director do Jornal de Sintra João Rodil falar sobre a história de Sintra. A determinada altura, falou no «primeiro orago de Sintra». E esdruxulizou ostensivamente a palavra «orago»: /órago/. Fez mal. A palavra «orago» é grave, paroxítona — e não esdrúxula, proparoxítona. A jornalista prometeu nova aparição, para a próxima semana, do Dr. Rodil. Estou em pulgas.

Léxico contrastivo: «eletro»

Reduções

      «Para Barros, que tem a experiência de 25 anos no varejo de móveis e eletro, o diferencial das lojas cearenses é o atendimento, é a entrega rápida» («Concorrência acirrada, móveis e eletros mais acessíveis», Artumira Dutra, O Povo, 9.11.2007, p. 28). É esta plasticidade tão brasileira que admiro: reduzir uma palavra comprida, tornando-a curta, apelativa, incisiva. E claro: o «varejo» é o nosso «retalho».

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