Próclise

Sucessos e desventuras

      Pode ler-se na edição de hoje do jornal Meia Hora: «O Presidente russo anunciou ontem que será candidato a primeiro-ministro se o candidato que apoia para o suceder no Kremlin, Dimitri Medvedev, ganhar as presidenciais» («Putin candidata-se a PM se Medvedev ganhar o Kremlin», Meia Hora, 18.12.2007, p. 9). Por coincidência, uma das consultas publicadas hoje no Ciberdúvidas — que continuo a ler, apesar de já me ter visto descaradamente plagiado por um dos consultores — incidia nesta matéria, sendo a resposta da consultora Sara Leite muito esclarecedora, propondo uma útil forma de saber se se deve usar o pronome lhe, por o complemento ser indirecto, ou o/a, por o complemento ser directo. No caso em apreço, «suceder a alguém», logo, «suceder-lhe» (ou «lhe suceder», como no caso, porque a presença da preposição «para», sem ser atractora de próclise, nos deve levar a preferir esta redacção).
      Em contrapartida, no Diário de Notícias pode ler-se: «Visto como um dos mais liberais homens de Putin, Medvedev, de 42 anos, foi a escolha do Presidente para lhe suceder no Kremlin» («Putin será primeiro-ministro se Medvedev for presidente», 18.12.2007, p. 27)

Pronúncia: «orago»

Ora, ora…

      Acabei de ouvir, na Antena 1, o escritor, ensaísta e antigo director do Jornal de Sintra João Rodil falar sobre a história de Sintra. A determinada altura, falou no «primeiro orago de Sintra». E esdruxulizou ostensivamente a palavra «orago»: /órago/. Fez mal. A palavra «orago» é grave, paroxítona — e não esdrúxula, proparoxítona. A jornalista prometeu nova aparição, para a próxima semana, do Dr. Rodil. Estou em pulgas.

Léxico contrastivo: «eletro»

Reduções

      «Para Barros, que tem a experiência de 25 anos no varejo de móveis e eletro, o diferencial das lojas cearenses é o atendimento, é a entrega rápida» («Concorrência acirrada, móveis e eletros mais acessíveis», Artumira Dutra, O Povo, 9.11.2007, p. 28). É esta plasticidade tão brasileira que admiro: reduzir uma palavra comprida, tornando-a curta, apelativa, incisiva. E claro: o «varejo» é o nosso «retalho».

Blogues de 2007


Distinção

      Digo… Não digo… Digo mesmo. O Assim Mesmo foi distinguido com o Pelourinho de Bronze como blogue do ano 2007 pelo Praça da República, de João Espinho. Entre ser imodesto e ingrato, prefiro ignorar o dilema. E esperar pelas nomeações de 2008.

Léxico: «hagi»

Vai a Meca

      Começa hoje o Hadj (ou Hajj, como grafa o Diário de Notícias, por exemplo), a peregrinação a Meca, um dos cinco pilares do Islão que qualquer muçulmano deve cumprir pelo menos uma vez na vida — a não ser que seja menor, louco ou escravo. É a oportunidade para dizer que o muçulmano que faz essa peregrinação se chama hagi, vocábulo registado nos dicionários de língua portuguesa.

«Paper», de novo

Ainda andamos aos papers

      «Para tentar entender o fenómeno, Adele e Donna Wood, docente na mesma universidade, desenvolveram um paper dedicado à avaliação da utilização das novas fontes de informação via Internet, procurando distinguir conhecimento científico de outras fontes de comunicação» («Geração Wikipedia», Milena Melo, OJE, 17.12.2007, p. 10). Na semana passada tinha sido no Global; hoje é no Meia Hora. Porquê «paper»? Ainda por cima, estes jornais prescindem do itálico.

Disparates jornalísticos

Língua abortada

      Ana Mesquita até pode pretender ser engraçada — e quase sempre o consegue. Essa é que é essa. Contudo, no que toca a falar correctamente, está muito longe de cumprir o que se espera de um jornalista. Ainda na emissão de hoje do programa O Amor É…, na Antena 1, a propósito de as indianas radicadas no Reino Unido irem abortar à Índia, falava em «abortagem». Terá a noção da responsabilidade de ter um microfone à sua frente? Dizer «abortagem» em vez de «aborto» ou — querendo, à viva força, ser diferente — «abortamento», ainda que com presumíveis intuitos jocosos, não contribui em nada para fazer da rádio, e rádio pública, no caso, um meio de comunicação que, além de informar e entreter, instrui.

Meio-Oeste?

No Midwest

      Não deixa de ser desconcertante que os Brasileiros, que tão apegados são aos vocábulos mais legitimamente portugueses, por outro lado se desvaneçam com a língua inglesa. Têm, bem entendido, um atractor enorme nas proximidades, os EUA. Na verdade, acabam por usar tantos estrangeirismos desnecessários como nós, Portugueses. Mas não deixam de fazer questão de aportuguesar ou adaptar certos termos. Valha como exemplo o topónimo «Midwest». Se bem que já o tenha visto traduzido para «Meio-Oeste» em publicações portuguesas, é muito mais vulgar no Brasil. Ainda hoje, num artigo, «Acupuntura facial é moda em NY», do Jornal do Brasil, traduzido de outro publicado no The New York Times, se lia: «“Há um aumento do interesse pela técnica por todo o país”,­ diz a acupunturista Martha Lucas. Ela dá inúmeros seminários todos os anos para grupos de mais de 30 alunos. ­“Los Angeles era o maior mercado. Mas agora, recebemos ligações de pessoas do Meio-Oeste.”» (No original: “There’s a rise in interest all over the country,” said Martha Lucas, a licensed acupuncturist who helped create the Mei Zen cosmetic acupuncture system in 2003. She teaches a dozen seminars annually to rooms of more than 30 budding facialists. “L.A. used to be the biggest market. But now we get people from the Midwest calling.” «Hold the Chemicals, Bring on the Needles»)) Vejam: por um lado «Meio-Oeste», mas, por outro, «NY».

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