Blogues de 2007


Distinção

      Digo… Não digo… Digo mesmo. O Assim Mesmo foi distinguido com o Pelourinho de Bronze como blogue do ano 2007 pelo Praça da República, de João Espinho. Entre ser imodesto e ingrato, prefiro ignorar o dilema. E esperar pelas nomeações de 2008.

Léxico: «hagi»

Vai a Meca

      Começa hoje o Hadj (ou Hajj, como grafa o Diário de Notícias, por exemplo), a peregrinação a Meca, um dos cinco pilares do Islão que qualquer muçulmano deve cumprir pelo menos uma vez na vida — a não ser que seja menor, louco ou escravo. É a oportunidade para dizer que o muçulmano que faz essa peregrinação se chama hagi, vocábulo registado nos dicionários de língua portuguesa.

«Paper», de novo

Ainda andamos aos papers

      «Para tentar entender o fenómeno, Adele e Donna Wood, docente na mesma universidade, desenvolveram um paper dedicado à avaliação da utilização das novas fontes de informação via Internet, procurando distinguir conhecimento científico de outras fontes de comunicação» («Geração Wikipedia», Milena Melo, OJE, 17.12.2007, p. 10). Na semana passada tinha sido no Global; hoje é no Meia Hora. Porquê «paper»? Ainda por cima, estes jornais prescindem do itálico.

Disparates jornalísticos

Língua abortada

      Ana Mesquita até pode pretender ser engraçada — e quase sempre o consegue. Essa é que é essa. Contudo, no que toca a falar correctamente, está muito longe de cumprir o que se espera de um jornalista. Ainda na emissão de hoje do programa O Amor É…, na Antena 1, a propósito de as indianas radicadas no Reino Unido irem abortar à Índia, falava em «abortagem». Terá a noção da responsabilidade de ter um microfone à sua frente? Dizer «abortagem» em vez de «aborto» ou — querendo, à viva força, ser diferente — «abortamento», ainda que com presumíveis intuitos jocosos, não contribui em nada para fazer da rádio, e rádio pública, no caso, um meio de comunicação que, além de informar e entreter, instrui.

Meio-Oeste?

No Midwest

      Não deixa de ser desconcertante que os Brasileiros, que tão apegados são aos vocábulos mais legitimamente portugueses, por outro lado se desvaneçam com a língua inglesa. Têm, bem entendido, um atractor enorme nas proximidades, os EUA. Na verdade, acabam por usar tantos estrangeirismos desnecessários como nós, Portugueses. Mas não deixam de fazer questão de aportuguesar ou adaptar certos termos. Valha como exemplo o topónimo «Midwest». Se bem que já o tenha visto traduzido para «Meio-Oeste» em publicações portuguesas, é muito mais vulgar no Brasil. Ainda hoje, num artigo, «Acupuntura facial é moda em NY», do Jornal do Brasil, traduzido de outro publicado no The New York Times, se lia: «“Há um aumento do interesse pela técnica por todo o país”,­ diz a acupunturista Martha Lucas. Ela dá inúmeros seminários todos os anos para grupos de mais de 30 alunos. ­“Los Angeles era o maior mercado. Mas agora, recebemos ligações de pessoas do Meio-Oeste.”» (No original: “There’s a rise in interest all over the country,” said Martha Lucas, a licensed acupuncturist who helped create the Mei Zen cosmetic acupuncture system in 2003. She teaches a dozen seminars annually to rooms of more than 30 budding facialists. “L.A. used to be the biggest market. But now we get people from the Midwest calling.” «Hold the Chemicals, Bring on the Needles»)) Vejam: por um lado «Meio-Oeste», mas, por outro, «NY».

Léxico contrastivo: «tombamento»

Niemeyer tombado

      «Como forma de homenagear o aniversário de 100 anos do arquiteto, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) anunciou este ano o tombamento de 23 obras de Niemeyer em Brasília e da Casa das Canoas no Rio de Janeiro. Obras do arquiteto em São Paulo, Paraná, Goiás e Rio Grande do Norte também foram tombadas. Na época, o superintendente do Iphan do DF, Alfredo Gastal, já afirmara que o tombamento reconheceria a importância do trabalho de Oscar Niemeyer» («Tombamento comemora os 100 anos de Niemeyer» Jornal do Brasil/Brasília, 15.12.2007, p. R6). Na definição do dicionário Aulete Digital, cujo uso recomendo vivamente, «tombamento» é a «acção pela qual se protege um património público resguardando-o, como documento histórico, da descaracterização geralmente provocada pelo homem, ou por sua acção directa ou pela falta de cuidados básicos de manutenção» (adapto a ortografia à variante europeia do português, para que almas mais sensíveis não se sintam embaraçadas).
 

Acepções do termo «fraldão»

Imagem de charrete em Sintra: http://www.sintratur.com/

Dodots gigantes

      «O fim do verão carioca será marcado por uma nova tendência entre os apaixonados por animais, pelo menos os por cavalos. O dia 4 de março será o último em que as charretes espalhadas em pontos pitorescos da cidade —­ como na Praça Xavier de Brito, na Tijuca, ou em Campo Grande — ­poderão cavalgar sem fraldões. A regra, que já existe em capitais turísticas como Nova York, passou a existir no Rio depois que o prefeito Cesar Maia sancionou, na semana passada, um projeto de lei da Câmara Municipal. Criado em 2002, o projeto ficou esquecido por quase cinco anos nos arquivos das comissões permanentes da Casa, até ser aprovada. No Rio, as charretes da ilha de Paquetá saíram à frente e, este ano, já embalaram os cavalos com os fraldões. Tecnicamente, trata-se de um tipo de saco colocado na traseira do cavalo e que tem poupado os paralelepípedos do bairro histórico do adubo natural, mas de péssimo cheiro» («Verão do Rio será de cavalos com fraldas», Jornal do Brasil, 15.12.2007, p. A15). É o exemplo mais próximo, Nova Iorque. Pois os cavalos que puxam as charretes em Sintra também usam fraldas especiais. Verdes. E é claro que os dicionários, incluindo o Aulete Digital, ignoram esta acepção do termo «fraldão». A propósito, lembro que o meu glossário do cavalo já tem 1019 entradas.

Léxico contrastivo: «videomonitoramento»

É para ver

      «Fortaleza entra definitivamente para o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci) com a solenidade de assinatura do termo de adesão entre o Ministério da Justiça (MJ) e a Prefeitura Municipal, na próxima terça-feira, dia 18. Entre as ações previstas no programa, está o monitoramento por meio de sistema de câmeras (videomonitoramento) do Centro histórico, em especial, o quadrilátero que compreende a Praça da Lagoinha até a Praça Coração de Jesus e o Passeio Público até a Igreja do Carmo» («Centro histórico terá videomonitoramento», Ricardo Moura, O Povo, 15.12.2007, p. 6). É a nossa videovigilância (que o jornal Públicografou, erradamente, «vídeo-vigilância»).

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