Tradução: «paper»

Aos papéis

      Na edição de hoje do jornal Global, podia ler-se: «As instituições académicas portuguesas “não são o número 1”, sublinhou o professor, apesar de as considerar “muito boas e com uma sólida base científica”, embora marcadas por “conservadorismo, demasiada concentração na publicação dos papers e pouca predisposição para a mudança”» («Universidade alheada do meio industrial», Global, 11.12.2007, p. 9). A afirmação é de Yossi Sheffi, um director do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Claro que o Global escreve, é uma fatalidade, «Massachussetts». Todavia, é dos «papers» que quero falar. Por acaso não se esqueceram de traduzir esta palavrinha? Ou reputam-na intraduzível? Num dicionário comezinho, que tenho aqui à mão, leio: «Paper: ensaio, dissertação, conferência, comunicação de carácter científico, literário, etc.» Serve?

Dicionário de relojoaria

Novo dicionário

Com 625 entradas, ilustrado, o novo Dicionário de Relojoaria — O Universo do Tempo e dos seus Medidores, da autoria do jornalista e investigador Fernando Correia de Oliveira, acaba de ser publicado pela Âncora Editora. É sempre de saudar um trabalho desta natureza, especialmente num país em que tão pouco se faz nesta área.

Léxico contrastivo: «tubulação»

Rede

«A rede de esgoto do Hospital Souza Aguiar voltou a apresentar problemas ontem. A denúncia foi feita pelo presidente do Sindicato dos Médicos do Rio (Sinmed), Jorge Darze. Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde informou que houve um entupimento na caixa de gordura, no estacionamento, nos fundos da unidade. Segundo o órgão, a limpeza da caixa, feita pela manhã, provocou o refluxo do esgoto em alguns pontos do subsolo» («Souza Aguiar volta a sofrer com tubulação de esgoto», Denise de Almeida, Jornal do Brasil, 11.12.2007, p. A16). Parece muito técnico. Em Portugal diríamos, em circunstâncias semelhantes, «Souza Aguiar volta a sofrer com rede de esgotos» ou «Souza Aguiar volta a sofrer com sistema de esgotos», como na própria notícia se escreve. Antigamente, dir-se-ia encanamento.

Léxico: «alcaixa»


What one learns will depend on what one asks to begin with.


À marinheiro

      O leitor, e tradutor, A. M. L. pergunta-me se sei o nome que tem a gola postiça da blusa dos marinheiros. Como ainda ontem li, o que uma pessoa aprende depende do que pergunta. Também eu, por causa de uma dúvida, já uma vez fui ter com um alfaiate para me explicar um termo para uma tradução. A gola postiça, com listas em volta, que sai do decote da blusa dos marinheiros e abre sobre o peito, formando cabeção de cantos nas costas, designa-se alcaxa. Variantes: alcaixa e alcachaz.

Tradução: «massive»

Maciças são as portas

Nas traduções do inglês, não deixa de ser irritante que o massive seja quase sempre e só traduzido por — maciço. Ou, pior — massivo. Que raio, então e se fosse «grande», «imponente», «imenso», «poderoso», «enérgico», «gigantesco», «esmagador», «pesadíssimo», «enorme», «tremendo», «grosso»… Claro que o metus reverentialis, também ele maciço, dos revisores tem o seu peso.

Léxico: bruxismo

Imagem: http://www.ha-channel-88.com/

Santo Ofício


Pânico no dentista. «O nosso filho tem bruxismo!», bradam os pais à saída. Os outros pacientes, saindo de uma modorra receosa, alarmam-se. Ficam alerta. Escarafuncham os neurónios em demanda da palavra. Só ocorre «bruxa». Uma senhora, ainda jovem, levanta os olhos da Evasões e diz: «Isso não é nada. O meu filho sofre de restlesslegs

Léxico contrastivo: «orelhão»

Imagem: http://www.novomilenio.inf.br/

Escuta


«A depredação de telefones públicos atingiu no Estado do Rio a marca de 72 mil aparelhos somente no ano passado, informa a Oi, empresa de telefonia que substituiu a Telemar. Nas contas da companhia, todos os meses 6% das unidades são danificados. Ao todo, estão espalhados pelo Estado 100 mil orelhões» («A cada ano, 72 mil orelhões são depredados no Estado», Jornal do Brasil, 9.12.2007, p. A15). Mais uma vez, um objecto ficou conhecido pelo nome que lhe foi atribuído popularmente. No Brasil, os telefones públicos só surgiram nos passeios em finais de 1971. Em Portugal, os telefones públicos que estão no exterior, nas ruas, apenas têm a designação de cabinas telefónicas.

Léxico contrastivo: «gari»

Almeidas e garis

«Parte da mão-de-obra que poderia ser usada para varrer a cidade ou reforçar a coleta de lixo é hoje desviada para desgrudar de postes e parques papéis de propaganda colados ilegalmente. Os anúncios irregulares vão desde prostituição a professores particulares e são insistentemente retirados com espátulas e tinta pelos garis que trabalham na Comlurb» («Praga do papel colado tira garis da limpeza urbana», Jornal do Brasil, 9.12.2007, p. A15). Gari é o varredor de rua, e é mais um exemplo de derivação imprópria: o étimo é o antropónimo (Pedro Aleixo) Gary, antigo responsável pela limpeza das ruas do Rio de Janeiro. Francês de origem, Aleixo Gary estabelecera-se no Rio de Janeiro em 1859, com armazéns de drogas e produtos farmacêuticos, importação e exportação, assinando em 11 de Outubro de 1876 um contrato com o Ministério dos Negócios do Império para execução dos serviços de limpeza e irrigação da cidade, por um período de 10 anos, mas que se prorrogou até 1891. Temos um caso paralelo com o nome que ainda algumas pessoas dão aos varredores na cidade de Lisboa: almeidas. Deriva do antropónimo Almeida, apelido de um responsável da limpeza urbana da capital.

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