A praga do «confortável»

Inventem outra, por favor

      O adjectivo «comfortable», perdão, «confortável», é uma praga nas traduções e na escrita do dia-a-dia, mesmo nos textos mais banais. Agora, todos querem é conforto. «As interacções nos ambientes virtuais assentam, em grande parte, na comunicação escrita, sendo fundamental que os formandos se sintam confortáveis a expressar as suas ideias através desta forma de comunicação» (Oje, «O perfil ideal do e-formando», Filipa Viegas Abreu, 3.12.2007, p. VII). Alternativas? Recorrendo ao Compara, apresento seis exemplos literários.


«Bernard said he was too comfortable to move.»
«Bernard disse que que se sentia demasiado bem para se mexer.»

Excerto da obra Cães Pretos, de Ian McEwan, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues. Lisboa: Gradiva, 1993.


«Luis had waited until she was comfortable and then he had said he would go down to the hotel’s dining room and bar, just for an hour, and give José a bit of a fright.»
«Luis esperara até ela estar bem instalada e depois dissera que ia até à sala de jantar e ao bar do hotel, só durante uma hora, meter um susto a José.»

Excerto da obra Um Amante Espanhol, de Joanna Trollope, tradução de Ana Falcão Bastos. Lisboa: Gradiva, 1999.


«The photograph had been taken on a sunny day from the opposite side of the valley, providing the kind of comfortable composition suitable for a postcard or calendar.»
«A fotografia fora tirada num dia cheio de sol, do lado oposto do vale, e constituía uma composição agradável e apropriada para um postal ilustrado ou um calendário.»

Excerto da obra Os Inconsolados, de Kazuo Ishiguro, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues. Lisboa: Gradiva, 1995.


«I was only too aware of the possibility that if any guest were to find his stay at Darlington Hall less than comfortable, this might have repercussions of unimaginable largeness.»
«Tinha a consciência absoluta de que a possibilidade de algum convidado considerar a estada em Darlington Hall menos do que satisfatória poderia ter repercussões de inimaginável amplidão.»

Excerto da obra Os Despojos do Dia, de Kazuo Ishiguro, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues. Lisboa: Gradiva, 1991.

«To make him comfortable, she gave an aside half-smile, half-grimace.»
«Para o pôr à vontade, ela dirigiu-lhe de viés qualquer coisa que era metade sorriso, metade careta.»

Excerto da obra A filha de Burger, de Nadine Gordimer, tradução de J. Teixeira de Aguilar. Porto: Asa, 1992.

«Nothing,´ I replied; `I am as comfortable as can be; when will the brig sail?´»
«— Não preciso de nada — respondi — e estou tão bem quanto é possível. Quando é que o barco larga?»

Excerto da obra Aventuras de Arthur Gordon Pym, de Edgar Allan Poe, tradução de Eduardo Guerra Carneiro. Lisboa: Estampa, 1988.

Léxico: escrachado

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Casos de polícia

      E se os porta-vozes da polícia começassem a dizer que fulano tal, agora detido em flagrante delito, já estava «escrachado»* em vez de «referenciado»? E se os jornalistas, em vez de companhias de «low cost», dissessem companhias de «baixo custo»? Seria perigoso, pois ia pensar, por mim falo, que tinha acordado noutro país, e sentir-me-ia mal.

* Atenção, irmãos Brasileiros: o nosso «escrachado», também da gíria, não é o vosso, que significa «depravado, pervertido». O nosso refere-se ao indivíduo identificado criminalmente; fichado na polícia.

Ano litúrgico


O ano litúrgico de 2007-2008 começa hoje, dia 2 de Dezembro, que é o primeiro domingo do Advento. Ocasião, pois, para divulgar um texto, a vários títulos interessante, do padre Fernando Félix, missionário comboniano, publicado na revista Audácia, a melhor revista infanto-juvenil portuguesa, fundada em 1966.

O ano da fé


O ano civil começa a 1 de Janeiro e termina a 31 de Dezembro. Para os estudantes, a abertura das escolas em Setembro e a publicação das notas finais em Junho determina o ano escolar. Há o ano agrícola, o ano judicial... Também a Igreja tem o ano litúrgico: é o tempo em que os cristãos celebram a vida e mensagem de Jesus Cristo.

No ano 33 da nossa era, um grupo de homens e mulheres viveu uma experiência superdolorosa. Nos três anos anteriores tinham seguido um homem, chamado Jesus, que se apresentou como Filho de Deus. Ele seduziu multidões, fez discursos, contou histórias, curou doentes, ressuscitou mortos, defendeu os pobres e os marginalizados, condenou a injustiça e a hipocrisia. Quem o seguia acreditava n’Ele: era o Messias que Deus prometeu. Mas mataram Jesus numa cruz! Os discípulos, os 12 apóstolos e as mulheres que acompanhavam Cristo, fugiram ou esconderam-se.
Porém, Deus, que se revelou na criação do mundo, e Jesus Cristo, que venceu a morte, ressuscitando, enviaram a terceira pessoa da Santíssima Trindade, o Espírito Santo, para esclarecer a fé dos discípulos.
O Espírito Santo fez-lhes ver que Jesus era Deus e que Ele estava vivo. Mostrou-lhes que a Sua vida e mensagem tinham como missão salvar o mundo da maldade, conforme o Seu mandamento: «Como o Pai me amou, e Eu vos amei, amai-vos uns aos outros. Se vos amardes, todos compreenderão que sois meus discípulos. Ide pelo mundo, anunciai o Evangelho, fazei discípulos.»
E aqueles homens e aquelas mulheres foram testemunhas audazes. Reuniam-se cada semana para ler e rezar as Escrituras; anunciavam o Evangelho, celebravam a Eucaristia; eram solidários com os mais pobres; e baptizavam os que aderiam à Boa-Nova de Jesus. E a Igreja crescia.

O COMEÇO DAS FESTAS CRISTÃS

Naqueles primeiros tempos da Igreja havia uma única festa cristã: a Páscoa, que celebrava a ressurreição de Jesus, a Sua ascensão ao Céu e o envio do Espírito Santo. Celebrava-se uma vez por semana, no primeiro dia, a que os cristãos chamaram domingo, isto é, «Dia do Senhor», e, de modo mais solene, uma vez por ano, no domingo a seguir à primeira lua cheia da Primavera.
Mas a Igreja sentiu necessidade de ter mais tempo para saborear o significado da Páscoa. Criou, então, uma vigília, a que chamamos Tríduo Pascal, que vai de Quinta-Feira Santa ao Domingo de Páscoa. E acrescentou 50 dias festivos: o Tempo Pascal, que decorrem até à festa do envio do Espírito Santo, no Pentecostes.
Só na primeira metade do século IV a Igreja estabeleceu um período de preparação para a Páscoa: a Quaresma. E na segunda metade deste mesmo século surgiu o ciclo do Natal. Tinha um certo paralelismo com o ciclo pascal. O Natal tinha um tempo de preparação de quatro semanas, a que chamaram Advento (deriva o latim adventus, e significa «vinda, chegada»), e um tempo posterior, a Epifania (do grego epiphneía, cujo significado é manifestação), de duas semanas.
No século v, a Igreja já tinha um calendário para o ano litúrgico como o conhecemos hoje: além do Advento e Natal, da Quaresma e Páscoa, surgiu o Tempo Comum, que ocupa as restantes 33 ou 34 semanas do ano. Neste tempo a Igreja celebra a vida quotidiana de Jesus e faz memória dos santos.

O COMEÇO

O ano litúrgico 2007-2008 começa no próximo dia 2 de Dezembro, o primeiro domingo do Advento. Este calendário religioso não inicia no mesmo dia todos os anos. Porque é o Natal que determina o começo do ano da Igreja. O Natal tem data fixa — 25 de Dezembro —, mas percorre ciclicamente os dias da semana (em 2006 calhou a uma segunda-feira; este ano será numa terça). Como o Advento principia sempre no quarto domingo anterior, aquele factor faz que o ano litúrgico comece entre 27 de Novembro e 3 de Dezembro.
Até dia 24 de Dezembro, as vestes litúrgicas (paramentos) dos sacerdotes são roxos, com excepção do terceiro domingo de Advento, em que são rosa. O roxo é símbolo da penitência e do arrependimento — porque é necessário preparar o caminho do Senhor —, mas também da espera serena, através da oração, da leitura da Palavra de Deus, do jejum e da partilha dos bens. O rosa simboliza o entusiasmo de quem já está a cruzar a metade do percurso para a meta.
No Natal e nas duas semanas seguintes a cor das vestes é o branco. É sinal da perfeição (no branco estão presentes todas as cores), da pureza e da alegria plena. No primeiro domingo após o Natal comemora-se a família de Jesus (a Sagrada Família). No seguinte (dia 6 de Janeiro de 2008), lembra-se a visita dos magos a Jesus e a apresentação d’Este no Templo de Jerusalém.
O ciclo do Natal encerra com a celebração do Baptismo do Senhor (a 13 de Janeiro de 2008). Começa, então, o primeiro período do Tempo Comum, que decorre até à Quaresma.

O CENTRO

A comemoração da Páscoa é móvel e pode ocorrer entre 23 de Março e 24 de Abril. No novo ano litúrgico teremos o que se chama Páscoa baixa, pois vai ocorrer precisamente no dia 23 de Março. A Quarta-Feira de Cinzas, que marca o começo da Quaresma, retrocede na mesma proporção, e será a 6 de Fevereiro de 2008. E é igual a condição da festa de Pentecostes, com que culmina o tempo pascal a 11 de Maio.
As cores da Quaresma e da Páscoa voltam a ser o roxo e o branco. A excepção é a Sexta-Feira Santa e o Pentecostes, em que as vestes são vermelhas, símbolo do sangue mártir e do fogo.

O DESENVOLVIMENTO

Depois do Pentecostes retoma-se o Tempo Comum. Seguem-se 28 semanas. A solenidade de Cristo-Rei, a 23 de Novembro de 2008, encerra o calendário da Igreja. Neste tempo os paramentos são verdes, como sinal de esperança e da vida a crescer.

ESTRUTURA

Dia a dia, a Igreja medita textos retirados da Bíblia. Nos dias da semana há dois ciclos: um para anos pares e outro para os ímpares. Para os domingos existem três ciclos. No A proclama-se o Evangelho de S. Mateus; o B é dedicado a S. Marcos, e no C lê-se sobretudo S. Lucas, mas também há textos de S. João.
O ano litúrgico de 2007/2008 é o ciclo A.

Léxico contrastivo: «bacana»

Charadas

Comecemos, por uma vez, ao contrário. Primeiro o título da notícia: «Comida vencida em endereço de bacana». Poucos serão os leitores portugueses que a compreenderão. Agora as primeiras linhas: «O restaurante Garcia & Rodrigues, localizado em um dos metros quadrados mais caros do Rio, o Leblon, e freqüentado por figuras como Chico Buarque e o governador do Rio, Sérgio Cabral, teve que arcar com uma multa de R$ 25 mil por colocar à venda produtos impróprios para o consumo. A vigilância sanitária esteve no local ontem, depois de uma denúncia de que havia alimentos estragados no estabelecimento» (Anna Luiza Guimarães, Jornal do Brasil, 29.11.2007, p. A12). Ou seja, comida fora de prazo encontrada em ponto de encontro de gente rica.
Como adjectivo, «bacana» é o que os Brasileiros designam «palavra-ônibus» (de omnibus, para todos), a palavra, quase sempre de uso coloquial, cujas acepções são tão diversas que não comportam uma clara delimitação semântica, como, por exemplo, «coisar», «legal», «troço», entre outras. Como substantivo, como é usada na notícia, significa pessoa rica, que é a acepção que tem no lunfardo, de onde terá — o que é controverso — vindo.

Léxico contrastivo: «hidrômetro»

Medidor, contador…

      «A Agência Reguladora de Água e Saneamento (Adasa) realizou ontem audiência pública para discutir a implantação de hidrômetros individuais no DF. […] A polêmica sobre os hidrômetros começou em 2005, quando uma lei determinou que os prédios antigos teriam cinco anos para se adaptar à individualização» («Hidrômetro individual ainda causa divergências», Carolina Vicentin, Jornal do Brasil/Brasília, 29.11.2007, p. D6). É isso mesmo: o hidrômetro dos Brasileiros é o nosso contador da água.

Glossário de artes gráficas

Boas artes

      Será certamente útil este pequeno glossário, com 563 entradas, de artes gráficas e matérias afins (óptica, jornalismo, tipografia, etc.). Além de uma lista alfabética, inclui igualmente um directório de empresas relacionadas com as artes gráficas e um índice temático que permite consultar termos por grupos de interesse (PDF, óptica, tipografia, pré-impressão, etc.). Em espanhol, sim, mas, para algumas entradas, com os equivalentes em alemão, francês, inglês, italiano e português.

Tuscany = Toscana

Mas não

      «[Helene] Schjerfbeck estudou em Paris, depois seguiu para Pont-Aven, na Bretanha, onde pintou durante um ano, depois para a Toscânia, Cornualha e S. Petersburgo» («Glória póstuma para uma estrela finlandesa», OJE, 30.11.2007, p. 17). Mal traduzido da revista The Economist: «Schjerfbeck studied in Paris, went on to Pont-Aven, Brittany, where she painted for a year, then to Tuscany, Cornwall and St Petersburg.»

Erros e erratas

O corrector incorrecto (PE)

      Explicação na página 2 do semanário OJE, edição de hoje: «Um arreliador problema com o corretor automático dos textos, levou a que, na nota de ontem, o nome de Paulo Morgado fosse trocado com o de Paulo Macedo. Razão mais do que suficiente para a repetição da nota, na edição de hoje.» Dois erros numa explicação? Na próxima edição os leitores merecem uma explicação da explicação. Ah, claro: os jornais não têm a secção «erros da edição anterior», errata. Gramaticais, não.

O corretor incorreto (PB)

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