Léxico: salazar


Homenagem ao salazar

Em que dicionário de língua portuguesa é que se encontra o termo «salazar» para designar o raspador ou espátula usada na cozinha, e sobretudo na confecção de bolos, como o da imagem? Em nenhum, que eu saiba. Por ser um termo familiar? Decerto que não, pois os dicionários acolhem muitos termos familiares. Por estar politicamente conotado? Claro que não, pois todos os dicionários abrigam termos com conotações de diversa natureza e devem ser neutros quanto a conotações morais, políticas ou outras. Então, porquê? Como a tendência é os dicionaristas copiarem-se uns aos outros — e copiam-se mal, como se poderá comprovar consultando dicionários de épocas diferentes —, a explicação para todos recusarem acolher o vocábulo é simples. Insondável parece ser a razão de nenhum, dos mais recentes, o fazer. A etimologia — e a explicação, que é coisa diversa e muitas vezes obscura — estão estabelecidas, o uso é quotidiano e alargado. O que esperam os dicionaristas? Curiosamente, foi um estrangeiro que me perguntou o que era «um salazar». Ele escreveu assim mesmo, «um salazar», e não, como se vê escrito por portugueses neste grande repositório de coisas magníficas e de lixo execrável que é a Internet, «um Salazar». Nos hipermercados, se não encontrarem nenhum, perguntem por «raspadores de massa». Com sorte, não os mandam para o Aki, pois «aqui não vendemos produtos para vidraceiros».

Léxico contrastivo: «queda-de-braço»

O fito

«Depois de 19 meses à frente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Milton Zuanazzi deve seguir o caminho de outros quatro diretores e entregar hoje sua carta de demissão da presidência da agência. Foram três meses de resistência desde que Nelson Jobim assumiu o Ministério da Defesa, em julho» («Jobim vence a queda-de-braço e Zuanazzi decide deixar Anac», Alexandra Bicca, Jornal do Brasil, 31.10.2007, p. A7). É o nosso «braço-de-ferro», mas mais centrado no objectivo do que no meio.

A concordância de «extra»

Extraordinário

      «Ele alegou que a operação-padrão causaria prejuízos à população às vésperas do feriado de Finados, período de grande movimentação nos aeroportos. Francisco Lemos, diretor do sindicato, alegou que o real motivo da suspensão da operação ­ na qual os trabalhadores pararam de cumprir horas extras ­ foi a promessa de Gaudenzi em receber uma comissão do Sina em reunião na segunda-feira» («Gaudenzi entra no circuito e operação-padrão é suspensa», Jornal do Brasil, 2.11.2007, p. A6). Pois claro, e não — como a maioria dos jornalistas portugueses escreve, atentando contra a gramática e a nossa paciência — «horas extra».

Léxico contrastivo: «pedágio»

Portagens brasileiras

«As tarifas básicas dos consórcios vencedores variaram de R$ 0,997 a R$ 2,940, dependendo do trecho, muito inferiores às tarifas nos primeiros trechos privatizados, entre R$ 3,50 e R$ 7,80. O pedágio mais caro é o da Nova Dutra (São Paulo-Rio). No leilão, a espanhola OHL apresentou preços até 65,42% abaixo da tarifa máxima fixada pelo governo. Foi o caso da Fernão Dias (BR-381, entre Belo Horizonte e São Paulo). A rodovia terá o menor pedágio entre as estradas privatizadas brasileiras» («ANTT aprova pedágios mais baixos, mas será questionada», Jornal do Brasil, 2.11.2007, p. A18). De acordo com o Aulete Digital, é a «taxa que se paga para transitar numa rodovia: O pedágio tem-se tornado escandalosamente caro» e o próprio «posto onde se paga essa taxa: O ônibus quase não pára no pedágio». Vem do italiano pedaggio. É a nossa «portagem». «Nel Medioevo», regista o dicionário De Mauro, «tributo versato per il transito di persone e merci su strade e ponti» e a «tassa da corrispondere per il transito di veicoli su talune strade private o, talvolta, ponti: pagare il p. in autostrada la somma stessa da pagare». Em sentido figurado, pedaggio também é a «somma di denaro pagata o pretesa, talora in modo illecito, per ottenere favori: per avere aiuto da lui bisogna pagare il pedaggio». É o suborno, as luvas. Este sentido figurado também é usado no Brasil, embora os dicionários o não acolham.

Tradução de «Welfare state»

Prover ou prever?

Pergunta-me o leitor J. J. L.: «Gostava de lhe perguntar a sua opinião sobre a tradução de “Welfare State” — que vi ainda agora vertido como “Estado de bem-estar” no Público e que insisto em mudar para “Estado-previdência” (e não “providência”, como se diz e tanto escreve, o que poderia motivar um interessante debate sobre as duas concepções: tem o Estado de prevenir apenas ou de garantir sempre?).»
Em termos comparados, devo começar por dizer que em espanhol se diz «Estado de bienestar» ao que tão incertamente entre nós se diz ora «Estado-previdência» ora «Estado-providência» (e, para complicar ainda mais, alguns preferem dizer «Estado social»). A definição do Diccionario de la Real Academia é a seguinte: «Sistema social de organización en el que se procura compensar las deficiencias e injusticias de la economía de mercado con redistribuciones de renta y prestaciones sociales otorgadas a los menos favorecidos.» Atendendo ao fim deste tipo de organização política, dizê-la de «bem-estar» parece-me correcto. E «providência» ou «previdência»? Se «providência» (do latim providentia,ae) é a disposição antecipada ou prevenção que almeja ou conduz ao conseguimento de um fim e «previdência» (do latim praevidentia, «ver com antecipação, prever») a capacidade de prever ou adivinhar alguma coisa, parece que deva ser — e sempre assim escrevi — «Estado-providência». Mais uma vez em termos comparados, em francês diz-se «État-providence» e «État de bien-être». O Dicionário Houaiss regista «Estado-Providência»; o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, numa daquelas abonações inanes que oxalá não façam escola, cita precisamente o Público: «estado-providência». O mundo é pequeno. E perigoso.
Vasco Pulido Valente, sabe isso melhor do que eu, escreve «Estado-Previdência». Tem assim, caro J. J. L., muito por onde acertar ou errar.

Léxico contrastivo: «saidão»

Saído da casca

«Policiais da Delegacia de Repressão a Roubos (DRR) prenderam, ontem, um homem que praticava seqüestros relâmpagos na Asa Norte. Hermegildo Aires Mendes, 41 anos, conhecido como Magrão, estava preso no Centro de Progressão Penitenciária e fez sua vítimas durante os finais de semana e nos saidões do Dia dos Pais e do Dia das Crianças» («Detido presidiário que, durante ‘saidões’, fazia seqüestros relâmpagos», Carolina Vicentin, Jornal do Brasil/Brasília, 1.11.2007, p. D6). É o denominado, no Brasil, «livramento temporário», a nossa «saída precária».

Disparates jornalísticos

Eu sabia que era árabe


      «Tal como para Morais Sarmento, a PLMJ sempre funcionou como alforge ou berço político para vários dos seus advogados, a começar pelos líderes: António Maria Pereira foi deputado “laranja”, de 1985 a 97, e o ex-bastonário José Miguel Júdice foi líder da distrital de Lisboa do PSD» (A lei do mais forte», Tiago Fernandes, Visão, n.º 765, p. 37). Como é que um jornalista escreve um disparate destes? Alfobre deveria ter escrito, que é, em sentido figurado, um lugar que produz grande quantidade de qualquer coisa. Como o vocábulo tem várias variantes e uma delas é «alforbe» (a par de «alfofre» e «alfovre»), podia admitir-se que o jornalista a tivesse usado, tendo sido um revisor, por ignorar a palavra, a alvitrar erro ali onde havia somente desvio ao conhecido — mas de qualquer modo é erro, e erro grosseiro, a induzir em erro leitores menos preparados.
      Este texto jornalístico enferma de outros males, e um deles é o uso inadequado das aspas. Um exemplo: «[…] liderados por cada um dos 20 sócios de “capital” (o patamar mais alto, estando os de “indústria”, casos de Vítor Neves e José Jácome, um degrau abaixo.» Para que servem as aspas nas palavras «capital» e «indústria»? Tanto mais que umas linhas depois o jornalista escreve: «Em Novembro de 2006, a assembleia de sócios da PLMJ — 20 de capital e outros tantos de indústria — vota favoravelmente a redução dos 20 departamentos […].» Outro tipo de erro: «Na PLMJ, há, porém, quem garanta que o rombo provocado pela cisão e o efeito de arrastamento de clientes será mínimo. “A credibilidade e a força da instituição ainda são os valores mais seguros.” Alguns duvidam, e muito, deste auto-de-fé.» O jornalista queria dizer «profissão de fé», algo diverso e menos cruento. Assim vai a imprensa portuguesa.

Léxico contrastivo: «baderna»

«Lá em cima daquela serra, passa boi, passa boiada,
passa gente ruim e boa, passa a minha namorada.»

Herança italiana


«A Barra, com sua orla privilegiada, recebe durante todo ano um contingente de visitantes que busca usufruir da beleza natural que compõe sua paisagem. Mas esta procura não ocorre de forma organizada e consciente. A invasão acontece de maneira predatória e sem limites, principalmente no verão. Para coibir a ocupação desordenada e os abusos no trânsito, uma megaoperação comandada pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET-Rio) terá início amanhã, na Barra» («Operação combate baderna na orla», Eduardo Tavares, Jornal do Brasil/Barra, 1.11.2007, p. 3). Regista o Aulete Digital: «Desordem barulhenta; confusão, bagunça, bulício: “...você vai preparar as armas, para enfrentar o Targino amanhã, na hora da baderna, não vai?” (Guimarães Rosa, Sagarana*).» O étimo é o antropónimo Baderna, bailarina italiana que se radicou no Brasil em 1849.


* Para uma competente análise estilística desta obra, ver aqui.

Arquivo do blogue