Léxico contrastivo: «pau-de-arara»

Como disse?

«“Eu vejo todos os dias os meus colegas entrarem na escola sujos, cansaços e até machucados porque são transportados num caminhão, sentam em bancos improvisados de madeira e até correm o risco de acidentes. Graças a Deus, eu não soube de nenhum acidente nessa região, mas já tive notícias em outros locais.” Dessa forma, a estudante Mallena Nogueira Lira, 13, justifica a defesa do projeto, de sua autoria, que trata da substituição dos paus-de-arara (caminhões abertos com bancos improvisados) como transporte escolar. Mallena cursa a 7.ª série do ensino fundamental na Escola de Ensino Fundamental e Médio (EEFM) Deputado Joaquim de Figueiredo Corrêa, em Iracema, a 283 quilômetros de Fortaleza. Eleita na cidade “deputada-mirim”, Mallena disse que teve a idéia da proposta e pediu a ajuda da comunidade escolar para redigir o projeto que foi um dos três vencedores, no País, entre 211 apresentados à Câmara Mirim» («Deputada-mirim de Iracema quer fim de pau-de-arara», Rita Célia Faheina, O Povo, 31.10.2007, p. 12).

Léxico contrastivo: «mesário»

Da mesa

«A Justiça Nacional Eleitoral declarou aberta a votação às 8h, embora algumas das 73.771 mesas de votação registrassem problemas, devido à falta de mesários. O diretor nacional eleitoral, Alejandro Tullio, disse, no entanto, que a situação foi “normalizada” em todo o país antes das 11h» («Falta de mesários atrasa abertura de urnas», Jornal do Brasil, 29.10.2007, p. A21). Do latim mensarius,ii, é o membro das mesas das assembleias ou secções de voto. É esta locução, «membro da mesa», que usamos em Portugal para dizer o mesmo que os Brasileiros exprimem com a palavra «mesário». Na verdade, também os nossos dicionários registam o vocábulo, apenas não o usamos: «Mesário, s. m. Cada uma das pessoas que constituem a mesa de uma assembleia» (in Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado). Ricos mas avaros, entesouramos mas não usamos.

Léxico contrastivo: «boca-de-urna»

Sempre a perder

«A primeira-dama da Argentina, a senadora Cristina Fernández de Kirchner, de 54 anos, vai ser a primeira mulher eleita para a Presidência do país, segundo resultados das pesquisas boca-de-urna divulgadas em Buenos Aires, depois das eleições de ontem» («Cristina Kirchner vence segundo boca-de-urna», O Povo, 29.10.2007, p. 26). Era, é óbvio, demasiado arrojo para a nossa mentalidade conservadora passar das sondagens ou de qualquer circunstância relativa ao dia de eleições para «boca-de-urna». Esta inflexibilidade ancilosa o português europeu, subtraindo-o a uma plasticidade que parece — é — congenial ao português do Brasil. Mais perdemos.

Léxico contrastivo: «Cingapura»

_ ingapura

«Lucas Salatta conquistou neste domingo a medalha de prata na final dos 200 metros medley na etapa de Cingapura da Copa do Mundo de natação em piscina curta (25 metros). O nadador do Pinheiros obteve o tempo de 1min59s54, cerca de cinco segundos mais rápido em relação ao seu desempenho na prova classificatória (2min04s15)» («Brasil ganha medalha em Cingapura», O Povo, 29.10.2007, p. 3). O português do Brasil manteve a grafia tradicional portuguesa: Cingapura. Nós passámos a escrever Singapura. A propósito, o natural ou morador de Singapura é o singapuriano ou singapurense.

Plural dos apelidos

Finalmente!

      Pensavam que já me tinha esquecido? Pois não. «Kate e Gerry McCann utilizaram o “fundo Madeleine”, criado por amigos e parentes para financiar a busca da menina desaparecida em Portugal, para pagar a hipoteca da casa em Leicestershire, centro da Inglaterra, denunciou ontem o jornal Daily Mail» («McCanns usaram fundo para pagar casa», Jornal do Brasil, 31.10.2007, p. A23).


António Vieira, 400 anos

E em Portugal?

Veremos o que se fará em Portugal por ocasião dos 400 anos do nascimento do padre António Vieira. Os Brasileiros não estão parados, como se pode ver por este artigo do Jornal do Brasil. «O debate António Vieira e Machado de Assis: gigantes da língua portuguesa reuniu, na manhã de ontem, no auditório da Casa Brasil, os acadêmicos Alberto da Costa e Silva e Antonio Carlos Secchin e os ensaístas Alcir Pécora e Marco Lucchesi. Durante duas horas de conversa descontraída, mediada pelos jornalistas Tales Faria, editor-chefe do Jornal do Brasil, e Alvaro Costa e Silva, editor do caderno Idéias & Livros, a platéia de cerca de 50 leitores convidados pelo jornal teve a oportunidade de conhecer melhor a vida e a obra dos escritores.
Especialistas em Antônio Vieira,­ cujos 400 anos de nascimento serão comemorados no ano que vem, Alcir Pécora e Marco Lucchesi analisaram a trajetória política e religiosa do padre português, autor dos Sermões, que passou grande parte da vida no Brasil, país que considerava a sua segunda pátria. ­
— Grande parte da obra de Vieira, escrita em latim, continua inédita — lembrou Pécora.
De improviso, Alberto da Costa e Silva —­ que preside a comissão da Academia Brasileira de Letras que cuida da programação dos 100 da morte de Machado de Assis —­ traçou um paralelo entre os dois estilistas da língua, de temperamentos marcadamente discrepantes. ­
— Um era o oposto do outro. Machado era gago, Vieira um grande orador. Machado falava baixo, Vieira gritava. Na música, o brasileiro seria um quarteto de cordas e o português, uma orquestra —­ definiu o acadêmico.
Antonio Carlos Secchin preferiu fixar-se no romance Dom Casmurro e, em especial, na protagonista Capitu e sua suposta traição a Bentinho, narrador do romance.
O evento, primeiro de uma série promovida pelo JB, teve o apoio do Sesc-Rio e das editoras Record e Ulbra» («Machado e Vieira, gigantes da língua», Jornal do Brasil, 31.10.2007, p. A15).

Uma palavra por dia: «periodismo amarillo»

Também tu, Joseph

«Paradójicamente, el padre del periodismo amarillista lo es también del premio más prestigioso del periodismo: el Pulitzer. Falleció el 29 de octubre de 1911» («Joseph Pulitzer, el padre del amarillismo», Público, 29.10.2007, p. 41). O «periodismo amarillo» é a imprensa caracterizada pelo sensacionalismo.

Léxico contrastivo: «acostamento»

Encosta aí

«A paisagem é de galhos secos. Animais se espalham no campo de pasto raso e pequenas poças de água suja. No acostamento da rodovia, os agricultores passam em carroças ou puxam jumentos carregando água. Nos pequenos lugarejos, filas com homens, mulheres e até crianças em torno de uma cisterna que acabou de ser abastecida por um carro-pipa. A pressa é grande para levar pra casa o máximo que puderem de água. Levam latas na cabeça, depósitos suspensos em paus e cordas que colocam nos ombros e não cansam do vai-e-vem até que a cisterna fique seca» («Desolação no Sertão de Canindé», Rita Célia Faheina, O Povo, 25.10.2007, p. 10). Sim, «acostamento da rodovia» é brasileirismo. Na definição do Aulete Digital, é a «faixa lateral de uma estrada, fora da pista, destinada à parada de emergência de veículos, passagem de carros salva-vidas e ao trânsito de pedestres». Em Portugal, é a berma da estrada.

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