Uma palavra por dia: «ácrata»

Anarcas cultos

«Un grupo de jóvenes anarquistas italianos se plantó ante una iglesia del Opus Dei para protestar por las beatificaciones. La policia italiana, vestida de paisano según los portavoces del Opus Dei, disolvió la concentración con violencia» («Una protesta ácrata contra los mártires acabó a golpes», Público, 29.10.2007, p. 3). Ácrata: é o partidário da supressão de toda a autoridade (de a- e o grego κράτος, autoridade). Também temos o vocábulo, é verdade, mas não o usamos muito.

Léxico contrastivo: «rabiola»

A rabiola da pipa

Ainda a propósito dos papagaios de papel — pipas, no português do Brasil —, regressemos à notícia. «Voar com os pés no chão. Como? Soltando pipa. Ontem, no fim da tarde, no aterro da Praia de Iracema, centenas enfeitavam o céu. Foram mil distribuídas pela organização não governamental Mediando Saberes, que encerrava uma série de oficinas realizadas com 30 educadores numa parceria com a Fundação de Cultura, Esporte e Turismo (Funcet). Antônio Rodrigues, 12, dispensou a ajuda dos monitores para montar a pipa. Envergou uma das varas, emendou a linha, colocou a rabiola e num instante a pipa estava lá no alto, longe mesmo» («Pipas enfeitam céu da Praia de Iracema», Mariana Toniatti, O Povo, 22.10.2007, p. 3). Rabiola?... Um português não sabe. Rabiola é a cauda dos nossos papagaios de papel.

Uma palavra por dia: «amagar»

O Irão vai amargá-las

«George Bush amaga con una “Tercera Guerra Mundial” para meter miedo sobre Irán» («Cómo se fabrica la próxima guerra», Iñigo Sáenz de Ugarte, Público, 28.10.2007, p. 16). Talvez do gótico af-maga, «desamparar», e este derivado de magan, «ter força», segundo o Diccionario de la Real Academia, amagar é, no contexto, ameaçar alguém com algum mal ou mostrar intenção de fazê-lo.
Também temos, é verdade, o verbo amagar — mas não tem qualquer relação, pelo menos estabelecida, com este. Uma das acepções do nosso amagar é um brasileirismo que está registado no meu glossário do cavalo: levar (o corpo) à frente, quando montado a cavalo, para dar impulso à montaria. (Como vemos também, e dobramo-nos de riso, certos condutores fazerem.) Já o substantivo português «amago» deriva deste «amagar» espanhol: ameaça com fins de extorsão.

Palestino/palestiniano

De Palestina…


      «El primer ministro israelí, Ehud Olmert, sugirió ayer en la Kneset (Parlamento) que Israel podría hacer “concesiones” en el tema de Jerusalén y traspasar a los palestinos el control de ciertos barrios árabes de la ciudad santa» («Olmert plantea dejar zonas de Jerusalén a los palestinos», Eugenio García Gascón, Público, 16.10.2007, p. 15). O Diccionario de la Real Academia nem sequer regista «palestiniano». «Palestino», de palaestīnus, como já aqui vimos.

Léxico contrastivo: «caçamba»

Imagem: http://www.brasilcaminhoes.com.br/

A caçamba do caminhão

«Três pessoas morreram, ontem de madrugada, no capotamento de um caminhão Mercedes Benz, na altura do Km 52 da BR-304, no município de Aracati, a 159 quilômetros de Fortaleza. O veículo dirigido pelo motorista Everardo da Silva, seguia de Aracati com destino a Mossoró, no Rio Grande do Norte, conduzindo uma carga de cajus. […] “Uma outra pessoa que também vinha na caçamba teve mais sorte e os cajus não caíram sobre ela”, completa Félix. Os corpos deles foram trazidos para o Instituto Médico Legal» («Caminhão capota e mata três pessoas», O Povo, 28.10.2007, p. 3). Caçamba, segundo o Dicionário Houaiss, vem do quimbundo kisambu, «cesta, cesto grande», e significa «receptáculo de camiões, guindastes, escavadeiras, dragas, etc.». Em Portugal, dizemos «caixa». Camião de caixa aberta, no caso da imagem. Camião, caminhão… Escrevia o Prof. Vasco Botelho de Amaral em 1947: «Ora, eu também, no Novo Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, insisti em defender camião, mas, se nos fôssemos a guiar por grande parte do povo (tal como faz Aquilino Ribeiro para camionete), teríamos ambos de preferir camiom» (in Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947, p. 19). Passados mais de cinquenta anos, isto continua a ser verdade.

Uma palavra por dia: «borrador»

Esborratadelas

«Los implicados (asociaciones empresariales y gestoras de derechos) ya han recibido el borrador de la norma, aunque sin las cifras definitivas» («El canon digital ya se cobrará en las tiendas esta Navidad», Ana Tudela, Público, 17.10.2007, p. 34). É um rascunho, um borrão — um projecto. «Escrito provisional en que pueden hacerse modificaciones.» O nosso «borrão» tem o mesmo étimo latino: burra. Aliás, até temos em português o vocábulo «borrador» com o mesmo significado: «Caderno ou papel em que se faz rascunho, para depois passar a limpo» (in Aulete Digital).

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