Léxico contrastivo: «pipa»

Pipas no céu

«Voar com os pés no chão. Como? Soltando pipa. Ontem, no fim da tarde, no aterro da Praia de Iracema, centenas enfeitavam o céu. Foram mil distribuídas pela organização não governamental Mediando Saberes, que encerrava uma série de oficinas realizadas com 30 educadores numa parceria com a Fundação de Cultura, Esporte e Turismo (Funcet). Antônio Rodrigues, 12, dispensou a ajuda dos monitores para montar a pipa. Envergou uma das varas, emendou a linha, colocou a rabiola e num instante a pipa estava lá no alto, longe mesmo» («Pipas enfeitam céu da Praia de Iracema», Mariana Toniatti, O Povo, 22.10.2007, p. 3). Sim, mais um brasileirismo. Regista o Aulete Digital: «Armação composta por duas varetas cruzadas e recobertas por um papel fino, formando ger. um losango que contém em uma das pontas uma linha que facilita sua estabilidade quando posta em movimento para planar.» É o nosso papagaio de papel. A notícia acrescenta outros pormenores, como a origem histórica: «A pipa foi inventada na China há mais de 2000 anos, de lá seguiu para o Oriente, Oceania, África, Europa e depois América. No Quilombo dos Palmares, os negros, que já conheciam o artefato feito de palha e folhas, como na Oceania, o usavam para sinalizar de longe a chegada de inimigos. Hoje, nos morros cariocas, meninos que trabalham para o tráfico fazem a mesma coisa.» E cuidados elementares: «CUIDADO! Nunca use cerol, o pó de vidro com cola. Pode machucar gravemente quem estiver por perto. Além disso, a linha com cerol pode conduzir eletricidade. A de algodão não. Evite empinar pipas perto de fios elétricos. Se a pipa se enroscar num fio desses, não tente tirá-la. Por ali passam correntes elétricas.»

Banco de neologismos

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      Com bancos de esperma, de óvulos, de gâmetas, de leite humano, do tempo, de jardim, de neve, de nuvens, de sementes, de bens doados, de sangue, alimentares, farmacêuticos, entre outros, já era tempo de haver um banco de neologismos. A língua espanhola já o tem. Ver aqui.

Uma palavra por dia: «zanjado»

Também temos

«Caja Madrid da casi por zanjada la crisis del crédito», Virginia Zafra, Público, 17.10.2007, p. 31. Zanjada significa, no contexto, «removida», «ultrapassada», «vencida», «resolvida». Vem de zanjar, e este de sanjar (do francês antigo jansier, «fender, rachar», e este do latino *charassāre, e este, por sua vez, do grego charassein, que também está, indirectamente, na origem do vocábulo «carácter»). Na definição do Diccionario de la Real Academia: «Remover todas las dificultades e inconvenientes que puedan impedir el arreglo y terminación de un asunto o negocio.»
Em português, temos dois vocábulos, pouco ou nada usados, que têm como étimo sanja: «sanja», precisamente, e «sanjar». O Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, regista: «Sanja, s. f. Abertura ou sarjeta própria para escorrer a água; rego (por entre os bacelos nas vinhas).│Fig. Fenda, golpe; incisão.│Prov. alg. Recorte na terra, para o funcionamento da roda do moinho movido por água.» «Sanjar, v. tr. e intr. Fazer ou abrir sanjas em (terreno).»

Léxico contrastivo: «corte»

Cortes na Corte

«Divergências numa Corte de 11 ministros são e sempre foram constantes, mas os ataques e divergências levados para o lado pessoal eram raridade. Desde o mês passado, essas discordâncias têm gerado discussões grosseiras e troca de acusações. Os ministros mais antigos no STF [Supremo Tribunal Federal] relacionam o acirramento dos ânimos à troca recente de sete dos 11 ministros do Supremo. Não estariam esses novos ministros acostumados com o julgamento numa Corte, com o confronto de opiniões» («Quando a Corte sai do sério», Felipe Recondo, O Povo, 21.10.2007, p. 29). Claro que no Brasil também se usa o vocábulo «tribunal» — em Portugal é que não se usa a palavra «corte» nesta acepção. Já se usou: «A casa e corte do cível» (Frei Luís de Sousa, apud Aulete Digital).

Léxico contrastivo: «repasse»

Como?!

«A coordenadora do Núcleo de Endemias da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), Socorro Furtado, reconhece a dificuldade em relação aos recursos. “Os repasses do Ministério da Saúde são insuficientes. A gente sempre está procurando resolver a situação dentro das limitações financeiras. A gente encaminha as solicitações, pede o material, mas a notícia que a gente tem é que os recursos são insuficientes para as demandas”, explica» («Repasse insuficiente», Lucinthya Gomes, O Povo, 20.10.2007, p. 6). Repasse (que provém, por derivação regressiva, do verbo «repassar») é, na definição do Aulete Digital, a «transferência total ou parcial de crédito, verba, etc., de uma empresa, entidade, órgão governamental, etc., para outro a ele vinculado ou não (repasse de tributos/de dinheiro)». Em Portugal, diríamos «verbas atribuídas ou transferidas», «dotação financeira» ou simplesmente «transferências».

Uma palavra por dia: «fuelle»

«Uma gralha três dias gritou tanto, que sem folgo caiu na veia pura.»
Diogo Bernardes, Lima, Écloga XVII

Ar

«Los Kaczynski pierden fuelle antes de las elecciones» (Guillem Sans Mora, Público, 17.10.2007, p. 14). Fuelle é o nosso «fole» (do latim follis), mas no contexto é termo coloquial e poderá traduzir-se por «fôlego». Ou, como diz o povo, «folgo». (A despropósito: o termo francês fou (ou fol, e no feminino folle) vem deste follis latino, que significava «fole, saco cheio de ar», e daí a «cabeça cheia de ar, vazia», do louco.)

«Êmbolos»? Embolas!

Touro mecânico

Ler pode ser perigoso. «Luís Carloto Marques, deputado do MPT, eleito nas listas do PSD, denunciou o “acto gratuito de crueldade sobre os animais”, que marcou as últimas festas do Montijo. Os requerimentos que apresentou ainda não obtiveram resposta, mas esta prática (largada de touros com êmbolos de fogo) já havia sido proibida no passado, em Santarém, graças a uma providência cautelar interposta por associações de defesa dos animais» («Touro em chamas», Visão, n.º 762, 11.10.2007, p. 37). Êmbolos? Só faltam as bielas. Bem, nem sequer «embolo», que somente existe como forma verbal. Embolar é, no contexto, como os meus leitores sabem, pôr bolas (na linguagem do meio, embolas), de couro e de metal, como a lei exige, nos cornos dos touros. O substantivo registado é «embolação». Tanto quanto se pode avaliar pelas três fotografias publicadas pela Visão (o vídeo no YouTube deixou de estar disponível), trata-se precisamente de embolar os touros com uma substância que se põe a arder. Por coincidência, na mesma edição desta revista, é usada a palavra «embolador»: «Junto dos curros, José Alcachão é o embolador de serviço» («Por detrás da arena», Sara Rodrigues, Visão/Sete, p. 6).
Já depois de ter redigido este texto, pedi ao embolador António Estorninho um esclarecimento. A sua resposta foi: «O nome correcto é “embolas ou êmbolas de fogo”. Este modelo de embolas é totalmente diferente das usadas nas nossas corridas, onde se lidam reses emboladas. As embolas de fogo são formadas por uma armação de ferro, ajustada ao corno com a extremidade envolta em tecido embebido num líquido inflamável.»

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