Léxico contrastivo: «corte»

Cortes na Corte

«Divergências numa Corte de 11 ministros são e sempre foram constantes, mas os ataques e divergências levados para o lado pessoal eram raridade. Desde o mês passado, essas discordâncias têm gerado discussões grosseiras e troca de acusações. Os ministros mais antigos no STF [Supremo Tribunal Federal] relacionam o acirramento dos ânimos à troca recente de sete dos 11 ministros do Supremo. Não estariam esses novos ministros acostumados com o julgamento numa Corte, com o confronto de opiniões» («Quando a Corte sai do sério», Felipe Recondo, O Povo, 21.10.2007, p. 29). Claro que no Brasil também se usa o vocábulo «tribunal» — em Portugal é que não se usa a palavra «corte» nesta acepção. Já se usou: «A casa e corte do cível» (Frei Luís de Sousa, apud Aulete Digital).

Léxico contrastivo: «repasse»

Como?!

«A coordenadora do Núcleo de Endemias da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), Socorro Furtado, reconhece a dificuldade em relação aos recursos. “Os repasses do Ministério da Saúde são insuficientes. A gente sempre está procurando resolver a situação dentro das limitações financeiras. A gente encaminha as solicitações, pede o material, mas a notícia que a gente tem é que os recursos são insuficientes para as demandas”, explica» («Repasse insuficiente», Lucinthya Gomes, O Povo, 20.10.2007, p. 6). Repasse (que provém, por derivação regressiva, do verbo «repassar») é, na definição do Aulete Digital, a «transferência total ou parcial de crédito, verba, etc., de uma empresa, entidade, órgão governamental, etc., para outro a ele vinculado ou não (repasse de tributos/de dinheiro)». Em Portugal, diríamos «verbas atribuídas ou transferidas», «dotação financeira» ou simplesmente «transferências».

Uma palavra por dia: «fuelle»

«Uma gralha três dias gritou tanto, que sem folgo caiu na veia pura.»
Diogo Bernardes, Lima, Écloga XVII

Ar

«Los Kaczynski pierden fuelle antes de las elecciones» (Guillem Sans Mora, Público, 17.10.2007, p. 14). Fuelle é o nosso «fole» (do latim follis), mas no contexto é termo coloquial e poderá traduzir-se por «fôlego». Ou, como diz o povo, «folgo». (A despropósito: o termo francês fou (ou fol, e no feminino folle) vem deste follis latino, que significava «fole, saco cheio de ar», e daí a «cabeça cheia de ar, vazia», do louco.)

«Êmbolos»? Embolas!

Touro mecânico

Ler pode ser perigoso. «Luís Carloto Marques, deputado do MPT, eleito nas listas do PSD, denunciou o “acto gratuito de crueldade sobre os animais”, que marcou as últimas festas do Montijo. Os requerimentos que apresentou ainda não obtiveram resposta, mas esta prática (largada de touros com êmbolos de fogo) já havia sido proibida no passado, em Santarém, graças a uma providência cautelar interposta por associações de defesa dos animais» («Touro em chamas», Visão, n.º 762, 11.10.2007, p. 37). Êmbolos? Só faltam as bielas. Bem, nem sequer «embolo», que somente existe como forma verbal. Embolar é, no contexto, como os meus leitores sabem, pôr bolas (na linguagem do meio, embolas), de couro e de metal, como a lei exige, nos cornos dos touros. O substantivo registado é «embolação». Tanto quanto se pode avaliar pelas três fotografias publicadas pela Visão (o vídeo no YouTube deixou de estar disponível), trata-se precisamente de embolar os touros com uma substância que se põe a arder. Por coincidência, na mesma edição desta revista, é usada a palavra «embolador»: «Junto dos curros, José Alcachão é o embolador de serviço» («Por detrás da arena», Sara Rodrigues, Visão/Sete, p. 6).
Já depois de ter redigido este texto, pedi ao embolador António Estorninho um esclarecimento. A sua resposta foi: «O nome correcto é “embolas ou êmbolas de fogo”. Este modelo de embolas é totalmente diferente das usadas nas nossas corridas, onde se lidam reses emboladas. As embolas de fogo são formadas por uma armação de ferro, ajustada ao corno com a extremidade envolta em tecido embebido num líquido inflamável.»

Uma palavra por dia: «desoír»

Desouvir

«El Gobierno francés intento ayer arrancar a España una mayor participación en la futura fuerza de la UE para Darfur (Sudán), pero Madrid se limitó a reiterar su oferta de aviones de transporte logístico y su negativa a contribuir con tropas» («España desoye la petición de París de enviar tropas a Sudán», Andrés Pérez, Público, 16.10.2007, p. 22). Desoír é desatender, deixar de ouvir. Em português também temos o verbo desouvir, ou não fosse o prefixo des- um dos mais produtivos, mas não significa o mesmo nem é usado. Veja-se: «Desouvir, v. tr. Não ouvir; desentender» (in Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado).

Léxico contrastivo: «bilhão»

Demasiado simples…

Davam-nos jeito estas reduções, sobretudo nas publicações periódicas, mas somos avessos a simplificações: «BNDES vai pedir US$ 2 bi ao Bird» (O Povo, 18.10.2007, p. 28). «Atração de empresas custará R$ 100 mi» (O Povo, 17.10.2007, p. 26). Bilhão é, no Brasil, mil milhões, 1 000 000 000 (mas em Portugal, de acordo com a NP-18, de 1960, um bilião é um milhão de milhões: 1 000 000 000 000), vem do francês billion e tem como redução bi. Já o milhão tem a redução mi.

Web do Museo del Prado

Ah, eles percebem

«El Museo del Prado estrenó ayer su nueva página web, que incluye información práctica en doce idiomas, así como biografías de 1.600 [Em rigor: 1646] pintores y datos detallados sobre las grandes obras maestras de su pinacoteca. Además, los internautas podrán participar en juegos ‘on-line’ y tener información sobre los fondos antiguos del museo» («El Museo del Prado estrena web en doce idiomas», Público, 16.10.2007, p. 40). Doze línguas — entre as quais não está o português. Ver aqui.

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