Léxico contrastivo: «carro-pipa»

Imagem: http://www.quixeramobim.ce.gov.br/

Contra a estiagem brasileira


«Está suspenso o abastecimento de água por carros-pipa nos municípios do Ceará atendidos pelo Programa Emergencial de Distribuição de Água que funciona desde abril com recursos do Ministério da Integração Nacional em parceria com o Ministério da Defesa» («Abastecimento por carros-pipa está suspenso no Ceará», Rita Célia Faheina, O Povo, 15.10.2007, p. 11). Aquilo a que chamamos, em Portugal, «autotanque» ou «camião-cisterna» tem, no Brasil, o nome, muito mais sugestivo, de «carro-pipa». Que o Dicionário Houaiss regista: «carro-pipa s.m. camião dotado de grande tanque, ou reservatório, utilizado no transporte de água. ● GRAM pl.: carros-pipa e carros-pipas

Uma palavra por dia: «amañar»

Manhas e manias


      «Conmoción en el tenis mundial. El británico Andy Murray aseguró ayer que “hay partidos que están siendo amañados y hay jugadores que están advertidos”, en referencia a presuntos fraudes relacionados con casas de apuestas» («Murray admite el amaño de partidos», Público, 10.10.2007, p. 59). «Jogos combinados», escreve o Diário Digital. «Resultados arranjados», afirma o GloboEsporte. Murray disse que «all tennis players are aware that some men’s matches are fixed». Amañados vem, parece óbvio, de maña. E este vem, provavelmente, do latim *manĭa, «habilidade manual». Amañar é, entre outras coisas, preparar ou dispor algo com engano ou artifício. Também o português «amanhar» resulta, por parassíntese, de «manha». As formas derivantes, em português, são normalmente adjectivos ou nomes e as formas derivadas são verbos.

Dálitas, em espanhol

Intocáveis

Também o diário espanhol Público optou por adaptar, como fez o Expresso entre nós, a palavra «dalit»: «La iniciativa es del movimiento popular Ekta Parishad, una organización presente en 4.000 pueblos indios, que involucra a más de diez millones de personas, fundamentalmente campesinos sin tierra, intocables (dalitas) y miembros de comunidades tribales. Los organizadores esperan que participen hasta 25.000 campesinos sin tierra. Una vez en Delhi, entregarán al primer ministro Manmohan Singh sus reivindicaciones y que se lleve a cabo la prometida reforma agrária» («Los ‘sin tierra’ y los intocables recorren 350 kilómetros para pedir sus derechos», Público, 3.10.2007, p. 18).

Uma palavra por dia: «zurcir»

Língua inconsútil

«Nadie diría que Godfrey H. Hardy fuera un hombre preocupado por la estética. Un caballero sin abrigo, com la cabeza descubierta y la ropa mal zurcida violaba todos los cánones en el elegante Londres de principios del siglo XX» («La madre de Ramanujan, el dictado de la diosa y el ateo», Jorge Barrero, Público, 13.10.2007, p. 38). «Zurcida»? Vem de surcir*, e este do latim sarcio, sarsi, sartum, sarcire, «remendar», «cerzir»**. Aliás, o nosso «cerzir» tem como étimo este mesmo verbo latino. O vocábulo sastre — uma das mais belas palavras espanholas, que me encanta desde pequeno — também pertence à mesma família, pois vem do latino sartor, «alfaiate». Em português, temos o adjectivo «sartório», que os estudantes de Medicina conhecem bem: é um músculo da coxa, o mais longo do corpo humano, também chamado costureiro. E porquê? Pois porque o costureiro, que trabalha sentado, apoia na coxa o trabalho que está a fazer.

* «1. tr. Coser la rotura de una tela, juntando los pedazos con puntadas o pasos ordenados, de modo que la unión resulte disimulada. 2. tr. Suplir con puntadas muy juntas y entrecruzadas los hilos que faltan en el agujero de un tejido. 3. tr. Unir y juntar sutilmente una cosa con otra. 4. tr. coloq. Combinar varias mentiras para dar apariencia de verdad a lo que se relata» (in Diccionario de la Real Academia).



** Atenção: verbo irregular: muda o e em i nas formas rizotónicas do Presente do Indicativo (cirzo, cirzes, cirze, cerzimos, cerzis, cirzem) e em todo o Presente do Conjuntivo (cirza, cirzas, cirza, cirzamos, cirzais, cirzam), à semelhança de outros, como agredir, progredir, regredir e transgredir.


Uma palavra por dia: «racimo»

Imagem: http://tadamon.resist.ca/

Aos cachos


«Un soldado britânico murio ayer en el sur de Líbano al estallarle en las manos una bomba de racimo que intentaba desactivar, según informo la fuerza interina de la ONU en esa zona del país (FINUL). Israel lanzó cuatro millones de bombas de racimo sobre Líbano durante la guerra que mantuvo en el verano del año pasado contra la milicia chií de Hizbolá» («Muere un artificiero británico en Líbano», Público, 12.10.2007, p. 16). Quase poético, não é? No entanto, são tão mortais como o podem ser certa poesia. Bombas-cacho, lê-se em alguma imprensa portuguesa. Como seria de esperar, a maioria da imprensa prefere «bombas cluster», e já temos sorte não escreverem cluster bombs. Também são referidas como «bombas de fragmentação».

Ortoépia: soror

A décima musa portuguesa

A dúvida surge de vez em quando — e sem o Assim Mesmo como seria? Ou será sem Vasco Botelho de Amaral — a quem todos aludiam e ninguém citava? «No século XVII há duas freiras notáveis: Soror Violante do Céu, a “décima musa portuguesa”, e Soror Mariana Alcoforado.
Há quem diga Sóror, mas Sorór era como se proferia nos conventos, de acordo com o acusativo latino sorōrem. O povo manteve a prosódia sorór e serór e abreviadamente sôr» (in Estudos de Apoio ao Português, Livraria Avis, Porto, 1978, p. 166).

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