Uma palavra por dia: «zurcir»

Língua inconsútil

«Nadie diría que Godfrey H. Hardy fuera un hombre preocupado por la estética. Un caballero sin abrigo, com la cabeza descubierta y la ropa mal zurcida violaba todos los cánones en el elegante Londres de principios del siglo XX» («La madre de Ramanujan, el dictado de la diosa y el ateo», Jorge Barrero, Público, 13.10.2007, p. 38). «Zurcida»? Vem de surcir*, e este do latim sarcio, sarsi, sartum, sarcire, «remendar», «cerzir»**. Aliás, o nosso «cerzir» tem como étimo este mesmo verbo latino. O vocábulo sastre — uma das mais belas palavras espanholas, que me encanta desde pequeno — também pertence à mesma família, pois vem do latino sartor, «alfaiate». Em português, temos o adjectivo «sartório», que os estudantes de Medicina conhecem bem: é um músculo da coxa, o mais longo do corpo humano, também chamado costureiro. E porquê? Pois porque o costureiro, que trabalha sentado, apoia na coxa o trabalho que está a fazer.

* «1. tr. Coser la rotura de una tela, juntando los pedazos con puntadas o pasos ordenados, de modo que la unión resulte disimulada. 2. tr. Suplir con puntadas muy juntas y entrecruzadas los hilos que faltan en el agujero de un tejido. 3. tr. Unir y juntar sutilmente una cosa con otra. 4. tr. coloq. Combinar varias mentiras para dar apariencia de verdad a lo que se relata» (in Diccionario de la Real Academia).



** Atenção: verbo irregular: muda o e em i nas formas rizotónicas do Presente do Indicativo (cirzo, cirzes, cirze, cerzimos, cerzis, cirzem) e em todo o Presente do Conjuntivo (cirza, cirzas, cirza, cirzamos, cirzais, cirzam), à semelhança de outros, como agredir, progredir, regredir e transgredir.


Uma palavra por dia: «racimo»

Imagem: http://tadamon.resist.ca/

Aos cachos


«Un soldado britânico murio ayer en el sur de Líbano al estallarle en las manos una bomba de racimo que intentaba desactivar, según informo la fuerza interina de la ONU en esa zona del país (FINUL). Israel lanzó cuatro millones de bombas de racimo sobre Líbano durante la guerra que mantuvo en el verano del año pasado contra la milicia chií de Hizbolá» («Muere un artificiero británico en Líbano», Público, 12.10.2007, p. 16). Quase poético, não é? No entanto, são tão mortais como o podem ser certa poesia. Bombas-cacho, lê-se em alguma imprensa portuguesa. Como seria de esperar, a maioria da imprensa prefere «bombas cluster», e já temos sorte não escreverem cluster bombs. Também são referidas como «bombas de fragmentação».

Ortoépia: soror

A décima musa portuguesa

A dúvida surge de vez em quando — e sem o Assim Mesmo como seria? Ou será sem Vasco Botelho de Amaral — a quem todos aludiam e ninguém citava? «No século XVII há duas freiras notáveis: Soror Violante do Céu, a “décima musa portuguesa”, e Soror Mariana Alcoforado.
Há quem diga Sóror, mas Sorór era como se proferia nos conventos, de acordo com o acusativo latino sorōrem. O povo manteve a prosódia sorór e serór e abreviadamente sôr» (in Estudos de Apoio ao Português, Livraria Avis, Porto, 1978, p. 166).

Estrangeirismo: «flyer»

Língua provinciana ou a Lei de Skitt*

O semanário Gazeta das Caldas, que sai às sextas-feiras, traz na edição desta semana um texto crítico sobre um cartaz e um desdobrável relativos ao Mês da Música, publicados pela Câmara Municipal das Caldas da Rainha e distribuídos por toda a cidade. Os erros apontados são, concedo, vergonhosos — «seia» em vez de «ceia» e «percurssão» em vez de «percussão» —, mas o texto, da autoria de Ana Elisa Sousa, não é recomendável. Começa mesmo mal: «Os cartazes e flyers a anunciar a programação para o “Mês da Música”, organizado pela Câmara Municipal e o Centro da Juventude, local onde vão ter lugar os eventos, apresenta dois erros ortográficos.» Nas Caldas não conhecem as palavras «desdobrável», «folheto» ou «prospecto», por exemplo, para o anglicismo flyer, usado, além disso, sem aspas nem itálico?
Quem quiser que lhe diga: asousa@gazetacaldas.com.


* Obrigado, Álvaro Sanromán.

Uma palavra por dia: «chapa»

Imagem: http://www.amedisk.com/

Chapa?


«Desde que la cultura punk las pusiera de moda, las chapas se han convertido en un soporte de protesta y reafirmación. Tan sólo un aspecto ha cambiado desde entonces, y es que el diseño ya no viene impuesto desde arriba. De hecho, las empresas que se encargan de fabricarlas admiten encargos a la carta, de modo que el potencial portador se puede implicar en su diseño. Chapas decorativas, reivindicativas, con guiños al pop art… Todo está al alcance del consumidor con tal de que respete una regla: abreviar» («¿Das la chapa?», Isabel Repiso, Público, 11.10.2007). Experimentem telefonar para uma empresa de brindes portuguesa e perguntem por chapas (sim, entre as dezenas de acepções do vocábulo português, poderá estar esta). Responderão de imediato que «é engano, não está a telefonar para uma serralharia». Pin, sim. Embora, agora, com a democratização dos cartões bancários e com os telemóveis, venha mais facilmente à memória o PIN de Personal Identification Number… Claro, também são bem conhecidas em Portugal como badges — tanto assim é que o Dicionário da Academia se viu forçado a registar o termo, ignorando umas largas centenas de outros portugueses.

Uma palavra por dia: «lacra»

Pechas hindus

«Aunque supone un paso adelante para erradicar esta costumbre, el sitio web de Naresh no aborda aún otras lacras, como la discriminación entre castas que impone el sistema jerárquico hindú. Ese será su próximo objetivo: una página en la red en la que las castas no importen» («Los hindúes eluden la dote a través de la web», Shilpi Singh, Público, 10.10.2007, p. 17). De origem desconhecida, como tantos outros vocábulos, «lacra» significa «secuela o señal de una enfermedad o achaque» e «vicio físico o moral que marca a quien lo tiene». Logo, podemos traduzi-lo, consoante o contexto, por «chaga», «pecha», «defeito», «mancha», «vício»…

Mandarim, outra vez

Manda quem pode

Porque já aqui falei, a pedido de um leitor, da etimologia do vocábulo «mandarim», surgiu agora a oportunidade de divulgar o que escreveu o Prof. Vasco Botelho de Amaral sobre o mesmo assunto: «Gonçalves Viana também disse que mandarim assenta no indostano mantri. E Dalgado apresenta o sânscrito e o neo-árico mantri. (Como se sabe, o indostano tem base gramatical neo-árica). Além destes autores portugueses, poderei citar vários estrangeiros. Por exemplo, Davidson, Dauzat, etc., os quais registam o mesmo mantri. Nada nos impede, aliás, de pensar que os Portugueses, ao tomarem conhecimento das funções dos mandarins, alterassem o nome oriental destes por compreensível relacionação de tal nome com a palavra portuguesa mandar, cuja ideia se adaptava às funções» (Vasco Botelho de Amaral, Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947, p. 290).

Aviamento: acepções

Em extinção

Há uma acepção do vocábulo «aviamento» que não é encontradiça. Trata-se da acepção «conclusão ou andamento de um negócio, de uma actividade». Eis que surge: «Mas os planos europeus [prosseguidos através dos acordos de parceira económica, como o Acordo de Cotonou] compreendem também a erradicação das bolsas de pobreza e o apoio da integração económica regional, através da harmonização dos quadros normativos nacionais e o aviamento da transformação das relativas economias, a fim de as integrar nos processos de globalização» («Acordos de Parceria Económica», Marco Cochi, revista Além-Mar de Novembro). Eu sei: o próprio termo em si, independentemente da acepção, não se encontra facilmente na imprensa. Mais um motivo para trazer para aqui este achado. Mérito do tradutor, pois o termo corresponderá certamente ao italiano avviamento: «l’avviare e il suo risultato, avvio: a. dei lavori pubblici│inizio di un’attività commerciale: a. di un locale pubblico». Na burocracia italiana, avviare una pratica é dar início a um processo.

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