Estrangeirismo: «flyer»

Língua provinciana ou a Lei de Skitt*

O semanário Gazeta das Caldas, que sai às sextas-feiras, traz na edição desta semana um texto crítico sobre um cartaz e um desdobrável relativos ao Mês da Música, publicados pela Câmara Municipal das Caldas da Rainha e distribuídos por toda a cidade. Os erros apontados são, concedo, vergonhosos — «seia» em vez de «ceia» e «percurssão» em vez de «percussão» —, mas o texto, da autoria de Ana Elisa Sousa, não é recomendável. Começa mesmo mal: «Os cartazes e flyers a anunciar a programação para o “Mês da Música”, organizado pela Câmara Municipal e o Centro da Juventude, local onde vão ter lugar os eventos, apresenta dois erros ortográficos.» Nas Caldas não conhecem as palavras «desdobrável», «folheto» ou «prospecto», por exemplo, para o anglicismo flyer, usado, além disso, sem aspas nem itálico?
Quem quiser que lhe diga: asousa@gazetacaldas.com.


* Obrigado, Álvaro Sanromán.

Uma palavra por dia: «chapa»

Imagem: http://www.amedisk.com/

Chapa?


«Desde que la cultura punk las pusiera de moda, las chapas se han convertido en un soporte de protesta y reafirmación. Tan sólo un aspecto ha cambiado desde entonces, y es que el diseño ya no viene impuesto desde arriba. De hecho, las empresas que se encargan de fabricarlas admiten encargos a la carta, de modo que el potencial portador se puede implicar en su diseño. Chapas decorativas, reivindicativas, con guiños al pop art… Todo está al alcance del consumidor con tal de que respete una regla: abreviar» («¿Das la chapa?», Isabel Repiso, Público, 11.10.2007). Experimentem telefonar para uma empresa de brindes portuguesa e perguntem por chapas (sim, entre as dezenas de acepções do vocábulo português, poderá estar esta). Responderão de imediato que «é engano, não está a telefonar para uma serralharia». Pin, sim. Embora, agora, com a democratização dos cartões bancários e com os telemóveis, venha mais facilmente à memória o PIN de Personal Identification Number… Claro, também são bem conhecidas em Portugal como badges — tanto assim é que o Dicionário da Academia se viu forçado a registar o termo, ignorando umas largas centenas de outros portugueses.

Uma palavra por dia: «lacra»

Pechas hindus

«Aunque supone un paso adelante para erradicar esta costumbre, el sitio web de Naresh no aborda aún otras lacras, como la discriminación entre castas que impone el sistema jerárquico hindú. Ese será su próximo objetivo: una página en la red en la que las castas no importen» («Los hindúes eluden la dote a través de la web», Shilpi Singh, Público, 10.10.2007, p. 17). De origem desconhecida, como tantos outros vocábulos, «lacra» significa «secuela o señal de una enfermedad o achaque» e «vicio físico o moral que marca a quien lo tiene». Logo, podemos traduzi-lo, consoante o contexto, por «chaga», «pecha», «defeito», «mancha», «vício»…

Mandarim, outra vez

Manda quem pode

Porque já aqui falei, a pedido de um leitor, da etimologia do vocábulo «mandarim», surgiu agora a oportunidade de divulgar o que escreveu o Prof. Vasco Botelho de Amaral sobre o mesmo assunto: «Gonçalves Viana também disse que mandarim assenta no indostano mantri. E Dalgado apresenta o sânscrito e o neo-árico mantri. (Como se sabe, o indostano tem base gramatical neo-árica). Além destes autores portugueses, poderei citar vários estrangeiros. Por exemplo, Davidson, Dauzat, etc., os quais registam o mesmo mantri. Nada nos impede, aliás, de pensar que os Portugueses, ao tomarem conhecimento das funções dos mandarins, alterassem o nome oriental destes por compreensível relacionação de tal nome com a palavra portuguesa mandar, cuja ideia se adaptava às funções» (Vasco Botelho de Amaral, Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947, p. 290).

Aviamento: acepções

Em extinção

Há uma acepção do vocábulo «aviamento» que não é encontradiça. Trata-se da acepção «conclusão ou andamento de um negócio, de uma actividade». Eis que surge: «Mas os planos europeus [prosseguidos através dos acordos de parceira económica, como o Acordo de Cotonou] compreendem também a erradicação das bolsas de pobreza e o apoio da integração económica regional, através da harmonização dos quadros normativos nacionais e o aviamento da transformação das relativas economias, a fim de as integrar nos processos de globalização» («Acordos de Parceria Económica», Marco Cochi, revista Além-Mar de Novembro). Eu sei: o próprio termo em si, independentemente da acepção, não se encontra facilmente na imprensa. Mais um motivo para trazer para aqui este achado. Mérito do tradutor, pois o termo corresponderá certamente ao italiano avviamento: «l’avviare e il suo risultato, avvio: a. dei lavori pubblici│inizio di un’attività commerciale: a. di un locale pubblico». Na burocracia italiana, avviare una pratica é dar início a um processo.

Uma palavra por dia: «ictus»

O ritmo da morte

«Controlar la hipertensión, no fumar, vigilar el colesterol y hacer ejercicio moderado para mejorar la condición cardiaca, son prácticas que pueden prevenir los ictus o derrames cerebrales» («Medidas para prevenir los derrames cerebrales», Público, 9.10.2007, p. 43). Ictus, pois. No contexto, não é o acento métrico, é o «cuadro morboso que se presenta de un modo súbito y violento, como producido por un golpe» (do latim ictus, golpe, pancada, e em especial o que marcava o ritmo). Também em português temos o vocábulo e a acepção médica, ambos desusados. Temos, até, palavras em que entra como elemento de formação, como «ictiúltimo»: diz-se do vocábulo que tem o acento tónico na última sílaba; agudo; oxítono. E a propósito de medicina, a Real Academia Nacional de Medicina apresenta na edição da Feira do Livro de Frankfurt (que este ano tem como convidada de honra a cultura catalã) que hoje começa o maior dicionário de terminologia médica do mundo.

«Icto, s. m. Acentuação mais forte de uma sílaba em palavra ou frase; acento tónico.│Mús. Notas muito acentuadas do primeiro e do último tempo forte de um ritmo.│Ataque mórbido que se manifesta de forma brutal.│Batimento, pulsação» (in Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa, de António de Morais Silva).

Etimologia: mouco

Imagem: Fresco de Fra Angelico (c. 1450) de Prisão de Cristo.

A poesia dos verbetes

No verbete actualizado do vocábulo «mouco», o Dicionário Aulete, a respeito da etimologia, regista: «De or. obsc., talvez ligado a mocho.» Mas o verbete original afirmava: «F[ormação ou étimo]. arameu Malka (rei), através do lat. Malchus (nome de um dos soldados que prenderam Cristo e a quem S. Pedro cortou uma orelha).» Talvez por acharem demasiado fantasiosa a etimologia estabelecida até hoje, os responsáveis deste dicionário decidiram modificar o verbete. Aliás, o Dicionário Houaiss também afirma ser a etimologia de «mouco» de origem obscura, mas talvez ligada a «mocho». Lembro a história bíblica, que se pode ler no Evangelho segundo S. João, 18,10: «Nessa altura, Simão Pedro, que trazia uma espada, desembainhou-a e arremeteu contra um servo do Sumo Sacerdote [Caifás], cortando-lhe a orelha direita. O servo chamava-se Malco.» Nas palavras da Vulgata: «Simon ergo Petrus, habens gladium, eduxit eum et percussit pontificis servum et abscidit eius auriculam dextram. Erat autem nomen servo Malchus.» Caifás dissera ao seu servo que este era os seus ouvidos. Em hebraico, o nome do servo era Melekh (nos caracteres hebraicos, ךלמ), que significa «rei», muito comum nas línguas semitas.

Ir para o maneta

Frase feita

A propósito do lançamento de várias obras sobre a História de Portugal, escrevia José Gabriel Viegas na revista Actual: «Deste conjunto faz igualmente parte Ir Pró Maneta, de Vasco Pulido Valente (Alêtheia). O «Maneta» é o lendário (e famigerado) Louis Henri Loison, general dos Exércitos franceses que participou nas três invasões da Guerra Peninsular. Ficou na história da saga napoleónica sobretudo pela sua total falta de escrúpulos no que tocava à apropriação em proveito próprio dos saques e impostos cobrados em zonas ocupadas e, em Portugal, pela dureza e crueldade com que tratava as populações submetidas. Traços de carácter que deram origem à expressão «ir pró maneta» e que inspiraram numerosas rimas satíricas populares, como esta: “Aos alheios cabedais/ lançava-se como seta/ namorava branca ou preta/ toda a idade lhe convinha./ Consigo três Emes tinha:/ Manhoso, Mau e Maneta.” O livro de Vasco Pulido Valente não se fica, porém, por estes aspectos anedóticos, sendo a figura de Loison o ponto de partida para um ensaio rigoroso e vivo da história das Invasões Francesas» («Regresso à História», José Gabriel Viegas, Expresso/Actual, 5.10.2007, p. 52). De facto, ir para o maneta ou mandar para o maneta passou a significar «escangalhar-se; estragar-se; perder-se (no sentido de não ter recuperação)», conforme pode ler-se no Dicionário de Expressões Populares Portuguesas, de Guilherme Augusto Simões (Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1993, p. 376). Orlando Neves, no Dicionário de Expressões Correntes (Círculo de Leitores, Lisboa, 2000, pp. 270-71), cita não apenas estes, mas também outros versos.

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