Ensino do Português

Agora só falta trabalhar


Foram divulgadas na segunda-feira as recomendações da Conferência Internacional sobre o Ensino do Português, realizada em Maio deste ano. Respigo do Jornal de Notícias de ontem: «“Importa sensibilizar e responsabilizar todos os professores, independentemente da sua área disciplinar, no sentido de cultivarem uma relação com a língua norteada pelo rigor e pela exigência da correcção linguística”, aconselhou o comissário da reunião, Carlos Reis. No que respeita aos erros ortográficos, o professor e também reitor da Universidade Aberta alertou para o efeito prejudicial do excesso de tolerância perante tais falhas. «É fundamental que o ensino da língua considere o erro como efectiva transgressão de um sistema linguístico que tem regras. Assim, o professor de Português (e, com ele, os professores de todas as outras disciplinas) deve encarar o erro, alertando para a sua ocorrência e desincentivando a sua prática”, sublinhou. Neste contexto, deve instituir-se esta cultura de rigor e exigência na própria formação dos docentes, acrescentou, ainda» («Reforçar a gramática», Ana Oliveira Rodrigues, 18.09.2007, p. 9). Como seria de esperar, a Associação de Professores de Português (APP) não concorda que haja tal atitude permissiva. «“Nem pensar, não há qualquer permissividade. Nos exames os erros são penalizados e os alunos sabem disso”, contrapõe», segundo o Diário de Notícias de ontem, a vice-presidente desta associação, Edviges Ferreira. As recomendações finais foram ainda a de reintroduzir o ensino da gramática na aprendizagem da língua e integrar textos literários nas aulas.

Inglês. Falsos cognatos

Falsos, refalsos amigos

     É notícia hoje no Jornal de Notícias: «São conhecidas as “gaffes” de Bush em cerimónias oficiais. Ontem, foi a José Sócrates que coube esse papel. Nas curtas declarações após o encontro com o presidente norte-americano, o primeiro-ministro arriscou falar em inglês, começando por agradecer o “sympathetic invitation”. O que pretendia ser o agradecimento de um simpático convite acabou por ser um convite de comiseração, logo seguido de referências aos problemas no “midwest”. Ou melhor… no Médio Oriente» («O mau inglês de Sócrates», Jornal de Notícias, 18.09.2007, p. 3).

Falsos cognatos: «merlo»

Está tudo ligado…

Dizia o original italiano: «Cecilia Metella suonava come un nome misterioso e il gigantesco sepolcro, a forma di cilindro o tamburo coronato di merli, ci appariva come un castello delle favole, misterioso e altissimo.» O tradutor achou que a tradução não podia ser outra senão: «Cecilia Metella ecoava como um nome misterioso e o gigantesco sepulcro, em forma de cilindro ou de tambor coroado de melros, parecia-nos um castelo de fábula, misterioso e altíssimo.» Que estariam estas simpáticas aves, que agora vejo todos os dias em Lisboa, a fazer no alto do sepulcro? É claro que merlo, mesmo em italiano, não é somente o «uccello dal verso melodioso molto comune nei boschi, nei giardini e nei terreni coltivati», mas também «ciascuno dei ripari in muratura eretti a intervalli regolari come coronamento architettonico dei muri perimetrali di torri, castelli, fortificazioni, ecc. a scopo di difesa o di ornamento». Os nossos merlões. Aliás, o étimo é italiano, através do francês merlon. De resto, de merlo para melro só com uma metástase ou muita desatenção. A etimologia do nosso «melro» é outra: merulus, i. Contudo, no The American Heritage pode ler-se, a propósito da etimologia de merlon («A solid portion between two crenels in a battlement or crenelated wall»): «French, from Italian merlone, augmentative of merlo, battlement, perhaps from Medieval Latin merulus, from Latin, merle (from their imagined similarity to blackbirds sitting on a wall).»


Homenagem: Aquilino Ribeiro

E leiam-lhe os livros


É notícia do Público de hoje: «O escritor Aquilino Ribeiro (1885-1963) será, depois de amanhã, o décimo português a ser sepultado no Panteão Nacional com honras de Estado, juntando-se a três escritores, quatro Presidentes da República, um general e uma fadista, Amália Rodrigues. Por decisão do Parlamento, os restos mortais do autor de O Malhadinhas serão trasladados do Cemitério dos Prazeres para o Panteão Nacional, situado na Igreja de Santa Engrácia, em Lisboa, numa cerimónia a que assistirão o Presidente da República, o primeiro-ministro e o presidente da Assembleia da República» («Aquilino Ribeiro no Panteão Nacional», 17.09.2007, p. 8).

Tabus: arte degenerada

Cuidado com a língua!

É notícia hoje no Público: «Um cardeal alemão provocou ontem reacção acalorada ao avaliar que a arte e cultura modernas estão à beira de “degenerar” — termo que se tornou tabu na Alemanha por ter sido usado pelo regime nazi na perseguição feita aos artistas cujas criações não estavam de acordo com os gostos e padrões do III Reich. “Quando a cultura se desliga da reverência divina, o culto sucumbe em ritualismo e a cultura degenera. Perde o seu cerne”, afirmou o cardeal Joachim Meisner, arcebispo de Colónia, no discurso de inauguração de um museu local. Um porta-voz do cardeal apressou-se a explicar que Meisner não tivera intenção de prestar tributo a “velhas ideologias”. Mas a expressão “entartete Kunst” (arte degenerada), usada pelo cardeal, tem um único significado na Alemanha: o que está ligado à perseguição dos nazis aos artistas, à proibição de milhares de pinturas, à queima de livros. A afirmação do cardeal — a segunda com evocação nazi feita por uma personalidade alemã nesta semana (a apresentadora de televisão Eva Herman foi despedida no domingo passado por ter elogiado as políticas familiares do III Reich) — foi criticada pelo secretário da Cultura alemão, Hans-Dietrich, e pelo antigo ministro da Cultura Michael Vesper» («Cardeal alemão usou termo nazi para a arte», Público, 16.09.2007, p. 21).

Tradução: «plaga»

Isso agora...

Interessante, a reflexão do Prof. Cláudio Moreno a propósito da tradução adequada do termo latino plaga, usado pelo Papa Bento XVI na exortação apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis, referindo-se ao casamento entre duas pessoas divorciadas. «Praga» ou «chaga»? Ou é tudo o mesmo? «Agitur de quaestione pastorali ardua et complicata, vera quadam plaga hodierni contextus socialis, quae ipsas provincias catholicas crescente transgreditur modo.» Na versão portuguesa lê-se: «Trata-se dum problema pastoral espinhoso e complexo, uma verdadeira praga do ambiente social contemporâneo que vai progressivamente corroendo os próprios ambientes católicos.» A imprensa brasileira parece que ficou muito agitada com a questão. Ver aqui. Posso estar enganado, mas a magna questão não nos tocou.

Ortografia: co-piloto

Espera aí

Até me assustei ao ler: «Em Maio, André Saint-Maurice, um copiloto de 22 anos de Cascais que é visitante frequente da comunidade de Taizé — e o Bisonte mais novo —, fez a sua primeira missão de longo curso, até ao Afeganistão, com escala em Salónica, Grécia» («Os militares humanitários», António Melo, Público/P2, 15.09.2007, p. 9). Como o escrevem quatro vezes, é de admitir que estejam a falar a sério. Mas a palavra fica transfigurada, pois sempre a vi grafada com hífen, e bem, já que o prefixo co- (redução de com, do latim cum) quando significa «a-par» é sempre seguido de hífen.
Entretanto, as instalações sanitárias inventadas pelo Público continuam a ser construídas: «Ainda antes da prova dos vinhos de 2005, no Aquapura Douro Valley (ver texto de David Lopes Ramos), Tomás sentiu necessidade de ir à casa-de-banho do hotel» («O urinol», Pedro Garcias, Público/Fugas, 15.09.2007, p. 18).

Tradução: «barrister»

O preclaro causídico

      «No Reino Unido, a maior parte do Direito não está em códigos, resultando de casos julgados que fazem a regra dali para a frente. “Mesmo quando existem regras codificadas elas determinam o máximo da pena a aplicar num tipo de crime, mas normalmente não há mínimos”, explicou ao PÚBLICO Fred Ferguson, um advogado de barra (barrister) especializado na área criminal. Estes defensores, ao contrário do que acontece em Portugal, só podem fazer julgamentos. Por outro lado, os solicitors só prestam apoio jurídico» («Gerry e Kate McCann terão ido ontem reunir-se com os seus advogados ingleses», Mariana Oliveira, Público, 15.09.2007, p. 8). Não foi há muito tempo que vi — juro! — o termo barrister traduzido por «advogado causídico».

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