Dalai-lama, outra vez

Ao certo…

«Ontem mesmo, ao que o PÚBLICO apurou, um conselheiro da Embaixada da China foi recebido no gabinete de Jaime Gama — mas não pelo próprio —, numa audiência pedida pelos chineses para antecipar a chegada de Kenzin Gyatso (o nome de nascença do Dalai Lama e aquele que os apoiantes de Pequim utilizam)» («China enviou diplomata à AR antes da chegada do Dalai Lama», Leonete Botelho, 12.09.2007, p. 2). Nome de nascença? Bem, parece-me tão ridículo como dizer que o nome de nascença do actual papa é Joseph Ratzinger. De resto, e ao certo, é que o nome não é Kenzin Gyatso, como escreve a jornalista. Nem, também, Tenzin Yatso, como escreve outro jornalista, C. P., na página 3: «A grande procura de bilhetes para assistir à conferência pública do Dalai Lama levou a organização a colocar à venda mais dois mil lugares. Se a lotação esgotar, serão cerca de 10 mil as pessoas que ouvirão Tenzin Yatso no próximo domingo à tarde no Pavilhão Atlântico, em Lisboa» («Conferência domingo no Pavilhão Atlântico: Organização disponibilizou mais dois mil lugares»).
Se o leitor tiver paciência e chegar à página 4, um texto de Bagão Félix, que não é jornalista, acerta no nome do dalai-lama: «Tenzin Gyatso, que está em Portugal pela segunda vez, é o décimo quarto Dalai Lama, Nobel da Paz, guia espiritual do budismo tibetano e chefe do povo tibetano» («Kosovo, Tibete, Zimbabwe»).

Artigo com topónimos

Na Venezuela, com a Antena 1

Nas notícias das 2 da tarde, na Antena 1, ouço que duas malas com droga e «aparentemente sem dono» foram detectadas no aeroporto de Caracas, «em Venezuela». Porquê em Venezuela? Sempre ouvi dizer e li, e escrevo e digo, na Venezuela. A propósito, o país tem este nome porque (é apenas umas das teorias, desmentida pelos etnonacionalistas) a primeira visão que os navegadores europeus tiveram foi a de uma série de casas sobre estacas, palafíticas, que evocavam Veneza, e daí Venezuela, «Pequena Veneza».

Francisco Umbral

Aqui ao lado

Para os apreciadores da prosa luminosa de Francisco Umbral, o El Mundo disponibiliza 13 anos de crónicas (1994-2007) do escritor, falecido a 28 de Agosto. Aqui. Para aguçar o apetite, deixo os primeiros dois parágrafos da primeira crónica, «El tabaco», publicada no dia 3 de Janeiro de 1994.


«El Gobierno ha caído en el error de siempre: subir el tabaco a primeros de año. En un país con casi cuatro millones de parados no se puede subir el tabaco, porque los parados comen tabaco, mastican tabaco, se intercambian tabaco, matan el tiempo con el tabaco, se drogan de tabaco y hasta fuman tabaco.
El tabaco va siendo ya un vicio de pobres y la España de Felipe es pobre. Se pueden subir los coches, que la gente ya tiene uno para llevar la suegra a Morata de Tajuña, que se ventile la momia. Se puede subir lo caro, que a los del pelotazo todavía les queda la última calderilla de Mario Conde para comprarse relojes suizos, relojes que hasta te dicen qué año te va a dar el infarto. Se puede subir la lencería fina, ahora que vuelve a hacerse el amor con la luz apagada, como manda el Papa Wojtyla, y da igual llevar las bragas viejas. Se pueden subir las corbatas, porque la gente ha encontrado otras maneras de ahorcarse. Se puede subir la gasolina, que todos necesitamos bajar lípidos y nos conviene empujar un poco el coche. Se puede subir la brillantina, ahora que ya nadie va a imitar a Mario Conde. Se pueden subir las compresas y que se arreglen con el corcho del champán de Nochevieja. Se pueden subir las sardinas, que el gentío ya ha aprendido a comer caviar gratis en los cócteles. Se pueden subir los teatros, que la gente de todas maneras no va a ir. Se puede subir el cine, que Hollywood seguirá copando la Gran Vía. Se puede subir lo caro y lo superfluo en general, se puede subir lo innecesario y lo caprichoso, que de todo eso nadie va a prescindir, pero lo que no se puede es subir el tabaco.»

Léxico: cafeicultor


Fotografia de uma guatemalteca de Sebastião Salgado. (Foto: EFE)

Aprender com os vizinhos


Leio no El Mundo: «El fotógrafo brasileño Sebastião Salgado muestra en Londres 25 fotografías de caficultores tomadas en Brasil, India, Etiopía y Guatemala desde el año 2002 y que documentan la dureza de ese trabajo.» Fui ver se também temos o termo. Cá está, no Dicionário Houaiss: «Cafeicultor adj.s.m. que ou o que cultiva café ou é dono de plantação de café; cafezeiro, cafezista.»

Virtualmente?

Tudo na mesma


      «Bin Laden — que escapou à invasão americana do Afeganistão, em 2001 — é “virtualmente impotente” para a conselheira da Casa Branca em segurança interna, Fran Townsend» («Bin Laden vivo, livre e a fazer vídeos», Dulce Furtado, Público, 11.09.2007, p. 5). «Virtually impotent», disse ela. «Quase impotente», deveria escrever a jornalista. Em espanhol, sim, pode escrever-se dessa forma, porque «virtualmente», bem ou mal, está dicionarizado como «casi, a punto de, en la práctica, en la realidad».

Creditação?

Não (a)creditem



      Titulava hoje o jornal Público: «Consultores financeiros lutam pela creditação da profissão» (Anabela Campos, 10.09.2007, p. 31). É um neologismo dispensável, este. A notícia começa por dizer: «Há em Portugal cerca de 1200 pessoas a prestar serviços de aconselhamento financeiro na área do crédito sem certificação, qualquer registo ou supervisão por parte do Banco de Portugal.» Ah, então é disso que se trata: certificação ou reconhecimento da profissão. Ou terá caído um a, na confusão do fecho da edição? Acreditação: reconhecimento oficial de pessoa ou entidade para efeitos legais ou profissionais.


Verbo escalar

Qual peixe

Na sua habitual crónica no Público, Rui Tavares analisa o último vídeo de Bin Laden e escreve: «Por outro lado, Bin Laden ameaçou escalar a violência no Iraque» («No pesadelo do Barba Negra», 10.09.2007, p. 36). Percebe-se, é verdade, mas não está correcto: nenhuma das acepções do verbo escalar corresponde ao significado pretendido. Porque não «aumentar»?

Disputa linguística belga

No país dos Belgas

      Vale a pena ler a síntese da disputa linguística belga feita pela jornalista Isabel Arriaga e Cunha no Público de hoje: «As disputas linguísticas entre flamengos e francófonos são tão velhas quanto o país. Criado em 1830 depois da independência face aos Países Baixos, o novo Estado não tinha inicialmente uma língua oficial: os belgas, que grosso modo trouxeram consigo o latim do Império romano e as línguas germânicas dos “bárbaros”, falavam então sobretudo uma série de dialectos do francês e do holandês. Na prática, no entanto, o francês funcionava como língua oficial, em grande parte para marcar a distância face aos holandeses e como símbolo da coesão nacional. Era, igualmente, a língua falada pelas elites — incluindo na Flandres — deslumbradas pela cultura francesa, enquanto o flamengo, considerado um dialecto rústico, era falado na cozinha e no campo. A humilhação de que se sentiram vítimas por parte dos francófonos suscitou uma forte reacção dos flamengos e a criação de um movimento que, de defensor da língua, se foi transformando ao longo do tempo em nacionalista. O afastamento das duas comunidades ficou consolidado com a criação, em 1963, de uma fronteira linguística que consagrou o unilinguismo flamengo na Flandres, francófono na Valónia e o bilinguismo de Bruxelas (que conta, no entanto, com 80 por cento de francófonos). Em paralelo com a afirmação da língua, a Flandres passou de uma região sobretudo rural a uma das mais dinâmicas da Europa, pioneira numa série de sectores inovadores e com uma grande capacidade exportadora. Ao invés, a Valónia, em tempos rainha da siderurgia e do carvão, continua à procura de uma especialização que lhe permita travar a decadência provocada pelo fim das grandes indústrias pesadas» («Disputas tão velhas quanto o país», p. 14).

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