Registo linguístico

Anais e menstruais

      No Público de hoje, a jornalista Mariana Oliveira traça «A história do casal McCann»: «Nos entretantos, mais precisamente em 2004, conta o Expresso, viveram em Amesterdão, onde Gerry tirou uma especialização em Imagiologia» (p. 7). Não me parece que escrever «nos entretantos» se adeqúe ao que se espera de um jornal dito de referência. É mais próprio do telenovelesco prefeito Odorico Paraguaçu, no Bem-Amado: «Deixemos de lado os entretantos e vamos directo aos finalmentes!» A continuar assim, ainda vamos ver o Público a escrever que este caso «entrará para os anais e menstruais do País e do mundo».

Léxico: vicário

Sucedâneos seguros

«Só que o cidadão médio fica em casa, longe de qualquer ameaça ou de qualquer perigo, e se treme pela sua segurança, como dizem os jornais, treme com o gozo vicário do amador de soft-porn» («Espectáculos», Vasco Pulido Valente, Público, 9.09.2007, p. 44).

Vicário adj. (do latim vicarius, -a, -um) Que substitui outra coisa ou pessoa.

Gíria: capeador

É bom saber

«Em linguagem de rua, “era um grande capeador”. Um capeador é uma espécie de sinaleiro. Passa a vida junto a uma boca de tráfico de droga, a orientar “clientes” (toxicodependentes) para o seu “patrão” (o traficante). “Vai ao S.! O S. é que é bom!” Acumulava estas funções com as de mensageiro: detectava dois indivíduos, cheirava-lhe a polícia, gritava: “Água! Água!” Luís tinha o seu valor como mensageiro. “Via muito bem a bófia e ver muito bem a bófia é salvar o traficante.”» («Luís era um grande capeador», Ana Cristina Pereira, Público, 9.09.2007, p. 13).

Dalai-lama

Como?

«“Oficialmente, Dalai Lama não é recebido por responsáveis do Governo português, como é óbvio”, declarou a jornalistas o ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, à margem da reunião informal dos chefes das diplomacias dos Vinte e Sete, que ontem terminou em Viana do Castelo» («Governo evasivo sobre visita de Dalai Lama», Público, 9.09.2007, p. 8). O dislate não é, desta vez, do jornalista, mas do ministro. Dito assim, até parece que «dalai-lama» é o nome e não a função da pessoa, neste caso Tenzin Gyatso. Sendo uma função equivalente à de papa, substitua então o ministro um pelo outro e diga, sem se rir: «Oficialmente, Papa não é recebido por responsáveis do Governo português, como é óbvio.» O jornalista, repito, escreveu correctamente: «Instado sobre por que razões considerava óbvia a recusa do Governo de Lisboa em receber oficialmente o Dalai Lama, Luís Amado afirmou: “Pelas razões que são conhecidas.” Apesar de não ser recebido pelo Governo nesta sua segunda visita a Portugal, para uma conferência pública e ensinamentos budistas, o Dalai Lama vai manter encontros com deputados portugueses e com o alto-representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações, Jorge Sampaio.»

Ortoépia: transgénico

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Tens a culpa, Eufémia


Não sou, nem pouco mais ou menos, um recta-pronúncia, embora procure sempre falar bem, articulando correctamente as sílabas. Não sou, por isso mesmo, suspeito ao afirmar que estranho muito e condeno que muita gente — e especialmente, que é o que interessa aqui, pelas repercussões, os jornalistas — não pronuncie o s da palavra «transgénico». «Trangénicos», dizem eles. «Crime», digo eu. Se o s está lá, é para se ler, ou não?

Clareza e precisão

Não percebo

      Lê-se no editorial, assinado por Nuno Pacheco, do Público de hoje: «Agora que Kate e Gerry McCann, pais de Madeleine, foram constituídos arguidos (o que não quer dizer culpados ou réus, distingam-se os conceitos) por, diz a PJ, suspeita de envolvimento num crime de ocultação de cadáver (são estes os termos usados), é mais do que nunca necessária uma atitude prudente e distanciada da imprensa, tal como é fundamental que a polícia cumpra o que lhe é exigido desde o início neste caso, que exige respostas claras e pistas seguras e não bodes expiatórios para proveito mediático» («O caso Maddie e os riscos que ainda se corre», 8.09.2007, p. 36). Porquê a oração parentética «são estes os termos usados»? Como se os referidos termos — que suponho serem somente os últimos dois: «ocultação de cadáver» — fossem algo abstruso, de tão incomum, incompreensível para o leitor. São, quem escreve sabe-o bem, os termos da lei, o artigo 254.º («Profanação de cadáver ou de lugar fúnebre») do Código Penal. Nem a recentíssima, de 4 do corrente, vigésima terceira alteração (Lei n.º 59/2007) ao Código Penal, que é de 1982, buliu nos termos deste artigo. Logo num tempo, e esta edição do Público é particularmente ilustrativa da tendência, em que se verifica uma judicialização extrema da sociedade e dos meios de comunicação, estranha-se a estranheza.

Uso do hífen

Simples, por favor

Atenção: o jornal Público começou hoje a escrever o conjunto «casa de banho» com hífenes! «Um apito e uma lanterna para obrigar indianos a ir à casa-de-banho» (Público/P2, 8.09.2007, p. 5). Parece ser uma convicção firme, pois escreve assim onze vezes, mas recentíssima: no dia 2 do corrente, por exemplo, punha o senador Larry Craig a instar por sexo contranatura numa casa de banho convenientemente desifenizada: «Não havia outra saída para Larry Craig, um ultraconservador do Estado conservador de Idaho, após terem surgido notícias de que o senador se tinha declarado culpado de conduta lasciva por ter solicitado sexualmente um homem numa casa de banho pública de um aeroporto» («O senador anti-gay demitiu-se», Maria João Guimarães, P2, 2.09.2007, p. 7). E dois dias depois, ainda, como não, a propósito do picolho hipócrita, lá estava uma latrina do mesmo género, igualmente desataviada de hífenes: «Então não é que um senador do Partido Republicano dos EUA, conservador e puritano, anti-gay, foi preso por conduta obscena numa casa de banho de um aeroporto do Minnesota?» («A conduta obscena da lei americana», José Vítor Malheiros, 4.09.2007, p. 33). Como é que em quatro dias se esqueceram de que nas locuções substantivas o hífen é dispensável?

Estrangeirismos

Take guilt

Um leitor, Júlio Alves, avisa-me: «Já temos um chief nursing officer, por despacho do Ministro António Correia de Campos (DR, 2.ª série, 31/08/2007). Aguarda-se a nomeação do xerife (não na sua etimologia árabe…).» Fui confirmar para lamentar. De facto, na 2.ª série do Diário da República, n.º 168, lá está o Despacho n.º 19 816/2007: «Considerando a importância que tem para o País a função de chief nursing officer, no âmbito da política de enfermagem, que providencia um aconselhamento especializado nas matérias desta área da prestação de cuidados, com relevância específica no que concerne a medidas de intervenção na actuação dos enfermeiros; Considerando as qualidades pessoais e experiência profissional do enfermeiro Sérgio Gomes, mestre em Ciências de Enfermagem, designadamente o seu trabalho como representante da Direcção-Geral da Saúde nas reuniões do Chief Nursing Officers desde 2005; Considerando que o enfermeiro Sérgio Gomes se encontra actualmente a coordenar a organização da próxima Reunião Internacional para os dias 15 e 16 de Novembro de 2007, no âmbito da presidência portuguesa da União Europeia: Designo o enfermeiro Sérgio David Lourenço Gomes para chief nursing officer, competindo-lhe desenvolver as seguintes atribuições: […].»
É assim que os governantes defendem a língua portuguesa? Pergunto: não saía da cachimónia de nenhum assessor uma designação legitimamente portuguesa? O Inglês obrigatório é para isto? Na página 3 da edição n.º 13, de Julho de 2004, da revista da Ordem dos Enfermeiros, leio a seguinte nota do tradutor em relação à locução chief nursing officer: «A tradução literal “chief nurse” e “chief nursing officer” não se adequam à realidade nacional [,] pelo que optamos por adaptar a tradução à função desempenhada por estes enfermeiros na maioria dos estados-membros [sic].» A designação encontrada foi «assessor ministerial de enfermagem».

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