Léxico: vestição religiosa

Olhai também, Senhor...

Um leitor pergunta-me o que significa o vocábulo «vestição» no âmbito da religião, pois não o encontra em nenhum dicionário. De facto, não está em qualquer dicionário, e naqueles em que está registado não é aparece referido à religião, como sucede com o Dicionário Houaiss. A vestição religiosa é uma cerimónia, também designada vestidura e tomada de hábito, em que o postulante (ou seja, aquele que deseja entrar em determinada ordem) veste o hábito que usará durante o seu noviciado, que é o período probatório antes de pronunciar os votos, simples ou solenes, religiosos. Aproveito para informar os meus leitores de que publicarei brevemente um glossário de termos relacionados com a religião com cerca de 500 entradas.

Etimologia: Benfica e malária

Anófeles fora de Benfica

Moro em Benfica, isso já toda a gente sabe. O que muitos desconhecerão é a etimologia deste topónimo. Ao que parece, vem de bem + fica, pois o território era antigamente um vale fértil atravessado por um curso de água. Era, pois, um local aprazível, onde se ficava bem. Os ares eram bons. Exactamente o contrário da malária. Até ao final do século XIX, acreditava-se que a malária era transmitida pelo ar, daí a designação, que provém do italiano mal aria, «mau ar». Aliás, outro nome da doença, paludismo, também dava a entender tratar-se de algo relacionado com o ar: palus significa, em latim, lagoa, pântano, e o termo referia-se ao ar miasmático que neles se respirava. Uma terceira designação, sezão, não está muito longe destas crenças: provém do vocábulo latino accessione, «acesso de febre intermitente», cruzado com sazão (satione-), «estação do ano».

As palavras e a lei

Isto e aquilo

Não é raro falar-se nas faculdades de Direito da deficiente técnica legislativa, censurando-se muitas vezes que a redacção das leis seja entregue a pessoas formadas, se formadas são, noutras áreas do saber. De facto, pôr engenheiros a fazer leis é tão mau e perigoso como pôr advogados a construir pontes. Infelizmente, esta comparação somente servirá de lição quando virmos pontes concebidas por advogados, o que até hoje ainda não aconteceu. A propósito de técnicas legislativas, trago hoje um exemplo de falta de clareza do texto da lei, mas aqui intencional, atribuível à pudicícia carminada dos tempos. Trata-se da Portaria n.º 69 035, datada de 1953, da Câmara Municipal de Lisboa, a propósito dos bons costumes em locais públicos. Eis o texto:
«Verificando-se o aumento de actos atentatórios à moral e aos bons costumes, que dia a dia se vêm verificando nos logradouros públicos e jardins e, em especial, nas zonas florestais Montes Claros, Parque Silva Porto, Mata da Trafaria, Jardim Botânico, Tapada da Ajuda e outros, determina-se à Polícia e Guarda Florestais uma permanente vigilância sobre as pessoas que procurem frondosas vegetações para a prática de actos que atentem contra a moral e os bons costumes. Assim, e em aditamento àquela Postura n.º 69035, estabelece-se e determina-se que o art.º 48.º tenha o cumprimento seguinte:

1.º Mão na mão...............................2$50
2.º Mão naquilo..............................15$00
3.º Aquilo na mão...........................30$00
4.º Aquilo naquilo...........................50$00
5.º Aquilo atrás daquilo...................100$00

Parágrafo único
Com a língua naquilo, 150$00 de multa, preso e fotografado.»

Topónimo: Goreia

A ilha dos escravos

      Os topónimos estrangeiros por vezes dão a volta à cabeça das pessoas. Sobretudo dos revisores. Há certo tempo, um autor insistia em escrever «Gorée», a pequeníssima ilha ao largo de Dacar que foi entreposto de escravos e é actualmente Património Mundial da Humanidade. Descoberta em 1444 pelos Portugueses, o nome foi-lhe dado pelos Franceses, que se assenhorearam dela no final do século XVII. De então para cá, decorreu tempo suficiente para o topónimo ter sido, como foi, aportuguesado para Goreia. Em Fevereiro de 1992, o Papa João Paulo II visitou a ilha, pedindo então, em nome dos Europeus, perdão por todo o mal causado a África ao longo dos séculos. Também George W. Bush esteve, em 2003, na Goreia, assim como, antes dele, Bill Clinton. Durante a visita de Bush, as autoridades de Dacar decidiram limpar as ruas de vendedores e de outras personagens igualmente conspícuas, concentrando-as num campo de futebol. Que ironia. Como acto simbólico, a visita é muito comovedora, sim, mas o pior é o que os Estados Unidos fizeram e continuam a fazer em África. O Darfur é um exemplo bem claro.

Pele e casca

Cascas de alhos

Há muito anos, vi o cozinheiro basco Karlos Arguiñano, o mais criativo que alguma vez conheci, explicar a diferença entre pele e casca nos alimentos. Uma amêndoa, por exemplo, tem casca; o pêssego, pele. Porquê? Bem, explicava ele, «casca»* tem origem onomatopaica: se faz cás, cás, o alimento tem casca e não pele. Na verdade, a casca da banana, por exemplo, não é suficientemente dura para produzir esse som. Nem a casca da laranja. Nem a da batata (aliás, as batatas também se depelam). Mas o ovo tem, em conformidade com a teoria e na prática, casca, como a têm os amendoins, o caju, as nozes, os pistácios… Os alhos e as cebolas também têm casca. Às línguas, é um facto consabido, falta lógica.


* Alguns dicionários indicam como presumível étimo o latino *quassicāre, de quassāre, golpear.

Léxico: engrotar

Imagem: http://static.flickr.com/

O nome e a coisa

Claro que não há uma correspondência perfeita entre coisa e nome, além de que existe uma interferência negativa que é a polissemia. Contudo, numa língua rica, a aproximação é maior. Pensemos numa ampulheta ou relógio de areia. Quando o monge Luitprand, seu suposto inventor, a concebeu no século VIII, decerto que não pensou — não era essa a sua preocupação — como designar o acto de o orifício de passagem da ampulheta se obstruir. A língua portuguesa, porém, regista esse vocábulo: engrotar. A ampulheta engrotou. Na realidade, nem sempre nas ampulhetas se usou areia, tendo-se recorrido a outros materiais como pó de mármore, cascas de ovo moídas, etc., o que a tornava mais susceptível de se obstruir.

Léxico: terródromo

Pistas

Não fora a acção da benemérita ASAE (Autoridade de Segurança Alimentar e Económica), que conhecemos sobretudo das fiscalizações espectaculares em que atemoriza ciganos e chineses, e muitos de nós não saberiam que existe a palavra «terródromo». Um terródromo é uma pista de terra. Esta em concreto, a fiscalizada pela ASAE, situa-se no concelho de Arraiolos e tem 13 quilómetros de extensão.

Gentílicos e topónimos

Quem diria

Dá que pensar a importância que as palavras têm. Quando o imperador Gia Long (1762-1820) optou por denominar o seu país unificado de Nam Viêt, não sabia que o imperador da China não iria permitir tal designação, pois, em sua imperial e celeste opinião, evocava — ó sacrilégio! — o reino chinês do século III a. C. Nam Viêt Dong. Gia Long, que foi decerto um monarca inteligente, resolveu inverter os termos: Viêt-Nam. Oficialmente, agora, Cộng hoà Xã hội Chủ nghĩa Việt Nam.
No campo dos gentílicos, o termo «polaco» é paradigmático do peso cultural dos vocábulos. Tido entre nós, Portugueses, como mais uma mera idiossincrasia brasileira, a variante «polonês» explica-se pelo facto de, no começo do século XX, o proprietário do Cas(s)ino da Urca (onde Carmen Miranda usou pela primeira vez, em 1938, o traje de baiana), no Rio de Janeiro, ter levado prostitutas europeias para trabalhar no seu estabelecimento. Como estas mulheres eram, na sua maioria, loiras como as «polacas» do Sul do Brasil, a população começou a chamar-lhes polacas. «Filho da polaca» passou a ser o mesmo que «filho da puta». Em 1927, o embaixador da França no Brasil terá sugerido ao cônsul-geral da Polónia em Curitiba o uso do termo «polonês» (do francês polonais) para designar o natural da Polónia, evitando assim o pejorativo «polaco».

[Para um estudo aprofundado desta questão, ver
aqui.]

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