Tradução: «smoking gun»

Pólvora seca


      Dizia o original: «That, along with the fact that thousands of rocks at the crater site had been smashed to bits around the same time as the iridium appeared, is the smoking gun for the impact theory.» O tradutor passou a correr pela frase e achou que no-la podia restituir em português assim: «Esse facto, juntamente com os milhares de rochas no local da cratera que foram reduzidos a pedacinhos por volta da mesma altura em que o irídio apareceu, é a arma de fogo para a teoria do impacto.» Perfeitamente — mas o que significa? A locução smoking gun deverá traduzir-se por «fumo da espingarda», nada mais literal. E assim já se percebe: os tais factos são um indício seguro de que houve um impacto, como indício seguro de uma arma ter sido usada é o facto de provir fumo do seu cano. E para fazer esta dedução não é preciso ser Sherlock Holmes, basta saber ler e pensar. Elementar.

Conversão (I)

Botas das sete léguas

      Não é raro que nas traduções surjam medidas de sistemas de unidades que nos são estranhos. Que sentido faz para o leitor português médio — que já nem sequer sabe a quanto equivale uma arroba — que num texto surjam milhas ou polegadas ou galões? (Claro que sim: milhas para quilómetros multiplica-se por 1,61, polegadas para centímetros, por 2,54, galões para litros, por 4,55.) Com as moedas acontece o mesmo. «Wages also differ and range from as low as Kshs 120 to Kshs 200 (USD 1.8 to 3) a day. Assuming that one earns an average of Kshs 150 a day for six days a week, one takes home a salary of Kshs 4,500 (USD 70) per month.» Apesar de tudo, os dólares não são a melhor referência para o leitor, pelo que se deve sempre converter directamente para euros. A Internet dispõe de alguns conversores. Aprecio particularmente este. Logo, seria qualquer coisa como: «Os salários também diferem e variam de tão pouco quanto 120 a 200 xelins quenianos (1,35 a 2,26 euros) por dia. Supondo que se ganha uma média de 150 xelins por dia durante seis dias por semana, leva-se para casa um salário de 3900 xelins (44 euros) por mês.» Tratando-se, como é o caso, de um texto jornalístico actual, o câmbio deverá ser feito ao dia. Contudo, se estivermos perante uma tradução (ou qualquer texto em que se tenha necessidade de fazer o mesmo) de um texto de 1999, por exemplo, o câmbio será o dessa data, como é óbvio mas tão esquecido. Em 10 de Junho de 1999, por exemplo, 3900 xelins quenianos valiam 10 572 escudos.

Selecção vocabular

Ao lado

Tiro um jornal da pilha que tenho ao meu lado. Sai um Diário de Notícias. Vejamos a selecção vocabular em duas notícias. Uma delas dizia: «Coincidência. Pedra extraterrestre da ficção tem sósia numa mina da Sérvia» («Novo mineral tem a mesma composição da criptonite, Filomena Naves, 25.4.2007, p. 14). «Sósia»? Quando hoje em dia se abusa das aspas, aqui, que deviam ser usadas — na falta de um termo adequado, por não ocorrer à jornalista —, não o foram. Entre infinitas, duas soluções: «Pedra extraterrestre da ficção tem cópia perfeita numa mina da Sérvia.» «Pedra extraterrestre da ficção materializa-se numa mina da Sérvia.» A pressa com que os jornalistas escrevem não explica tudo. Na maioria das vezes, fazer bem ou fazer mal demora o mesmo tempo.
Outra notícia no mesmo jornal: «Todos os dias, a sua mãe, Ursula, espera-a [sic] no topo com um carro velho e lamacento que nem sequer tem placa de matrícula» («Túnel traz modernidade a vale isolado dos Alpes», Helena Tecedeiro, 25.04.2007, p. 30). Bem podemos pesquisar em qualquer corpus do português, o adjectivo somente qualifica termos como «terreno», «chão», «piso», «pavimento», «campo», «rio». Um objecto, umas botas, um automóvel, um jornal que caiu ao chão estarão enlameados.

Apostila ao Ciberdúvidas

Ciberduvidoso

      Da Guarda, um consulente perguntou ao Ciberdúvidas se o vocábulo «politólogo» já entrou na língua portuguesa. Depois de dar a definição do Dicionário Eletrônico Houaiss (brasileiro), o consultor, Carlos Marinheiro, afirma que os «dicionários portugueses consultados não regist[r]am qualquer destes vocábulos. Por enquanto...». Os vocábulos referidos eram três: «politólogo», «politicólogo» e «politicologista». Não é assim: o Dicionário Houaiss regista os três e o Dicionário da Academia regista somente o segundo. Ainda estou para ver que dicionários são consultados no Ciberdúvidas.


Uso da vírgula

Principalmente

Há quem julgue — traumas da infância escolar — que os advérbios em -mente devem estar sempre, seja qual for a sua localização na frase ou o sentido que se pretende transmitir, entre vírgulas. Escrevem, por exemplo: «Os meus professores, principalmente, o de Português, não sabem exprimir-se correctamente.» É óbvio que o advérbio se refere especificamente ao professor de Português e não a todos os professores, pelo que a vírgula que se segue ao advérbio está a mais. Os advérbios mais castigados por esta incompreensão são, entre muito poucos, principalmente e nomeadamente. Coisas simples, dirão, mas então porque é que há tanta gente a errar?

Uso da vírgula


Quem sabe, sabe


      Um leitor, H. S., chamou-me a atenção para a novíssima palavra de ordem da RTP2, «Quem vê, quer ver», cuja pontuação considera errada. Trato dessa matéria no meu manual, e lamento, mas discordo. Tal como acontece com os termos paralelos dos adágios e aforismos, o uso da vírgula é de regra: «Quem com ferro mata, com ferro morre.» E porquê, perguntam? Pois porque a vírgula separa orações diferentes, ou não? Não se pode afirmar, suponho, que no caso em apreço temos uma vírgula a separar o sujeito do predicado, pois temos duas orações.
      Nesta matéria, não posso dizer, como Shakespeare, «No, Time, thou shalt not boast that I do change». Mudei: antes pensava que não devia usar-se vírgula em frases deste tipo, justamente porque me parecia ver ali uma vírgula a separar — crime de lesa-gramática — o sujeito, «quem», do predicado, «quer ver». Só não via o «vê». Como quando procuramos desesperadamente a esferográfica e a temos na mão.
      A tempo o digo para não mo dizerem: se consultarmos, por exemplo, O Grande Livro dos Provérbios, de José Pedro Machado, veremos que os provérbios com que ilustro os meus argumentos estão registados sem vírgula. Opiniões. Se fosse antes O Grande Livro dos Provérbios de Helder Guégués, teriam vírgula.

Léxico: «clarificado»

Língua no tacho

Cara M. T., o termo técnico usado em culinária para designar o processo que descreve é «clarificado» e não «branqueado». A ghee, por exemplo, largamente usada na culinária indiana, é uma manteiga clarificada, isto é, uma manteiga a que foram retirados os resíduos lácteos e a água, além de impurezas. O que resta é uma gordura límpida e transparente. Clarificam-se também caldos e xaropes. A culinária também tem, é verdade, o processo de branquear, que consiste em cozinhar ligeiramente a carne.

Tradução: «oxymoronic»

Sem equívocos


      Cara Luísa Pinto: não pode pretender traduzir o inglês oxymoronic por «eufemístico» pela simples razão de não ser, nem pouco mais ou menos, a mesma coisa. É o mesmo que confundir já não digo uma alquitarra com um alambique, mas oaristo com aoristo. Parece claro: não temos o adjectivo relativo ao substantivo «oxímoro». A solução está em recorrer a uma expressão — «da natureza do oxímoro» —, o que nem sempre se enquadra no contexto, ou aportuguesar a palavra, e teremos oximorónico. Há quem já o faça: «Segundo a autora o fantástico funciona como um tropo oximorónico em que a contradição entre o possível e o impossível é mantida e desenvolvida» («A Simbólica do Espaço em The Lord of the Rings e Earthsea», Maria do Rosário Monteiro, in www.fcsh.unl.pt/docentes/rmonteiro.

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