Apostila ao Ciberdúvidas: ternurento

É ver

Um consulente do Ciberdúvidas, Marco Costa, queria saber se a palavra «ternurento» existe ou se, referindo-se a alguém, teria de usar a expressão «dotado de ternura». Esquecera-se de que existe «terno», bem mais interessante e pequena. Foi para isto mesmo que o advertiu o consultor Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca, que afirmou que o vocábulo «ainda não se encontra registado». O consultor não tem razão: está registado. Ei-lo como penúltimo verbete na página 1005 do Dicionário Actual da Língua Portuguesa, publicado pela Asa: «ternurento, adj. Que se desfaz em ternuras: Marido ternurento. • sin.: afectuoso; carinhoso».

Ortografia: assembleia geral

Pelourinho ou tiro no pé?     


      Nem de propósito: no Pelourinho de ontem, a consultora Maria Regina Rocha, cujas opiniões muito considero, quis elucidar o País sobre a regência do adjectivo «confiante» — o que é louvável. De caminho, deu uma machadada na ortografia oficial — o que é criticável. Veja-se:

«Estar confiante em»
Maria Regina Rocha

Pergunta* a Paulo Teixeira Pinto, a propósito da assembleia-geral do BCP: «Está confiante de uma assembleia-geral pacífica?»
O adjectivo confiante pede um complemento iniciado pela preposição em. Por isso: «Está confiante na realização de uma assembleia-geral pacífica?»

*Jornal da Noite, SIC, 28 de Maio de 2007
30/05/2007»

      E eu que pensava que o Ciberdúvidas advogava isto e isto. Ou a Prof.ª Maria Regina Rocha viu mesmo o hífen a projectar-se, insinuante, da boca do jornalista?

Estrangeirismos

Está mal

É sabido: suplementos económicos dos jornais e jornais económicos só se podem ler com um dicionário de inglês ao lado. Estrangeirismos todos nós usamos, contudo, o que está em causa é se, sendo pouco comuns, os explicamos quando os usamos. «Nos negócios há empresários e raiders. Os primeiros constroem e alimentam empresas, criam riqueza e empregos. Têm em mente a criação de valor. Os segundos vivem da especulação. Não têm empresas, mas negócios. Compram e vendem a um ritmo marcado pelas cotações da bolsa. Estão focados na obtenção de mais-valias. Esta é a lição que aprendemos ontem, com a assembleia geral do BCP» («Raiders e empresários», Álvaro de Mendonça, OJE (O Jornal Económico), 29.05.2007, p. 2). Lá temos de recorrer ao dicionário de inglês: «Raider: An investor who aims to take control of a company by purchasing a majority stake in the firm.» No site do Banif, encontramos o vocábulo num glossário: «Raider: Pessoa individual ou colectiva que pretende assegurar o controlo da gestão de uma empresa através da compra de uma participação qualificada para o efeito.» Claro que também está em causa outro aspecto: a moderna e ominosa tendência laxista para não grafar os estrangeirismos em itálico.

Está bem

No mesmo jornal, também encontramos exemplos louváveis: o jornalista usa um estrangeirismo, mas explica-o. Devia ser esta a prática habitual dos jornalistas, não deixar o trabalho para o leitor. Sim, porque não vamos agora supor que todos os leitores deste jornal em concreto dominam todas as áreas do conhecimento, com o respectivo vocabulário. Nem todos os leitores, suponho, serão engenheiros. Este último exemplar trouxe-o do British Hospital. Não estou a ver a enfermeira Andrea, por exemplo, a saber que raio é isto do jet grouting. «A OPCA está a realizar uma importante obra de geotecnia no túnel do Terreiro do Paço, em Lisboa. Os trabalhos incluem a execução de 188 colunas de jet grouting que visa reforçar e consolidar os terrenos envolventes. O projecto é do professor António Correia Mineiro.» Mais à frente, o jornalista redime-se: «A técnica consiste na utilização, em profundidade, de um ou vários jactos horizontais de elevada velocidade e pressão que desagregam o terreno e permitem a penetração e a mistura de uma calda de cimento. Desta forma evita-se a remoção de grandes volumes de terras, permitindo realizar a injecção da calda de cimento, precisamente, nos pontos ou nas profundidades onde o terreno se revela menos consistente» («Geotecnia da OPCA para a Praça do comércio», OJE, 30.05.2007, p. VI).

Léxico: halaca

Copiem menos

Quando o El País e o El Mundo publicaram a notícia sobre a Zara, também cá alguns jornais se referiram ao assunto. Vejamos o que disse o Jornal de Notícias: «Desconhece-se a genuína razão da proibição da mistura de têxteis. Segundo noticia o jornal espanhol El Mundo, alguns rabinos explicam que, na lei judaica, o conceito de “roupa híbrida” equipara-se à “halajá”, que proíbe relações sexuais entre animais de diferentes raças e a criação de novas espécies de fruta ou de plantas» («Zara pede desculpas aos judeus ortodoxos», Jornal de Notícias, 22.05.2007). Parece haver alguma macaqueação, porque halajá é a transliteração espanhola do hebraico הלכה. Entre nós — e dicionarizado, senhores polícias do léxico —, a transliteração deu halaca. Como se pode comprovar no Dicionário Houaiss e no Grande Dicionário da Língua Portuguesa coordenado por José Pedro Machado. Cito este último: «Halaca, s. f. Bíbl. A lei oral judaica, suposta por muitos de valor igual à lei escrita. Deve ser considerada comentário didáctico ao Pentateuco.»

O abuso do hífen

Hífenmania

Hífen-mania

Hífen...

      Subitamente, a palavrinha «geral» deixou de poder atravessar o papel sozinha: tem agora de dar a mãozinha à palavra à sua esquerda. Sinistro! Deixou mesmo de haver assembleias gerais, agora só se realizam assembleias-gerais. Nunca estamos, agora, à vontade, temos de estar, contrafeitos, à-vontade. Nos livros, as personagens tomaram um ar pernóstico e já não dizem bom dia, mas apenas bom-dia. Não nos podemos sentir proactivos: alguém logo nos dirá que se for a favor, é pró, pró-activo. E ficamos reactivos. Se queremos comprar um objecto em segunda mão, há encolheres de ombros, risinhos, porque, finos, só conhecem objectos de segunda-mão. Se chegamos a um beco, não conseguimos fazer marcha atrás: somos obrigados a fazer marcha-atrás. Se perguntarmos, por escrito!, onde é a casa de banho, ninguém sabe, e não é por não saberem ler. O que é isso?, logo perguntam. Servirá uma casa-de-banho? Os filmes deixaram de ter banda sonora. Se queremos ouvir, mesmo de má vontade (má-vontade?, inquirem), só banda-sonora. As mulheres, mesmo nas minisséries, já não usam minissaias: usam, nas mini-séries, mini-saias. Deixámos igualmente de poder comer alimentos poliinsaturados: se queremos, também temos de engolir o hífen: poli-insaturados. De boa vontade acabava aqui, mas não me deixam, querem que seja de boa-vontade. Acabo.

Uso da maiúscula

πρoφήτης


      Um leitor, todo abespinhado, mandou-me uma mensagem em que se insurge por eu ter escrito, no post sobre a Zara e o Beurger King Muslim, «profeta Maomé». Queria que eu tivesse escrito «profeta» com maiúscula — Profeta Maomé. E porquê, pergunto eu? Mais profetas tem o cristianismo — Daniel, Elias, Ezequiel, Isaías, Jeremias, Ageu, Amós, Habacuque, Joel, Jonas, Malaquias, Miqueias, Naum, Obadias, Oseias, Simeão, Sofonias, Zacarias… — e todos, maiores ou menores, são «profetas». Tomemos o pobre Obadias, o quarto dos doze profetas menores judeus: mesmo que o nome dele tenha a variante Abdias, e por isso valha por dois profetas, ou por um maior, vá lá, nunca vi escrito «Profeta Obadias». Também não aceito que se escreva «o Profeta». Como se Maomé fosse o profeta por antonomásia. Faz-me lembrar textos em que se fala sobre o Partido Comunista: aparece sempre «o Partido». Porquê? Ou escrevemos «o Partido Comunista» ou «o partido», se esta última palavra surge isolada.
      Vejam lá, agora não confundam o Assim Mesmo com o Jyllands-Posten.

«Mcjob»

A importância das palavras

A filial britânica da multinacional McDonald’s iniciou uma campanha para mudar a definição pejorativa do termo «McJob» que se encontra registada, desde Março de 2001, no Oxford English Dictionary (OED) e que o define como «um trabalho mal pago, carente de estímulos e com poucas perspectivas de futuro» («an unstimulating, low-paid job with few prospects, esp. one created by the expansion of the service sector»). A multinacional empreendeu uma campanha através de um livro de assinaturas nos seus restaurantes, uma página na Internet (changethedefinition.com) e um sistema de envio de SMS para alterar a definição. O termo foi usado pela primeira vez nos Estados Unidos em 1980 e tornou-se popular em 1991 ao ser usado no romance Geração X (publicado entre nós pela Editorial Teorema, em 1994), de Douglas Coupland. Fonte da Oxford University Press, responsável pelo dicionário, afirmou, naturalmente, que os verbetes seguem as mudanças que ocorrem na língua e que essas mudanças são reflectidas nas definições, de acordo com as provas que vão surgindo.

Zara e Beurger King

Ala que se faz tarde!

A notícia é do El País: a Zara pediu desculpa aos judeus ultra-ortodoxos por ter incorrido naquilo que a comunidade considera um grave pecado: ter misturado, nos seus artigos de vestuário, algodão e linho, o que está proibido pelo judaísmo por atentar contra as leis da natureza. Isto faz-me lembrar, pelas implicações religiosas, outro caso, o nome de um restaurante de comida rápida francesa: Beurger King Muslim. Não lhe soa a algo familiar? Claro, é um trocadilho. Neste restaurante, em Clichy-sous-Bois (onde Ségolène Royal obteve 61,70% dos votos), um subúrbio a leste de Paris, a comida é halal, isto é, preparada de acordo com os rituais islâmicos e inspeccionada três vezes por dia. Qual o trocadilho? Beur é a palavra do calão francês por que são tratados os norte-africanos franceses de segunda geração (a palavra resulta da inversão da ordem das sílabas da palavra arab: a-ra-beu, beu-ra-a). Isto é que é humor. Além disso, os clientes podem ver um filme sobre o profeta Maomé enquanto comem. Imagino que bebam Mecca Cola ou Qibla Cola, ao mesmo tempo que insultam o capitalismo.

Arquivo do blogue