Tradução: «virtual»

Mundos paralelos

«Halliburton and other companies have security forces in Iraq now, virtual armies to help defend their people and property.» Parece simples — e é, de facto. O tradutor, contudo, complica: «A Halliburton e outras empresas têm hoje em dia forças de segurança no Iraque, exércitos virtuais para ajudar a defender as suas pessoas e as suas propriedades.» É essa mesmo a pergunta, caro leitor: o que é um «exército virtual»? Estamos a falar de videojogos ou a brincar? A acepção de «quase completo», «praticamente total» (na formulação do Dicionário Houaiss) é relativamente recente e semanticamente anglicizante. Não precisamos dela para nada. Sob pena de ninguém saber o que estamos a dizer. A não ser, evidentemente, que seja esse o nosso desiderato.

Léxico: jingoísmo


Por Júpiter!

Ignorance never settles a question.
Benjamin Disraeli (1804-1881)


      Cara Luísa Pinto, o vocábulo «jingoísmo» existe realmente e significa nacionalismo agressivo e belicoso. A origem do vocábulo está na Grã-Bretanha e no que parece ser um hipocorístico de Jesus entre os Ingleses do século XVIIIJingo — usado na interjeição By Jingo! Mais tarde, durante a Guerra Russo-Turca (1877–78), o compositor inglês George Hunt compôs uma canção cujo refrão, que se tornou popular, dizia: «We don’t want to fight/but by jingo if we do.../We’ve got the ships, we’ve got the men,/and got the money too!» A própria imprensa inglesa ajudou a difundir o vocábulo jingo (tal como jingoist e jingoism) para designar os nacionalistas exacerbados, sobretudo depois da intervenção inglesa na guerra, quando o primeiro-ministro Benjamin Disraeli enviou a armada em defesa de Constantinopla. A 3 de Março de 1878, a guerra acabou, tendo sido assinado o Tratado de Paz de San Stefano (actualmente, Yeşilköy) entre a Rússia e o Império Otomano, para formalizar o novo statu quo. O vocábulo «jingo» teve melhor futuro.
      Por curiosidade, transcrevo um trecho de uma das Crónicas de Londres, publicadas por Eça de Queirós numa «folha do norte», A Actualidade, em que o autor se refere ao tratado:

«Finalmente ontem, pelas três horas da tarde, em San Stefano, a paz entre a Turquia e a Rússia foi assinada. Ontem era na história imperial da Rússia um dia ilustre: era o aniversário da emancipação dos servos, do nascimento do imperador e da sua subida ao trono: e por um refinamento de vaidade czariana foi ontem o dia escolhido para completar, por uma assinatura num papel, o fim do Império Turco. Devia ter sido decerto para Alexandre II um momento de orgulho hiperbólico ouvindo debaixo da janela do Palácio de Inverno milhares de vassalos cantarem, com a cabeça descoberta, como no respeito de uma celebração religiosa, o hino do czar — o pensar que no dia em que fazia vinte e três anos que seu pai Nicolau vencido e humilhado morria de despeito, ele tomava a desforra das derrotas passadas, recuperava as províncias perdidas, rasgava o ofensivo Tratado de Paris, destruía o Império Otomano, humilhava grandes potências e ganhava um lugar entre os grandes conquistadores do século. Nesse momento verdadeiramente pôde crer na missão da Santa Rússia.
De resto em Sampetersburgo, ao que dizem os telegramas desta manhã, o entusiasmo tomou as proporções de um delirium tremens. O imperador levou três horas a ir do palácio ao teatro, no meio de uma multidão fanática uivando o hino imperial, ébria de orgulho nacional, aclamando Alexandre, o Libertador. Em San Stefano, o grão-duque Nicolau passou uma revista de cerimonial às tropas, e os arautos anunciaram, ao som das músicas triunfais, o fim da campanha. Depois te Deum, jantares, champanhe e hurras pela Santa Rússia! De resto, os Turcos, com a passividade e a resignação da raça fatalista, aceitam a derrota, que é uma determinação de Alá, e não parecem ter conservado rancor aos Russos. Os correspondentes citam como perfeita a confraternização dos soldados russos e turcos: vêem-se, junto às linhas de demarcação, conversando, jogando, cantando, dançando, fumando, numa patuscada de bons amigos: um correspondente telegrafa que anteontem, na estrada de Pera, encontrara dois fortes destacamentos de tropas russas e turcas, que, tendo-se encontrado no mesmo caminho, faziam a passeata em fileiras misturadas, os oficiais em grupo, formando adiante, as bandas unidas tocando com denodo A Filha de Madame Angot. Os Turcos não parecem protestar: de Istambul vêm todos os dias a San Stefano milhares de curiosos ver os Russos, apertar-lhes a mão, dar-lhes os parabéns de boa chegada: de resto, os negociantes de Constantinopla estão encantados com a presença daqueles milhares de consumidores, que duplicarão os preços dos géneros.
A única criatura viva que em San Stefano protestou foi um jumento. Este ilustre descendente do amigo de Sancho e do amigo de Maomet mostrou desde o começo das negociatas da paz uma inquietação que bem depressa se definiu num ódio asinino contra os Russos. E o burro de um cangalheiro — e apenas pressente um uniforme russo afila a orelha, firma-se nas patas dianteiras e escouceia com um patriotismo que deve fazer corar o sultão e os paxás. E, dizem os correspondentes, a grande curiosidade de San Stefano, e faz o divertimento dos oficiais de sua alteza o grão-duque Vitorino. Debalde se tem procurado convencê-lo da nova vantagem e do novo progresso que a Turquia, ou o bocadito da Turquia que resta, vai gozar sob o protectorado russo; o jumento, com a teima que faz a honra e a força da sua raça, responde com coices aos argumentos. Este jumento ficará na história. É, depois de Osman Paxá, a única alma viril do império. É o último patriota turco!» (excerto da Crónica XIII, datada de Londres, 5 de Março de 1878).


Léxico: «psi»

Mas existe
     


      Há, fora dos dicionários, palavras muito mais vivas e usadas do que milhares de outras que jazem nesses vastos cemitérios que são justamente os dicionários. A inclusão de determinado vocábulo nos dicionários e vocabulários, já o tenho aqui defendido, não pode ser o único nem sequer o principal critério para aferirmos da legitimidade do seu uso. Abra-se qualquer dicionário no verbete «psi». Que podemos ler aí? Pois que psi é um substantivo masculino e significa a vigésima terceira letra do alfabeto grego ψ Ψ. No quotidiano, o que podemos ver é que «psi» também se usa — é ouvir-se o Prof. Júlio Machado Vaz, por exemplo — no sentido de qualquer (psi) ou todos (psis) os terapeutas da psique: psicólogos, psicanalistas e psicoterapeutas. A imprensa também usa o vocábulo neste sentido, embora ainda com o escusado cordão sanitário das aspas: «Na cultura popular, o uso e abuso do sexo terá uma explicação científica. Ironicamente, o pai da psicanálise decidiu praticar a abstinência após o nascimento dos seus seis filhos, como medida de controlo de natalidade. Para os “psis” com tradição analítica, a sexualidade banalizou-se (ao ponto de se discutir quantas vezes se deve fazer) e é usada como arma de arremesso ou antídoto falível para afugentar o mal-estar» (Clara Soares, Visão, n.º 686, de 27 de Abril de 2006). O uso de psi nesta acepção teve origem na língua francesa, muito atreita a reduções, como já aqui referi. Começou, nesta língua, por se usar somente no registo familiar, e muitas vezes com um sentido irónico ou pejorativo. Mais tarde, no início da década de 1970, passou a significar «spécialiste de psychologie; en partic., spécialiste de psychothérapie, de psychiatrie» (in TLFI). Sem ironia.


Ortografia: «belas-artes»


Belas-Artes e malas-artes


      «A Faculdade de Belas Artes e o El Corte Inglés têm o prazer e a honra de convidar V. Exa. para: Apresentação do Livro de Actas do 1.º Ciclo de Conferências de “Ciências da Arte”: “As Artes Visuais e as Outras Artes — As Primeiras Vanguardas.”» Espera lá, mas não era a Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, como se vê na frente do convite e mesmo no verso? Onde está o hífen? É irritante ver quase sempre sem hífen esta palavra composta. Até podem ser professores universitários a escrever, «Belas-Artes» e «tão-só» para ali ficam desligados e sós. Tão sós…
      A Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa respeita a ortografia; a Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto, não.

Léxico: feérico

Obrigadinho!

Na Edição da Noite da Sic Notícias de ontem, estava um especialista em trânsito a falar sobre o túnel do Marquês de Pombal. Como não vi tudo, não sei o nome dele, mas será decerto professor universitário. Era um dos que estão contra a forma como o túnel foi feito, e nem precisava de proferir a palavra «porcaria» para qualificar a obra para o percebermos. Em rigor, ele disse que à superfície tinha ficado uma «porcaria», «desagradável, feérico mesmo». Isto faz-me lembrar um sobrinho meu. Quando era mais pequeno, eu dizia-lhe, a brincar: «És mau.» Respondia-me ele: «Mau és tu.» «És porco», continuava eu. «Porco és tu.» No fim, eu dizia-lhe: «És muito esperto.» E ele: «Esperto és tu!» «Feérico», senhor especialista em trânsito, significa «pertencente ao mundo da fantasia, mágico, fantástico». Enfim, nada de negativo com que possa qualificar o que antes reputou uma «porcaria». O adjectivo «feérico» vem directamente do francês féerique: «Qui a trait au monde des fées; magnifique, merveilleux.»

Apostila ao Ciberdúvidas: goitar

E perde si libru na skola.

Um estudante de Cabo Verde, Luís Cândido Conceição, que afirmava consultar frequentemente o site do Ciberdúvidas e ser a primeira vez que fazia uma pergunta, quis saber o significado do verbo «goitar», que encontrou na MorDebe. O consultor, Carlos Rocha, respondeu: «Não compreendo por que razão regista a Mordebe o verbo “goitar”, que não encontro atestado em nenhum dicionário. Esta forma existe, sim, em catalão, mas como variante de aguaitar, que significa “vigiar”.» Bem, eu também não sei porque é que a MorDebe incluiu esta palavra e não outras — mas percebo porque incluiu esta. (Leia outra vez a frase, para lhe apanhar o sentido.) Ela existe! No Brasil, os tropeiros, que é o nome dado aos condutores de tropas, na acepção de bois, cavalos e mulas, entre outros animais, tinham um léxico próprio. Um dos vocábulos desse léxico é o verbo «goitar»: lutar entre amigos, empurrar e segurar na brincadeira. Ninguém deve ignorar a importância dos tropeiros na cultura brasileira, que felizmente têm um museu, o Museu do Tropeiro, em Itabira, Minas Gerais. Aliás, o universo de falantes faz-me lembrar o do calão minderico (a piação dos charales do Ninhou), que começou por ser usado no início do século XVIII por cardadores e negociantes de lã naturais de Minde.

Ortografia: microestado

Imagem: http://www.amx.com.br/


Fale com ele


      Cara Luísa Pinto: se admira assim tanto o autor do blogue que refere, diga-lhe que se escreve «microestados» e não «micros estados». A regra de formação de palavras com prefixos como micro estipula que, quando o segundo elemento começa por r ou s, estas consoantes se duplicam, não se usando então o hífen. Quando o segundo elemento começa por vogal, como é o caso, também não se usa hífen: microampere, microaspersor, microescala, microestado, microestrutura, microinjecção, microondas, microrganismo, microsfera… Também o Acordo Ortográfico de 1990, ainda não ratificado, refere explicitamente a regra do uso do hífen em compostos em que entra este prefixo, consignando que se usa nas formações em que o segundo elemento começa por h, nas formações em que o prefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento (micro-onda) e ainda nas formações em que o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por r ou s, devendo estas consoantes duplicar-se, prática aliás já generalizada em palavras deste tipo pertencentes aos domínios científico e técnico: microssistema, microrradiografia. Logo, contrario sensu, só se usará o hífen com vogal se esta for um o. Assim, mesmo perante o novo Acordo Ortográfico, deverá escrever-se «microestado». Claro, já reparei: o autor não usou sequer hífen, separou as palavras, como se se pudesse escrever assim. Micros, assim solto como palavra autónoma, só na redução da palavra «microfone(s)» ou «microcomputador(es)», por exemplo.

Neologismo: cibergrama

Boa ideia, mas…

Finalmente, alguém propõe um neologismo sério — cibergrama — para designar essa palavra omnipresente nas nossas vidas hodiernas: email. Na verdade, e só o digo porque me apetece, refiro-o porque há tempos uma leitora reincidente deste blogue me desancou por eu ter usado a nefanda palavra. Como revisor, proponho sempre «correio electrónico», excepto se o uso da editora ou publicação for outro. Pessoalmente, prefiro, por ser mais curto, e referindo-me ao conteúdo, «mensagem». Quem propôs o neologismo, como se pode ver no Ciberdúvidas, foi o tradutor Armando Gonçalves: «Se a uma mensagem escrita enviada por vai aérea se chama aerograma (quem não se lembra da sua grande utilização na altura da guerra colonial?), se a uma mensagem escrita enviada por via telegráfica se chama telegrama, não se poderia chamar «cibergrama» a uma mensagem escrita enviada pelo ciberespaço? Por que razão não somos capazes de sair do e-mail? Onde param os terminólogos institucionais da língua portuguesa? Onde anda a criatividade que mantém as línguas vivas?» Insisto: é um neologismo sério o que se propõe. Mas seria acolhido pelos falantes? Também Aquilino Ribeiro queria que se substituísse foot-ball por «pedibola», e veja-se o que aconteceu. Logo em 1946, escrevia Vasco Botelho de Amaral na obra Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa: «Por exemplo, ficaria cómico transformar o football em bolapé ou pedibola ou furtabolas? Hoje, claro que sim. O remédio, hoje, só está na adaptação futebol

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