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Esquentamentos

Acabou de me chegar à caixa de correio um folheto publicitário que quero partilhar com os meus leitores. «Rodrigues & Filhos. Canalizadores, esquentadores, eléctricistas. Serviço 24 horas». Não é genial? À frente de cada palavra, está uma imagem: uma sanita, um esquentador, uma lâmpada, respectivamente. Sendo ao domicílio, imagino o que farão aqueles esquentadores. O folheto não refere se a empresa dispõe também de esquentadoras. Talvez não disponham delas no Verão, que se aproxima avassaladoramente. Resta-nos esperar ou mudar de orientação.

Pobreza lexical

Lê por mim

No Dia Mundial do Livro, não sei se na TSF se na Antena 1, deu-se, mais uma vez, voz aos ouvintes. Livros marcantes nas suas vidas. Uma ouvinte conseguiu falar, referindo-se de forma vaga a uma obra, de um tema completamente diferente: o aborto. Ao longo da participação, percebeu-se que este sim era o seu tema de eleição, que a tocava de perto, e que só então falava dele porque perdera ou desconhecia a existência de fóruns para falar de tudo e mais alguma coisa. É esse o ponto que quero tocar: desconhecer. A determinada altura do monólogo, afirmou «ter desconhecimento» de certo facto. Isso mesmo: «ter desconhecimento». A pobreza lexical de alguém que diz ler e participa num programa de rádio a propósito do Dia Mundial do Livro, ainda que só como pretexto para falar de algo diferente, é confrangedora. Fez-me lembrar Felipa Garnel e a forma como, na sua cómoda posição de jurado de um concurso, classificava a participação (ou a «prestação», como agora se diz) dos concorrentes: «fantástico» e «não fantástico».

Palavra desusada do dia: Ignotícia f. Desconhecimento de notícia; ignorância de alguma coisa.

Tradução: «garrigue»

Imagem: http://www.cm-coimbra.pt/

Já basta o maquis

Esta era a frase do original: «Les précipitations (entre 300 et 1000 mm/an) irriguent les paysages secs et touffus de garrigue et de maquis: chênes verts, boissons, bruyère…» O tradutor verteu da seguinte forma: «As precipitações (entre 300 e 1000 mm/ano) regam as paisagens secas e cerradas de garrigue e de maquis: castanheiros verdes, arbustos, urze…» Sim, é verdade, não faltam documentos em língua portuguesa nos quais se usa o francesismo garrigue — mas será necessário por intraduzível? Vejamos primeiro do que se trata. Garrigue: «Association buissonnante discontinue des plateaux calcaires méditerranéens résultant d’une régression de la forêt sous l’influence du feu ou du pâturage intensif» (in TLFI). Como provém do latim medieval garrica (com a variante garriga), podia ser que tivesse vindo a enriquecer o léxico do português, mas não. No catalão sim, há o termo correspondente: garriga: «Comunitat vegetal constituïda per plantes de fulla endurida i persistent, entre les quals predomina el garric» (in Gran Diccionari de la llengua catalana en línia). E o que é o garric, perguntamos nós? Pois é, segundo o mesmo dicionário, o «arbust perennifoli de la família de les fagàcies, de fulles coriàcies, lluents i espinoses, i fruit en gla, que es fa a la regió mediterrània, sovint formant extenses garrigues (Quercus coccifera)». Ora, se o nome comum da Quercus coccifera (frequente nos arredores de Lisboa) é carrasco, carrasqueiro ou carrasqueira, segue-se que carrascal traduzirá bem, salvo melhor opinião, o vocábulo garrigue.

«No fim de contas»

A quem interesse

Já se vinha lendo «a final de contas», e estava mal, é claro. Ultimamente, a coisa agravou-se, pois são já muitos os tradutores que escrevem «no final das contas» (como também escrevem que «Fulano vive às custas de Sicrano», mas esse é outro erro crasso de que já aqui falei). Um híbrido inculto de «no fim de contas» com «afinal de contas», ambas correctas. Uso que denota poucas leituras e escassa reflexão sobre a língua, matéria de que vivem, como eu, pelo que não podem replicar com a afirmação de Einstein: «Todos somos muito ignorantes. O que acontece é que nem todos ignoramos as mesmas coisas.»

Léxico: getas

Imagem: http://www.city.minoh.osaka.jp/

Tamancos nipónicos

Cara Fernanda Simões, o calçado que algumas japonesas ainda usam, uma espécie de tamancos muito típicos, composto por uma tabuinha horizontal pousando sobre duas outras verticais, como a imagem mostra, tem o nome — registado nos nossos dicionários, sim — de getas. Encontra-se registado também no meu pequeno (mas em crescimento) glossário de palavras com étimo japonês. Ver aqui.

Léxico: Cítia

Estado de cítio

«El más antigo de este libro, una bolsa del siglo V procedente de Escitia, está un poco ajado por el uso.» Como se traduz esta frase? Depende, não é? Se for um tradutor ignorante, poderá ser, como eu vi, deste modo: «A mais antiga deste livro, uma mala do século V, proveniente da Escitia, está um pouco desgastada pelo uso.» Sei de uma professora que recitava de cor (o francês, pelo menos para quem não tem umas tinturas de latim, mostra melhor donde isto provém: par cœur) aos filhos, para os embalar, boa parte d’Os Lusíadas. Se fosse tradutora, lembrar-se-ia certamente da estrofe do Canto VII que diz:

Aquelas invenções, feras e novas,
De instrumentos mortais da artelharia
Já devem de fazer as duras provas
Nos muros de Bizâncio e de Turquia.
Fazei que torne lá às silvestres covas
Dos Cáspios montes e da Cítia fria
A Turca geração, que multiplica
Na polícia da vossa Europa rica.

A Cítia (Scythia em latim) era uma região na Eurásia, entre os Balcãs e o Volga, o mar Cáspio e os montes do Cáucaso, incluindo a Crimeia, habitada na Antiguidade por um grupo de povos iranianos nómadas conhecidos por Citas (feminino: citissa) ou Cítios, e por outros povos a eles submetidos, como os Alanos, os Dácios, os Getas (na margem direita do Danúbio), os Roxolanos (que viviam entre a foz do Borístenes e a do Tánais), os Tauros (habitantes da Táurida, actual Crimeia), etc. Foi para a Cítia, segundo rezam as crónicas, que Santo André foi destinado a pregar.
A partir do espanhol, nem sequer uma vez vi este topónimo bem traduzido. O que parece ser uma fatalidade, mas é somente um indício de algo mais grave: há muita gente incompetente a intitular-se tradutor. Sim, ganhem a vida, mas estudem, trabalhem, esforcem-se. Não se envergonhem de usar os dicionários!

Tradução: «duelo»

A lástima dos tradutores

Entre os vários milhões de tradutores do espanhol, alguns são, digamo-lo sem rodeios, completamente obtusos. Vejamos este caso: «Se utilizaban armazones de acero para los bolsos de duelo, y los macizos e intrincados de plata fundida iban suspendidos de unas chatelaines de la cintura de las damas.» Sem pensar nem olhar para a imagem que ilustrava o texto, mais do que explícita, o tradutor verteu: «Nas malas de duelo eram utilizadas armações de aço, e os maciços e intrincados de prata fundida estavam suspensos numas chatelaines da cintura das damas.» E a imagem mostrava várias malas de senhora de cor preta. Historicamente, é claro, expressou-se o luto de formas diferentes e com cores diferentes. Entre a sociedade vitoriana, por exemplo, considerava-se que o luto devia ser mantido durante três anos, expressando-o com as cores preta, violeta e azul. É claro que aqui duelo não é o «combate o pelea entre dos, a consecuencia de un reto o desafio», mas claramente outro duelo: «demostraciones que se hacen para manifestar el sentimiento que se tiene por la muerte de alguien». Em espanhol são vocábulos convergentes, mas o contexto é claríssimo, o tradutor apenas tinha de estar atento. Na primeira acepção, duelo vem do baixo latim duellum; no segundo, vem do latim dŏlus.

Tradução: «limon»

Dinossauro al limón

Quando refiro estes casos de tradução, nunca quero (ou quero? já me esqueci) ensinar como se deve traduzir, mas sim apelar para o bom senso e o brio profissional dos tradutores. Veja-se mais um caso de estouvadice. «Les empreintes sur le terrain instruisent souvent le chercheur autant que l’étude du fossile lui-même. On dispose, par exemple, de plus de traces de dinosaures que de fossiles. Ces traces, comme dans le cas des fossiles, ont été conservées dans les terrains sédimentaires si elles ont été rapidement recouvertes par des cendres volcaniques ou du limon.» Ora vamos lá à tradução: «As pegadas no terreno informam muitas vezes tanto o investigador como o estudo do próprio fóssil. Existem, por exemplo, mais vestígios de dinossauros do que de fósseis. Estes vestígios, como no caso dos fósseis, são conservados nos terrenos sedimentares se tiverem sido rapidamente cobertos com cinzas vulcânicas ou limão.» Devia ser um rito funerário dos dinossauros: logo que um deles morria, cobriam-no de limões — para se conservar até aos nossos dias. Faziam o mesmo com as pegadas. Em francês, limon é o citrino mas também é a «terre molle qui, charriée par les eaux, se dépose sur les bords d’un fleuve». Vem do latim popular limonem, acusativo de limo, e este do latim clássico limus, «lama», étimo afinal do nosso limo. Logo, lodo ou limo seria a palavra que o tradutor deveria ter usado.

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