Léxico: getas

Imagem: http://www.city.minoh.osaka.jp/

Tamancos nipónicos

Cara Fernanda Simões, o calçado que algumas japonesas ainda usam, uma espécie de tamancos muito típicos, composto por uma tabuinha horizontal pousando sobre duas outras verticais, como a imagem mostra, tem o nome — registado nos nossos dicionários, sim — de getas. Encontra-se registado também no meu pequeno (mas em crescimento) glossário de palavras com étimo japonês. Ver aqui.

Léxico: Cítia

Estado de cítio

«El más antigo de este libro, una bolsa del siglo V procedente de Escitia, está un poco ajado por el uso.» Como se traduz esta frase? Depende, não é? Se for um tradutor ignorante, poderá ser, como eu vi, deste modo: «A mais antiga deste livro, uma mala do século V, proveniente da Escitia, está um pouco desgastada pelo uso.» Sei de uma professora que recitava de cor (o francês, pelo menos para quem não tem umas tinturas de latim, mostra melhor donde isto provém: par cœur) aos filhos, para os embalar, boa parte d’Os Lusíadas. Se fosse tradutora, lembrar-se-ia certamente da estrofe do Canto VII que diz:

Aquelas invenções, feras e novas,
De instrumentos mortais da artelharia
Já devem de fazer as duras provas
Nos muros de Bizâncio e de Turquia.
Fazei que torne lá às silvestres covas
Dos Cáspios montes e da Cítia fria
A Turca geração, que multiplica
Na polícia da vossa Europa rica.

A Cítia (Scythia em latim) era uma região na Eurásia, entre os Balcãs e o Volga, o mar Cáspio e os montes do Cáucaso, incluindo a Crimeia, habitada na Antiguidade por um grupo de povos iranianos nómadas conhecidos por Citas (feminino: citissa) ou Cítios, e por outros povos a eles submetidos, como os Alanos, os Dácios, os Getas (na margem direita do Danúbio), os Roxolanos (que viviam entre a foz do Borístenes e a do Tánais), os Tauros (habitantes da Táurida, actual Crimeia), etc. Foi para a Cítia, segundo rezam as crónicas, que Santo André foi destinado a pregar.
A partir do espanhol, nem sequer uma vez vi este topónimo bem traduzido. O que parece ser uma fatalidade, mas é somente um indício de algo mais grave: há muita gente incompetente a intitular-se tradutor. Sim, ganhem a vida, mas estudem, trabalhem, esforcem-se. Não se envergonhem de usar os dicionários!

Tradução: «duelo»

A lástima dos tradutores

Entre os vários milhões de tradutores do espanhol, alguns são, digamo-lo sem rodeios, completamente obtusos. Vejamos este caso: «Se utilizaban armazones de acero para los bolsos de duelo, y los macizos e intrincados de plata fundida iban suspendidos de unas chatelaines de la cintura de las damas.» Sem pensar nem olhar para a imagem que ilustrava o texto, mais do que explícita, o tradutor verteu: «Nas malas de duelo eram utilizadas armações de aço, e os maciços e intrincados de prata fundida estavam suspensos numas chatelaines da cintura das damas.» E a imagem mostrava várias malas de senhora de cor preta. Historicamente, é claro, expressou-se o luto de formas diferentes e com cores diferentes. Entre a sociedade vitoriana, por exemplo, considerava-se que o luto devia ser mantido durante três anos, expressando-o com as cores preta, violeta e azul. É claro que aqui duelo não é o «combate o pelea entre dos, a consecuencia de un reto o desafio», mas claramente outro duelo: «demostraciones que se hacen para manifestar el sentimiento que se tiene por la muerte de alguien». Em espanhol são vocábulos convergentes, mas o contexto é claríssimo, o tradutor apenas tinha de estar atento. Na primeira acepção, duelo vem do baixo latim duellum; no segundo, vem do latim dŏlus.

Tradução: «limon»

Dinossauro al limón

Quando refiro estes casos de tradução, nunca quero (ou quero? já me esqueci) ensinar como se deve traduzir, mas sim apelar para o bom senso e o brio profissional dos tradutores. Veja-se mais um caso de estouvadice. «Les empreintes sur le terrain instruisent souvent le chercheur autant que l’étude du fossile lui-même. On dispose, par exemple, de plus de traces de dinosaures que de fossiles. Ces traces, comme dans le cas des fossiles, ont été conservées dans les terrains sédimentaires si elles ont été rapidement recouvertes par des cendres volcaniques ou du limon.» Ora vamos lá à tradução: «As pegadas no terreno informam muitas vezes tanto o investigador como o estudo do próprio fóssil. Existem, por exemplo, mais vestígios de dinossauros do que de fósseis. Estes vestígios, como no caso dos fósseis, são conservados nos terrenos sedimentares se tiverem sido rapidamente cobertos com cinzas vulcânicas ou limão.» Devia ser um rito funerário dos dinossauros: logo que um deles morria, cobriam-no de limões — para se conservar até aos nossos dias. Faziam o mesmo com as pegadas. Em francês, limon é o citrino mas também é a «terre molle qui, charriée par les eaux, se dépose sur les bords d’un fleuve». Vem do latim popular limonem, acusativo de limo, e este do latim clássico limus, «lama», étimo afinal do nosso limo. Logo, lodo ou limo seria a palavra que o tradutor deveria ter usado.

Léxico: «pau de dinamite»


Querida, encolhi a dinamite


      A propósito do insano massacre na Virgínia, Luís Costa Ribas, jornalista e professor da disciplina de Speech writing do curso de pós-graduação em Comunicação Estratégica e Assessoria Mediática do ISLA, foi chamado à Edição da Noite da Sic Notícias. Descrevendo uma feira de armamento nos Estados Unidos, explicou que os clientes até podiam sobrevoar de helicóptero um ferro-velho e disparar com metralhadoras sobre «palitos de dinamite». Sempre li e ouvi «pau de dinamite», e, vamos lá, é o que o tamanho sugere, ou não? Em inglês diz-se «stick of dynamite», caso queiram pedir numa loja. Nos Estados Unidos, claro.

Actualização em 23.05.2009



      «Atrás dela (embora ali esteja apenas a fonte, o som está à nossa volta) os Rolling Stones passaram para a canção Emotional Rescue. “I will be your knight in shining ahh-mah”, canta Mick Jagger, e pergunto-me se ele seria capaz de dançar com três paus de dinamite enfiados no cu» (Tudo É Fatal, Stephen King. Tradução de Luís Santos e revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 33).

Actualização em 15.05.2010


      «— Mas esse mito é muito perigoso, mais parece um pau de dinamite. Mesmo dentro das paredes da prisão se fala de guerra civil» (A Filha de Rasputine, Robert Alexander. Tradução de Óscar Mascarenhas. Lisboa: Círculo de Leitores, 2007, p. 338).

Léxico: «tênder»

Imagem: http://paraferroviario.7.forumer.com/


Maria Fumaça



      A leitora Teresa Simões quer saber que nome tinha o vagão que, nos comboios a vapor, levava a lenha. Não apenas a lenha, cara leitora, mas também água, carvão mineral ou óleo. O nome é um anglicismo: tênder. Por vezes, o tênder era incorporado à própria locomotiva, como se fosse um anexo. É o exemplo mostrado na imagem. E já sabe, cara leitora: ver passar comboios só é triste para os que não praticam trainwatching.
      Aproveito para citar um trecho de um texto, «Encantos e Desencantos de um Estagiário», publicado na revista Ingenium, n.º 84, da autoria do engenheiro mecânico J. M. Sardinha, em que se refere o tênder: «O programa do estágio levou-me uma vez ao ramal de Mora, hoje já desactivado. O comboio, que era o único que por aí passava diariamente, era constituído por uma velha locomotiva, um tender [sic], um vagão e uma carruagem de terceira classe onde viajavam quatro passageiros. O calor era abrasador. Seriam talvez três horas da tarde, rodávamos em marcha moderada através de um campo onde só amarelecia o restolho que sobrara da ceifa, quando o maquinista me disse: “Há aqui perto um poço que tem água muito boa e muito fresca.” Minutos depois, com um chiar de freios e tilintar de ferros, o pequeno comboio imobilizou-se no meio do descampado onde não se descortinava uma casa nem a sombra de um chaparro. Toda a gente desceu: o maquinista, o fogueiro, o estagiário, o condutor e os quatro encalorados passageiros. Ali, mesmo ao lado da linha, havia um poço a que não faltava a indispensável roldana, um balde e a respectiva corda. Tranquilamente, sem pressas, passando o balde de mão em mão, refrescámo-nos regaladamente com aquela água bendita cuja frescura nos retemperava as entranhas ressequidas pela feroz canícula estival. Ao lado, o comboio esperava, e fiquei até com a ideia de que a locomotiva, cansada e arquejante, nos olhava com ar de censura, rosnando talvez qualquer coisa como “e eu não tenho direito a um golo dessa água refrescante?”.»


Fissão ou fissuração?

O trolha atómico

Tem de se ter sempre muito cuidado no uso dos sinónimos e no respeito de termos e expressões consagrados. Vejamos a tradução de um texto francês cujo título era «La fission de l’uranium». «En 1938, les Allemands Otto Hahn et Fritz Strassmann ont observe qu’en bombardant certains noyaux d’uranium (l’uranium 235) par des neutrons, on pouvait les briser: il sont ainsi découvert le mécanisme de fission de l’uranium.» Parecia simples, mas vejamos como se portou o tradutor: «Em 1938, os alemães Otto Hahn e Fritz Strassmann observaram que ao bombardearem alguns núcleos de urânio (o urânio 235) com neutrões, eles podiam ser quebrados: também descobriram o mecanismo de fissuração do urânio. Esta fissuração de núcleos de urânio liberta por sua vez neutrões, que provocam outras fissurações, etc., libertando grandes quantidades de energia. É a famosa reacção em cadeia que foi posta em prática nos reactores.» Escusado seria dizer que o título ficou «A fissuração do urânio». Umas linhas mais à frente, a frase «En effet, le seul isotope fissile est l’uranium 235» teve o tratamento que merecia: «Com efeito, o único isótopo fissurável é o urânio 235.» Quem é que, nos tempos que correm, nunca ouviu falar da fissão de um átomo pesado? É o habitual: quando devem fugir do original, procurando outro termo, especialmente nos casos de falsos cognatos e não só, não o fazem; quando devem manter-se fiéis à literalidade do original, fazem desvios desastrosos. De facto, fissuração, quem o pode negar?, também existe. Mas estaremos, ao usá-lo, noutro âmbito. Por exemplo, se falarmos da «fissuração das alvenarias», estaremos a usar com propriedade o termo. Também há a fissuração do ânus, mas basta de coisas tristes e dolorosas. Do mal, o menos: o tradutor poderia ter escrito «a ficção do urânio», o que me faz lembrar aquele jovem ignorante que dizia que tinha ido fazer as «provas de fricção».

Tradução: «claie»

Imagem: http://tilz.tearfund.org/

Não pescam nada

Podia ler-se no original: «La pêche — morue et hareng, frais, salés, congelés, ou séchés sur des claies en plein air — et les activités de transformation du poisson (huiles et farines) fournissent l’essentiel des emplois et des exportations.» O tradutor tentou dar-nos a informação em português: «A pesca — bacalhau e arenque, frescos, salgados, congelados ou secos em nassas ao ar livre — e as actividades de transformação do peixe óleos e farinhas) fornecem o essencial dos empregos e das exportações.» Peixe a secar em nassas? E porque não suspenso nos próprios anzóis? Talvez não sejam apenas os pescadores a rir com esta afirmação. Uma nassa, toda a gente sabe, é uma espécie de cesto de vime ou de outro material de feitio afunilado usado para pescar. Quanto a claie («treillis d’osier à claire-voie tendu sur un support en bois» e, por extensão, «ouvrage utilisé pour : sécher les fruits, les fromages»), de que vemos uma imagem em cima, podemos traduzir por «caniçado», por exemplo, mesmo na acepção de suporte para secar frutos e queijos. Acresce que o francês também tem o vocábulo nasse («instrument de pêche qui se pose au fond de l’eau, en forme de panier cylindrique oblong, fabriqué en osier, en filet ou en fil métallique, muni d’un goulet par lequel le poisson peut entrer mais non ressortir»), cujo étimo é o latino nassa, exactamente o étimo da nossa nassa. Para traduzir, não chega atrevimento — é preciso discernimento.

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