Léxico: «pau de dinamite»


Querida, encolhi a dinamite


      A propósito do insano massacre na Virgínia, Luís Costa Ribas, jornalista e professor da disciplina de Speech writing do curso de pós-graduação em Comunicação Estratégica e Assessoria Mediática do ISLA, foi chamado à Edição da Noite da Sic Notícias. Descrevendo uma feira de armamento nos Estados Unidos, explicou que os clientes até podiam sobrevoar de helicóptero um ferro-velho e disparar com metralhadoras sobre «palitos de dinamite». Sempre li e ouvi «pau de dinamite», e, vamos lá, é o que o tamanho sugere, ou não? Em inglês diz-se «stick of dynamite», caso queiram pedir numa loja. Nos Estados Unidos, claro.

Actualização em 23.05.2009



      «Atrás dela (embora ali esteja apenas a fonte, o som está à nossa volta) os Rolling Stones passaram para a canção Emotional Rescue. “I will be your knight in shining ahh-mah”, canta Mick Jagger, e pergunto-me se ele seria capaz de dançar com três paus de dinamite enfiados no cu» (Tudo É Fatal, Stephen King. Tradução de Luís Santos e revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 33).

Actualização em 15.05.2010


      «— Mas esse mito é muito perigoso, mais parece um pau de dinamite. Mesmo dentro das paredes da prisão se fala de guerra civil» (A Filha de Rasputine, Robert Alexander. Tradução de Óscar Mascarenhas. Lisboa: Círculo de Leitores, 2007, p. 338).

Léxico: «tênder»

Imagem: http://paraferroviario.7.forumer.com/


Maria Fumaça



      A leitora Teresa Simões quer saber que nome tinha o vagão que, nos comboios a vapor, levava a lenha. Não apenas a lenha, cara leitora, mas também água, carvão mineral ou óleo. O nome é um anglicismo: tênder. Por vezes, o tênder era incorporado à própria locomotiva, como se fosse um anexo. É o exemplo mostrado na imagem. E já sabe, cara leitora: ver passar comboios só é triste para os que não praticam trainwatching.
      Aproveito para citar um trecho de um texto, «Encantos e Desencantos de um Estagiário», publicado na revista Ingenium, n.º 84, da autoria do engenheiro mecânico J. M. Sardinha, em que se refere o tênder: «O programa do estágio levou-me uma vez ao ramal de Mora, hoje já desactivado. O comboio, que era o único que por aí passava diariamente, era constituído por uma velha locomotiva, um tender [sic], um vagão e uma carruagem de terceira classe onde viajavam quatro passageiros. O calor era abrasador. Seriam talvez três horas da tarde, rodávamos em marcha moderada através de um campo onde só amarelecia o restolho que sobrara da ceifa, quando o maquinista me disse: “Há aqui perto um poço que tem água muito boa e muito fresca.” Minutos depois, com um chiar de freios e tilintar de ferros, o pequeno comboio imobilizou-se no meio do descampado onde não se descortinava uma casa nem a sombra de um chaparro. Toda a gente desceu: o maquinista, o fogueiro, o estagiário, o condutor e os quatro encalorados passageiros. Ali, mesmo ao lado da linha, havia um poço a que não faltava a indispensável roldana, um balde e a respectiva corda. Tranquilamente, sem pressas, passando o balde de mão em mão, refrescámo-nos regaladamente com aquela água bendita cuja frescura nos retemperava as entranhas ressequidas pela feroz canícula estival. Ao lado, o comboio esperava, e fiquei até com a ideia de que a locomotiva, cansada e arquejante, nos olhava com ar de censura, rosnando talvez qualquer coisa como “e eu não tenho direito a um golo dessa água refrescante?”.»


Fissão ou fissuração?

O trolha atómico

Tem de se ter sempre muito cuidado no uso dos sinónimos e no respeito de termos e expressões consagrados. Vejamos a tradução de um texto francês cujo título era «La fission de l’uranium». «En 1938, les Allemands Otto Hahn et Fritz Strassmann ont observe qu’en bombardant certains noyaux d’uranium (l’uranium 235) par des neutrons, on pouvait les briser: il sont ainsi découvert le mécanisme de fission de l’uranium.» Parecia simples, mas vejamos como se portou o tradutor: «Em 1938, os alemães Otto Hahn e Fritz Strassmann observaram que ao bombardearem alguns núcleos de urânio (o urânio 235) com neutrões, eles podiam ser quebrados: também descobriram o mecanismo de fissuração do urânio. Esta fissuração de núcleos de urânio liberta por sua vez neutrões, que provocam outras fissurações, etc., libertando grandes quantidades de energia. É a famosa reacção em cadeia que foi posta em prática nos reactores.» Escusado seria dizer que o título ficou «A fissuração do urânio». Umas linhas mais à frente, a frase «En effet, le seul isotope fissile est l’uranium 235» teve o tratamento que merecia: «Com efeito, o único isótopo fissurável é o urânio 235.» Quem é que, nos tempos que correm, nunca ouviu falar da fissão de um átomo pesado? É o habitual: quando devem fugir do original, procurando outro termo, especialmente nos casos de falsos cognatos e não só, não o fazem; quando devem manter-se fiéis à literalidade do original, fazem desvios desastrosos. De facto, fissuração, quem o pode negar?, também existe. Mas estaremos, ao usá-lo, noutro âmbito. Por exemplo, se falarmos da «fissuração das alvenarias», estaremos a usar com propriedade o termo. Também há a fissuração do ânus, mas basta de coisas tristes e dolorosas. Do mal, o menos: o tradutor poderia ter escrito «a ficção do urânio», o que me faz lembrar aquele jovem ignorante que dizia que tinha ido fazer as «provas de fricção».

Tradução: «claie»

Imagem: http://tilz.tearfund.org/

Não pescam nada

Podia ler-se no original: «La pêche — morue et hareng, frais, salés, congelés, ou séchés sur des claies en plein air — et les activités de transformation du poisson (huiles et farines) fournissent l’essentiel des emplois et des exportations.» O tradutor tentou dar-nos a informação em português: «A pesca — bacalhau e arenque, frescos, salgados, congelados ou secos em nassas ao ar livre — e as actividades de transformação do peixe óleos e farinhas) fornecem o essencial dos empregos e das exportações.» Peixe a secar em nassas? E porque não suspenso nos próprios anzóis? Talvez não sejam apenas os pescadores a rir com esta afirmação. Uma nassa, toda a gente sabe, é uma espécie de cesto de vime ou de outro material de feitio afunilado usado para pescar. Quanto a claie («treillis d’osier à claire-voie tendu sur un support en bois» e, por extensão, «ouvrage utilisé pour : sécher les fruits, les fromages»), de que vemos uma imagem em cima, podemos traduzir por «caniçado», por exemplo, mesmo na acepção de suporte para secar frutos e queijos. Acresce que o francês também tem o vocábulo nasse («instrument de pêche qui se pose au fond de l’eau, en forme de panier cylindrique oblong, fabriqué en osier, en filet ou en fil métallique, muni d’un goulet par lequel le poisson peut entrer mais non ressortir»), cujo étimo é o latino nassa, exactamente o étimo da nossa nassa. Para traduzir, não chega atrevimento — é preciso discernimento.

Tradução. Elemento quilo-

Ignorância geométrica

Dizia o original francês, que tratava dos cinco poliedros regulares: «Il est possible de construire un nombre infini de polyèdres, de solides dont les faces sont des polygones quelqonques; il existe aussi un nombre ilimité de polygones réguliers que l’on peut inscrire dans un cercle (le triangle équilatéral, le carré, l’héxagone, le chiliogone avec ses mille côtés, etc.).» O tradutor achou, como não, se traduzir é tão fácil?, o seguinte: «É possível construir um número infinito de poliedros, sólidos cujas faces são qualquer polígono; existe também um número ilimitado de polígonos regulares que se podem inscrever num círculo (o triângulo equilateral, o quadrado, o hexágono, o chiliogone com as suas mil faces, etc.).» A frase que se seguia imediatamente a este trecho dizia, premonitoriamente, o seguinte: «Or, une des caractéristiques de l’intelligence humaine consiste à généraliser ce qu’elle découvre.» Sim, mas não generalizemos tanto, que ele há inteligências e inteligências. A do tradutor, por exemplo, não foi capaz de generalizar aqui. No contexto, se antes tinha o vocábulo «hexágono» e quanto a «chiliogone» até tinha a explicação de que tinha mil faces, como é que deixa por traduzir? Porque não investigou? Quilógono ou, até mais próximo do francês, quiliógono deveria ter escrito. Como se aquele chili- não fosse o mesmíssimo kilo- também francês e o português quilo-, elemento antepositivo com origem no grego χίλιοι.

«Garagista» é galicismo?

«Os dicionários, coitados, sabem o que dizem, mas não sabem falar.»
Miguel Esteves Cardoso


Veja lá isso bem


      O que separa um mecânico de um garagista? Um fato-macaco ou, como querem alguns, um galicismo? Investiguemos. Para os Franceses, um garagiste é «la personne qui tient un garage pour l’entretien, la réparation et la vente des véhicules automobiles». Algo nos diz, para além da experiência de ter conhecido, em Portugal, garagistas que não eram mecânicos, que um garagiste não é o mesmo que um mécanicien: «celui, celle qui monte, entretient ou répare des machines». Muito frequentemente, cá como em França, um mecânico poderá ser empregado de um garagista. O Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, regista: «Garagista, s. 2 gén. (do fr. garagiste). Proprietário ou gerente de garagem.» O mesmo registam o Dicionário da Academia e o Dicionário Houaiss. No dia-a-dia, ouve-se a palavra «garagista» nesta acepção. A lei também a consagra nesta acepção. O Dec.-Lei n.º 522/85, de 31 de Dezembro, que acolhe a regulamentação específica do seguro automóvel obrigatório, consigna, no artigo 2.º, n.º 3, a obrigatoriedade do contrato de seguro de garagista. A jurisprudência, quase sempre cuidadosa na determinação dos conceitos, usa o vocábulo na mesma acepção. Em suma, «garagista» é um vocábulo registado nos dicionários de língua portuguesa, é necessário e não confundível com o vocábulo «mecânico».

Apostila ao Ciberdúvidas

Grande ajuda

Um consulente, português a residir na Suíça, pergunta hoje ao Ciberdúvidas se o topónimo Estangnhola tem algum significado. O consultor F. V. P. da Fonseca responde: «Não pode haver nenhum topónimo, ou qualquer outra palavra portuguesa, com a grafia apontada. Só poderia existir Estangola ou Estanhola, que mesmo assim não encontro registados.» Esta impossibilidade, ao que suponho, tinha que ver com o facto de a sequência gnh não existir em português. Ora, se o consultor teve discernimento para apontar possíveis topónimos com uma grafia próxima da que reputava impossível, ainda que não os tenha encontrado (em Portugal não existirão, mas sim em Espanha, pois Estangola de Gerber e Estanhola de los Armèros situam-se ambos nos Pirenéus espanhóis), porque não o teve igualmente para ver que o consulente poderá ter digitado mal (eu sei que foi duas vezes, mas ainda assim) o vocábulo? De facto, é mais provável que o consulente quisesse ter escrito Estanganhola tendo escrito Estangnhola do que outra palavra qualquer, ou não? Quanto a Estanganhola, é o nome de um lugar na freguesia de São Sebastião, no concelho de Rio Maior.

Antropónimo: Aboim

Nomes e apelidos

A leitora T. A. quer saber de onde provém o apelido Aboim. O que primeiro se me oferece dizer é que este apelido foi, como acontece tão frequentemente com outros, primitivamente um nome, tendo passado depois a nome geográfico (lugares do Douro e Minho e também nome de uma ribeira que nasce em Gondomar e vai desaguar no rio Lima, abaixo de Ponte de Lima) e só por último a apelido. Tem origem no genitivo (Abolini) do nome medieval Abolinus. Já quanto à origem deste, a questão é mais intrincada, como pode ver aqui e aqui.

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