«Suicidário» existe?

Há melhor


      No programa O Silêncio de Sócrates de ontem, na Sic Notícias, o jornalista Ricardo Costa usou o vocábulo «suicidário». Que outras pessoas o usam, mesmo na escrita, sei-o bem. (Recentemente, até vi ser usado com grande abundância «genocidário».) O que devemos perguntar é se está dicionarizado, se está bem formado e se faz falta. Não está dicionarizado, por enquanto. (Mas está registado na MorDebe, por exemplo.) Parece estar bem formado, pois houve recurso ao elemento formador de adjectivos -ário, que já vem do latim e que é extremamente produtivo. Não faz falta, pois existe o adjectivo «suicida». Creio que quem usa este neologismo pretende, ainda que inconscientemente, afastar-se do sentido mais conotado com o ser humano que o adjectivo «suicida» comporta. Parecer-lhes-á, acaso, que em «atitude suicida», «argumento suicida», etc., não há harmonia. Pode também haver influência do francês suicidaire, dicionarizado e muito usado: «A. 1. Qui exprime une intention de suicide; qui pousse au suicide ou qui y aboutit. Vous êtes fous. Je sais ce qui me reste à faire, je ne veux pas parler à des fous. (...) il jeta un regard significatif sur Agnès, un regard suicidaire (DRIEU LA ROCH., Rêv. bourg., 1937, p. 233). Au XIXe siècle apparaît, avec Goethe, l’amour élégiaque, ou suicidaire (Werther) (L. DAUDET, Idées esthét., 1939, p. 168)» (in Le Trésor de la Langue Française Informatisée).



 

Gentílico: furiano

Naturais do Darfur

Cara M. L. T., os naturais do Darfur, no Oeste do Sudão, são os Furianos, conforme alguns dicionários portugueses registam, como o Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa de António de Morais Silva. De facto, Darfur significa em árabe «terra dos Fur» (دار فور), ainda que na verdade seja terra de outras etnias que não somente os Fur, tal como os Masaalit e os Zaghawa. Dar, na transliteração do árabe, significa literalmente «casa», como em Dar al-Harb (دار الحرب), «Casa da Guerra», que é uma expressão usada na lei islâmica para designar regiões ou países não muçulmanos, ou Dar al-Islam (دار الإسلام), «Casa da Submissão», para significar o conjunto das regiões ou países sujeitos às leis muçulmanas.
É verdade, este gentílico ainda não consta do Dicionário de Gentílicos e Topónimos, do Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), mas já sugeri a sua inclusão.

Informação

ABL responde

A Academia Brasileira de Letras disponibiliza a partir de hoje um consultório de língua portuguesa. «A partir do dia nove de abril, basta preencher o formulário que a equipe executiva dirigida por Sergio Pachá e coordenada pelo acadêmico Evanildo Bechara responderá a todas as dúvidas de pronome, significado das palavras, flexão verbal e nominal, questões de sintaxe e semelhantes.» Ver aqui.

Léxico: uscufe

Imagem: http://www.newn.cam.ac.uk/Skilliter/contact.shtml

Na cabeça

Caro M. T., a cobertura de feltro ou de algodão que os janízaros ou janíçaros, a tropa de elite do Império Otomano entre os séculos XIV e XIX, usavam na cabeça tinha o nome de uscufe. Os janízaros (do turco يكيچرى, «novo soldado»), a propósito, eram crianças cristãs raptadas pelos Turcos principalmente nos Balcãs e treinadas para constituir este corpo especial de protecção do sultão.

Uso do hífen

As regrazinhas

«Não é [José Sócrates] produto do activismo próximo das clivagens anti-autoritárias» («Habilitações», António Costa Pinto, Diário de Notícias, p. 64. Olhe que não, olhe que não. Segundo a Base XXIX, 3.º, do Acordo Ortográfico de 1945, emprega-se o hífen, entre outros, nos seguintes casos: «compostos formados com os prefixos anti, arqui e semi, quando o segundo elemento tem vida à parte e começa por h, i, r ou s: anti-higiénico, anti-ibérico, anti-religioso, anti-semita; arqui-hipérbole, arqui-irmandade, arqui-rabino, arqui-secular; semi-homem, semi-interno, semi-recta, semi-selvagem.» Logo, contrario sensu, deverá escrever-se antiautoritário.

Construção «tratar-se de»

É desta que aprendemos?

      «José Pinto Coelho referiu nunca “ter apresentado queixa à polícia” por considerar “que se tratam de “meras ameaças virtuais”» («PNR restaura cartaz», Eva Cabral, Diário de Notícias, 7.4.2007, p. 5). As aspas, já os meus perspicazes leitores terão reparado, não estão certas: ou sobram ou faltam. Por isso, não sabemos se quem ignora as regras gramaticais é a jornalista se o político. Embora tenha um palpite, não quero deixar, mais uma vez, de dizer que, nestes casos e na minha opinião, o jornalista deve corrigir o que lhe é dito. A construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular. Matéria comezinha embora, o que me leva muitas vezes a evitar trazê-la para aqui, é vê-los, aos jornalistas e não só, claudicar nas regras gramaticais.

Léxico: «bacine»

É mesmo?
     


      O Diário de Notícias levou-nos a ver como se fazem amêndoas confitadas em Portalegre. «Qual é o segredo? “Claro que o segredo não se dá a ninguém, o processo é essencialmente amêndoa, açúcar e chocolate.” As caldas que se transformam na capa da amêndoa são feitas em tachos de cobre e também a amêndoa é rolada em caldeiras de cobre (cujo nome é bacine), refere ainda, enquanto dá uma olhadela na secção de empacotamento» («As amêndoas que vêm de Portalegre», Hugo Teixeira, 6.4.2007, p. 49). Inicialmente pensei, confesso, que a tal caldeira fosse — e a proximidade com Espanha fazia-me mesmo temê-lo — um penico espanhol: bacín: «Recipiente de barro vidriado, alto y cilíndrico, que servía para recibir los excrementos del cuerpo humano.» A grafia autorizava a suposição, mas não as acepções do vocábulo espanhol. Vamos ao francês. Bassine: «Bassin large et profond servant à divers usages domestiques ou industriels. Une bassine de confiture.» O étimo dos dois vocábulos é o mesmo: o latim vulgar baccinus. Agora a pergunta é como se devia escrever, dado o étimo provável. Escusado será dizer que o vocábulo não se encontra dicionarizado. Mas, como explica Sergio Pachá, lexicógrafo-chefe da Academia Brasileira de Letras, «a palavra não passa a existir a partir do momento que é registrada no dicionário. Vai para lá depois de existir».

Tradução: «grains de beauté»

Imagem: http://mariaeasoutras.sapo.pt/maria_fotos.html

Até as cabeleireiras


«Les grains de beauté sur notre corps ou les petites taches foncées qui apparaissent sur les mains des personnes âgées sont des tumeurs dont la prolifération a été stoppée: notre organisme a repris leur contrôle.» O tradutor tentou verter para português, e quase se ficou no intento: «Os grains de beauté do nosso corpo ou as pequenas manchas acastanhadas que aparecem nas mãos das pessoas idosas são tumores cuja proliferação foi interrompida: o nosso organismo retomou o controlo.» Aqui em Benfica, onde proliferam as cabeleireiras (na verdade, não deve haver rua onde não haja pelo menos uma), mais do que em qualquer outra freguesia de Lisboa, qualquer ajudante deve saber o que são grains de beauté (umas porque nasceram em França, outras, porque lêem os rótulos dos produtos que usam). São os sinais no corpo humano. Claro que se usamos a expressão francesa mais facilmente nos acode à memória o rosto de Catarina Furtado do que uma verruga de uma bruxa, mas trata-se do mesmo. Agora a sério: se um agricultor tem de ter enxadas, ancinhos, forquilhas, carrinhos de mão, um tradutor tem de adquirir dicionários, gramáticas, vocabulários, ou não? Ah! Je suis fadé!...

Arquivo do blogue