Léxico: «mandaçarre»

Mais uma pérola


      Li recentemente um texto sobre a vida de um pescador de pérolas filipino, mais concretamente de Banjao, na ilha de Mindanau. O texto não o dizia, mas a verdade é que a língua portuguesa inclui no seu vasto léxico um vocábulo para designar o pescador de pérolas da Ásia — mandaçarre. Karel Pamay, o pescador entrevistado pelos missionários combonianos José Rebelo e David Domingues, «explica que, por aquelas bandas, os meses melhores para a pesca das pérolas são os de Verão — Abril e Maio —, e o momento mais propício as noites de lua cheia; certamente porque a água aquece e as ostras desovam. As conchas encontram-se a cerca de 30 metros de profundidade. Karel consegue suster a respiração por dois minutos, o suficiente para mergulhar. Os seus óculos de mergulho (goggles) são muito especiais — feitos de casca de árvore, as lentes são dois pedaços de vidro colados com uma cola natural, extraída de uma árvore; e são amarrados por fios. Uma invenção original, que bem merecia uma patente» (in revista Audácia).


Nomes

Quanto custa um acento circunflexo?

Nunca pensei vir a escrever sobre este assunto, mas ter lido o seguinte texto de Frances Mayes fez-me mudar de opinião. «What is up with the Mantova restaurants? Something contagious happened with the naming. One translates as the Black Eagle, others as the White Griffon, the Swan, Two Ponies, White Goose» (A Year in the World, Journeys of a Passionate Traveller, Broadway Books, 2006). Em Lisboa, é em relação às pastelarias que me interrogo: o que leva os proprietários (será a maioria, como uma vez me disseram, originária de Castelo Branco? Se sim, em que é que isso influencia a questão?) a dar o nome de Flor das Avenidas, Flor da Pampulha, Flor de Benfica, Flor da Ajuda, Flor... às suas pastelarias? Porquê «flor»? E — mais grave ainda, e o que me levou também a escrever — porquê «flor» com acento circunflexo? São resquícios gráficos das pétalas? Ou simples analfabetismo? E os proprietários das empresas que fazem os toldos não podem aconselhar honestamente os clientes? Ou serão eles, na verdade, os responsáveis por tais erros?

Etimologia: «mandarim»

Manda que obedeces


      Mandarim ou mandari m. Funcionário letrado, recrutado por concurso, da administração civil e militar na China, no Aname e na Coreia.
      Talvez, como sugerem alguns linguistas, na mudança de t para d se possa ver alguma influência do verbo português mandar, mas a verdade é que há algum consenso na filiação do vocábulo no malaio măntări, corruptela do sânscrito mantrī, «conselheiro, ministro ou chefe de Estado». Que do português tenha passado, logo no século XVI, para o inglês e para outras línguas ocidentais não surpreende. Certo é que não é caso único e — o que é de realçar, no caso — admitido pelos próprios linguistas ingleses, espanhóis e italianos, por exemplo. Supor-se que provém, como alguns afirmam, do verbo português mandar é pura fantasia.

Ter lugar?

Não cabe

Leia-se o que dizia Vasco Botelho de Amaral na obra Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa, edição da Revista de Portugal, Lisboa, 1946, p. 128, a propósito da expressão «ter lugar» (do francês «avoir lieu»), ainda hoje tão em uso: «Um exemplo, entre muitos: Quase se vai esquecendo dizer que isto ou aquilo se efectua, se realiza, ocorre, se celebra. Ter lugar é o estribilho usado nas notícias. Terá lugar um baile, tem lugar o espectáculo, teve lugar a cerimónia, terá lugar o funeral, etc., etc. Ter lugar em português é — ter cabimento, ou cabida, vir a propósito, etc. Aquilo que se realiza, se efectua, se celebra, dizer-se que “tem lugar” parece disparatado e ridículo. Pois faz parte da linguagem alambicada e bárbara…»

Léxico: «cabanil»

Basta!

«Bem-aventurados os pobres de léxico, porque deles é o reino da glória!»
Carlos Fradique Mendes

      Repare, caro L. T., que o vocábulo «grade» é polissémico. Grades há muitas: de cerveja ou de fruta; tabique ou vedação; palratório em conventos ou prisões; caixilho de quadro, porta ou janela; esqueleto de armação de certos móveis; molde para fabricar telha ou tijolo; reservatório de ração em cavalariça; máquina agrícola; armação de bastidores, etc. À armação protectora em volta de alguma planta, para que o gado, pessoas ou veículos a não danifiquem dá-se o nome de cabanil. Não devemos passar a vida a invejar, genuflectos e servis, o vastíssimo léxico do inglês e, ao mesmo tempo, desconhecermos e desprezarmos a riqueza do nosso. Se queremos que as coisas mudem, contribuamos activamente para isso, com estudo ponderado e muita leitura.


Colocação do pronome átono

Isto me parece

      O leitor J (e não seria melhor «J.»?) pede a minha opinião acerca da colocação do pronome átono na seguinte frase: «Ficou sentado, para que ela não fosse levantar-se.» Se se tratasse de um infinitivo solto, como defende a Nova Gramática do Português Contemporâneo, mesmo quando modificado por negação, como é o caso, seria lícita a próclise e a ênclise, «embora haja acentuada tendência para esta última colocação pronominal» (p. 312 da 3.ª edição, 1986). Tratando-se de uma locução verbal, a mesma gramática defende a ênclise ao infinitivo e ao gerúndio, e a próclise ao verbo auxiliar «quando ocorrem as condições exigidas para a anteposição do pronome a um só verbo» (p. 315). Ora, no caso, estas condições não impõem taxativamente a anteposição do pronome, pelo que é indiferente usar a próclise ou a ênclise. Assim, podemos escrever: «Ficou sentado, para que ela não se fosse levantar»; «Ficou sentado, para que ela se não fosse levantar»; «Ficou sentado, para que ela não fosse levantar-se».


Tradução: «gutter»

Imagem: http://cephas.net/photos/
Para quem é…

      É muito estranho ver confundir o inconfundível, mas há tradutores que chegam lá: «Ed notices the odd wooden gutters that jut way out from the house and pour into the yard.» O nosso tradutor achou que seria algo como: «Ed repara nas estranhas sarjetas de madeira que se projectam da casa e escoam para o pátio.» Como é que uma sarjeta se projectaria de uma casa? Sim, a água de um algeroz, de uma caleira ou de uma goteira («gutter: etymology: Middle English goter, from Anglo-French gutere, goter, from gute drop, from Latin gutta», in Merriam-Webster) irá, possível mas não necessariamente, desaguar numa sarjeta, mas não o contrário. É preciso algum discernimento. Exemplos comezinhos, sim, mas que farão um leitor mais exigente desprezar o livro que adquiriu — ou não o comprar se calhou ver o dislate na livraria onde o folheou.

Léxico: «topiaria»

Imagem: http://www.topiaryinc.com/
Eis que surge

      Confesso: andava há muito tempo a pensar no facto de certas palavras nunca as usarmos nem as vermos usadas em toda a nossa vida. Uma destas era a palavra «topiaria», que sempre me ocorria de cada vez que passava por determinado jardim numa vila alentejana, mas que nunca se proporcionou o ensejo de a transmitir a outra pessoa. Eis que surge numa tradução. «A stone walk lined with rose topiaries leads to the door, as it does in thousands of gardens where no Jane [refere-se a Jane Burden, mulher de William Morris. O outro ludibriado era Dante Gabriel Rossetti] ever juggled two men.» Ainda assim, o tradutor errou no acento: «Um passeio de pedra com uma fila de topiárias de roseiras conduz à porta, como em milhares de jardins onde nenhuma Jane intrujou dois homens.» Na verdade, topiaria: arte de arranjar os jardins, dando a grupos de plantas configurações diversas, especialmente em arbustos como o buxo, por exemplo. E, é claro, o topiário é o jardineiro que pratica a topiaria, a quintessência da natureza domesticada pelo Homem.

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