Léxico: pangau

Continua, que vais bem

      É dos filmes: um nababo está repoltreado entre coxins e ricos adornos e um escravo puxa uma corda presa a um abano rectangular de tecido dependurado do tecto, para que o vaivém refresque o seu senhor. A leques com estas características dá-se o nome de pangau.

Conjugação perifrástica

Pode repetir?

      «We’re supposed to be afraid?», perguntava-se candidamente no original. O tradutor percebeu como todos nós percebemos, mas a gramática claudicou. Escreveu, pois, o tradutor: «Deveremos termos medo?» Como estamos perante uma construção perifrástica, o verbo modal dever (os verbos auxiliares mais frequentes da conjugação perifrástica são ir, vir, andar, dever, deixar, ter, estar, haver, começar ou continuar) funciona como auxiliar (para alguns, semiauxiliar) e, por isso, é o verbo flexionável, isto é, é o verbo que indicará a pessoa, o tempo e o modo. O verbo ter, principal ou regente, ficará no infinitivo impessoal, visto que a marca da pessoa já foi referida no verbo auxiliar.

Letra e grafia

Ai sim? Então…

      F. V. P. da Fonseca tem razão: é um contra-senso dizer-se ou escrever-se que alguém tem «péssima caligrafia». Como também não faz sentido dizer-se «ortografia correcta». Contudo, no texto de opinião «O ensino da gramática e a terminologia», publicado originalmente no jornal Público no dia 13 de Dezembro de 2006 e reproduzido no dia seguinte no Ciberdúvidas, a Prof.ª Maria Helena Mira Mateus escreveu: «Ora, se pensarmos na importância social e linguística que tem a ortografia, percebemos a utilidade de classificar uma palavra como “esdrúxula”, pois nesse caso o aluno sabe que ela se escreve com um acento gráfico indicativo do lugar da vogal tónica; igualmente, ao classificar certas palavras como “agudas” porque terminam numa vogal como a de café, o aluno sabe que a ortografia correcta deste tipo de palavras exige um acento gráfico indicativo da pronúncia da vogal final da palavra.» Grafia correcta ou ortografia oficial deveria ter sido escrito.


Semântica: «montepio»

Tontinas

      Agora que o Montepio Geral está a fazer uma grande campanha publicitária, na qual mostra em que difere de um banco tradicional, surge a oportunidade de analisar o vocábulo «montepio». Parece ser composto por aglutinação — será? Segundo consta, foi Francisco de Assis que, corria o ano de 1674, fundou a primeira casa que concedia empréstimos aos pobres com garantia de roupas, móveis e outros objectos de casa, que em italiano adquiriu o nome de monte di pietà — monte de piedade. Claro que este monte não é como o monte Santo, Monsanto, mas um monte de dinheiro, disponível para emprestar aos pobres. A ideia foi copiada em toda a Itália e até noutros países da Europa. Em França deu-se-lhe o nome de mont-de-piété; em Espanha, monte pío ou montepío; em Portugal, montepio. Há igualmente uma outra espécie de associação mútua com alguma semelhança (e que nos modernos dicionários constitui uma segunda acepção do vocábulo), que são as tontinas, concebidas pelo banqueiro napolitano Lorenzo de Tonti, nas quais cada sócio deposita certa quantia, para constituir uma renda vitalícia que, em data determinada, deverá ser repartida pelos sócios sobreviventes. A demonstrar que não é um conceito ultrapassado, vejo que no Decreto-Lei n.º 28/2000, de 28 de Dezembro, publicado no Diário da República de… São Tomé e Príncipe, foi regulamentada uma tabela de ramos de seguro em que figura o seguro de tontina.



Léxico: morganático

Guten Morgan!

      A leitora F. A. pede-me que explique o que é um casamento morganático. É o que farei, começando por dizer que a figura do casamento morganático nunca existiu legalmente em Portugal, conforme se pode ler nas «Instituições de Direito Civil Português», da autoria de Pascoal José de Melo Freire (Boletim do Ministério da Justiça, n.º 49, Julho de 1955, p. 62). Casamento morganático é o casamento entre um príncipe e uma mulher de classe social inferior, ou entre uma princesa e um homem de classe social inferior, e no qual cada cônjuge conserva a sua condição social anterior — o que tem consequências no que respeita ao património e à descendência. Este tipo de casamento surgiu nos Estados germânicos na Idade Média, e posteriormente estendeu-se a quase toda a Europa. Ao acto estava associado um ritual preciso: na manhã que se seguia ao matrimónio, o marido, em presença de amigos e parentes de ambos, dava à mulher um presente simbólico (em alemão designado morgangeba, vocábulo formado de morgan (manhã) e geba (dar), que latinizado veio a dar morganaticus); esta, ao recebê-lo, perdia qualquer direito a títulos e reclamações posteriores sobre o património do marido, renúncia extensiva aos filhos de ambos.
      Na prática, claro que também em Portugal houve casamentos morganáticos. Um dos mais conhecidos foi o de D. Fernando II com a cantora de ópera suíço-alemã Elise Hensler, depois condessa d’Edla (22.05.1836―21.05.1929). Há, aliás, uma biografia, publicada em 2006 pela Alêtheia Editores, da autoria da jornalista Teresa Rebelo cujo título exprime esta condição: Condessa d’Edla ― A cantora de ópera quasi rainha de Portugal e de Espanha (1836-1929).
      Antes do casamento de Carlos de Inglaterra com Camilla Parker-Bowles, o deputado trabalhista Andrew McKinlay perguntou durante uma audiência se o casamento de Charles e Camilla Parker-Bowles seria «morganático», ou seja, o deputado pretendia saber se Camila perderia automaticamente o direito ao título de rainha, no caso de Carlos suceder a Isabel II.

Sela de borrego e guarnições

E não parece?

      Recentemente, um tradutor perguntava ao Ciberdúvidas se se devia escrever «cela de borrego» ou «sela de borrego». Dizia-se inclinado para a última forma, pela «correspondência» anatómica e porque em inglês é saddle of lamb. Mas um chefe grafara «cela de borrego» e ele, tradutor, ficou «às escuras». Vê-se logo que nunca entrou num talho. Ora veja lá: a imagem sugere-lhe uma gaiola ou uma sela de montar? Trata-se de uma catacrese, e muito bem conseguida, com que se designa esta peça anatómica do borrego, correspondente às costelas, numa só peça. A consultora não foi muito esclarecedora, como por vezes acontece: «No que diz respeito à sua segunda dúvida, também me parece que o mais correcto (quer pela correspondência anatómica, como refere, quer pelo significado da palavra cela) será “sela de borrego”.» Não apenas o inglês, mas também o espanhol nos serve de ajuda, pois nesta língua diz-se «silla de cordero (piernas y cadera sin cortar)». Descarnadas, sim, pareceriam o cavername de uma embarcação, e então a semelhança com uma gaiola seria maior.
      E porque vem a talhe de foice (e melhor diríamos, no caso, a talhe de cutelo), refiro uma tradução recente que me chegou às mãos. Dizia o original inglês: «The famous Tuscan crostini, rounds of bread for many delicious toppings, here are deep-fried disks of pizza dough, which are then spread or piled with whatever the cook fancies.» Verteu o tradutor: «O famoso crostini Toscano, círculos de pão para muitos toppings deliciosos, são aqui rodelas bem fritas de massa de pizza, cobertas ou empilhadas com qualquer que seja a fantasia do cozinheiro.» Esqueçamos o «Toscano»; detenhamo-nos nos toppings. Mas então, a tradução não era do inglês para português? E desde quando toppings não tem equivalente português? O contexto, valha-me Deus, não ajudava de uma forma inequívoca? Use your head. O nome o sugere: são coberturas, guarnições usadas em culinária.
 

Mouros e muçulmanos

É o mesmo?

      A propósito de moedas visigóticas cunhadas no actual território português, escreve José Norton: «Dos muçulmanos, alguma coisa mais ficou, para além dos castelos, que geralmente se considera serem herança dos mouros» («Moedas visigóticas em Portugal», Expresso/Actual, 3.3.2007, p. 44). A pergunta que se impõe é: a distinção é técnica ou meramente literária? Isto é, usa o autor os termos «muçulmanos» e «mouros» apenas para não repetir um deles, ou é uma distinção técnica? Vejamos o que, a propósito da mesma matéria, escreveu Vasco Botelho de Amaral: «Lembrarei também o facto curioso de se designar com a palavra Mouros ou Moiros os Muçulmanos que estiveram dominando a Península. Propriamente, Mouros refere os naturais da Mauritânia, isto é, os da região do norte africano correspondente ao Marrocos actual na maior parte. Quando se deu a invasão da Península, além de Mouros propriamente ditos, outros invasores se contavam no número dos Muçulmanos, isto é, no número dos que, seguindo a doutrina do alcorão, por ela vinham conquistar o território hispânico. Nestas condições, a exactidão pediria que lhes chamássemos Muçulmanos, e não apenas Mouros.
      Todavia, a palavra Mouros ou Moiros entrou para sempre na língua com o significado genérico de Muçulmanos.
      O nosso povo, diante de ruína antiga, diz que “é do tempo dos Mouros”. E dizemos todos — moiras ou mouras encantadas, e não… muçulmanas encantadas, o que seria exacto, porém cómico» (A Bem da Língua Portuguesa, edição da «Revista de Portugal», Lisboa, 1943, p. 81).

Corão e Alcorão, outra vez

Ainda estão a tempo

      Uma vez que se trata de um erro fundamente enraizado, gostaria de apresentar a posição do Prof. Vasco Botelho de Amaral, constante da obra A Bem da Língua Portuguesa, edição da «Revista de Portugal», Lisboa, 1943, pp. 80-81:

«E porque falei em Alá, aproveito a oportunidade para lembrar que o livro sagrado da religião maometana se denomina alcorão. Ora, como o artigo árabe corresponde em tradução ao artigo português, há por aí algumas pessoas (até autores de livros de certa responsabilidade) que imaginam ser errado dizer o alcorão, e chamam antes (talvez por imitação do francês ou do espanhol) corão (sic!) ao livro sagrado dos Árabes. E raciocinam: o alcorão equivale a — o o corão, pois al = o. Tal imaginação é algo ridícula, visto que, se passarmos a substituir alcorão por corão, nesse caso a lógica mandará que, disparatadamente, chamemos finete ao alfinete, gibeira, à algibeira, mofada à almofada e assim por diante…
Em português a denominação correcta da bíblia muçulmana só deve ser, pois, alcorão!»

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