Sela de borrego e guarnições

E não parece?

      Recentemente, um tradutor perguntava ao Ciberdúvidas se se devia escrever «cela de borrego» ou «sela de borrego». Dizia-se inclinado para a última forma, pela «correspondência» anatómica e porque em inglês é saddle of lamb. Mas um chefe grafara «cela de borrego» e ele, tradutor, ficou «às escuras». Vê-se logo que nunca entrou num talho. Ora veja lá: a imagem sugere-lhe uma gaiola ou uma sela de montar? Trata-se de uma catacrese, e muito bem conseguida, com que se designa esta peça anatómica do borrego, correspondente às costelas, numa só peça. A consultora não foi muito esclarecedora, como por vezes acontece: «No que diz respeito à sua segunda dúvida, também me parece que o mais correcto (quer pela correspondência anatómica, como refere, quer pelo significado da palavra cela) será “sela de borrego”.» Não apenas o inglês, mas também o espanhol nos serve de ajuda, pois nesta língua diz-se «silla de cordero (piernas y cadera sin cortar)». Descarnadas, sim, pareceriam o cavername de uma embarcação, e então a semelhança com uma gaiola seria maior.
      E porque vem a talhe de foice (e melhor diríamos, no caso, a talhe de cutelo), refiro uma tradução recente que me chegou às mãos. Dizia o original inglês: «The famous Tuscan crostini, rounds of bread for many delicious toppings, here are deep-fried disks of pizza dough, which are then spread or piled with whatever the cook fancies.» Verteu o tradutor: «O famoso crostini Toscano, círculos de pão para muitos toppings deliciosos, são aqui rodelas bem fritas de massa de pizza, cobertas ou empilhadas com qualquer que seja a fantasia do cozinheiro.» Esqueçamos o «Toscano»; detenhamo-nos nos toppings. Mas então, a tradução não era do inglês para português? E desde quando toppings não tem equivalente português? O contexto, valha-me Deus, não ajudava de uma forma inequívoca? Use your head. O nome o sugere: são coberturas, guarnições usadas em culinária.
 

Mouros e muçulmanos

É o mesmo?

      A propósito de moedas visigóticas cunhadas no actual território português, escreve José Norton: «Dos muçulmanos, alguma coisa mais ficou, para além dos castelos, que geralmente se considera serem herança dos mouros» («Moedas visigóticas em Portugal», Expresso/Actual, 3.3.2007, p. 44). A pergunta que se impõe é: a distinção é técnica ou meramente literária? Isto é, usa o autor os termos «muçulmanos» e «mouros» apenas para não repetir um deles, ou é uma distinção técnica? Vejamos o que, a propósito da mesma matéria, escreveu Vasco Botelho de Amaral: «Lembrarei também o facto curioso de se designar com a palavra Mouros ou Moiros os Muçulmanos que estiveram dominando a Península. Propriamente, Mouros refere os naturais da Mauritânia, isto é, os da região do norte africano correspondente ao Marrocos actual na maior parte. Quando se deu a invasão da Península, além de Mouros propriamente ditos, outros invasores se contavam no número dos Muçulmanos, isto é, no número dos que, seguindo a doutrina do alcorão, por ela vinham conquistar o território hispânico. Nestas condições, a exactidão pediria que lhes chamássemos Muçulmanos, e não apenas Mouros.
      Todavia, a palavra Mouros ou Moiros entrou para sempre na língua com o significado genérico de Muçulmanos.
      O nosso povo, diante de ruína antiga, diz que “é do tempo dos Mouros”. E dizemos todos — moiras ou mouras encantadas, e não… muçulmanas encantadas, o que seria exacto, porém cómico» (A Bem da Língua Portuguesa, edição da «Revista de Portugal», Lisboa, 1943, p. 81).

Corão e Alcorão, outra vez

Ainda estão a tempo

      Uma vez que se trata de um erro fundamente enraizado, gostaria de apresentar a posição do Prof. Vasco Botelho de Amaral, constante da obra A Bem da Língua Portuguesa, edição da «Revista de Portugal», Lisboa, 1943, pp. 80-81:

«E porque falei em Alá, aproveito a oportunidade para lembrar que o livro sagrado da religião maometana se denomina alcorão. Ora, como o artigo árabe corresponde em tradução ao artigo português, há por aí algumas pessoas (até autores de livros de certa responsabilidade) que imaginam ser errado dizer o alcorão, e chamam antes (talvez por imitação do francês ou do espanhol) corão (sic!) ao livro sagrado dos Árabes. E raciocinam: o alcorão equivale a — o o corão, pois al = o. Tal imaginação é algo ridícula, visto que, se passarmos a substituir alcorão por corão, nesse caso a lógica mandará que, disparatadamente, chamemos finete ao alfinete, gibeira, à algibeira, mofada à almofada e assim por diante…
Em português a denominação correcta da bíblia muçulmana só deve ser, pois, alcorão!»

Termos técnicos da edição

Dos livros

      Entende-se por depósito legal o depósito obrigatório de um ou vários exemplares de toda e qualquer publicação, feito numa instituição pública para tal designada. Em Portugal, esse serviço é administrado pela Biblioteca Nacional. É justamente do site da BN que respigo o seguinte vocabulário relativo à edição, que reputo de alguma utilidade.

Edição corrente — Publicação, em formato normalizado, de uma obra destinada ao mercado geral. Edição normal. Edição ordinária.

Edição especial — Diz-se da edição de uma obra clássica ou das obras de um autor clássico reimpressa com outro formato, compreendendo por vezes uma introdução, notas, apêndices, ilustrações e apresentando com frequência um novo título; diz-se de uma edição que se distingue da edição vulgar, quer pela qualidade do papel e da encadernação quer pela adição de ilustrações. Edição extra; número extra ou aumentado de uma publicação periódica ou outra dedicada a determinado assunto, cidade país, região ou editada aquando de um aniversário, Natal ou número especial; edição extraordinária.

Edição de luxo — Tipo de edição que se caracteriza pela riqueza dos materiais e trabalho apurado em que cada exemplar constitui o belo livro levado ao máximo de perfeição, trata-se, em geral, de uma edição limitada com exemplares numerados.

Monografia — Publicação contendo texto e/ou ilustrações apresentados em suporte destinados à leitura visual, completa num único volume de conteúdo unitário ou a ser completada num número determinado de volumes. Publicação monográfica.

Monografia em vários volumes — Monografia com um número de volumes limitado.

Nova edição — Edição feita de novo. Reedição; uma nova edição supõe que o conteúdo da obra se apresenta modificado numa proporção de cinquenta por cento relativamente à primeira edição.

Nova impressão — Impressão feita de novo. Reimpressão.

Publicação periódica — Publicação colectiva com o título legalizado, que é editada a intervalos regulares, durante um determinado período de tempo, cujos fascículos se encadeiam cronologicamente uns nos outros, para que no fim de um ano constituam um ou vários volumes, que tomam a sua ordem numa série contínua. Caracterizam a publicação periódica os factos de possuir um título, ser editada regularmente sob a forma de fascículos com artigos regra geral de autores diferentes e a circunstância de teoricamente não ter um fim.

Publicação em série — Publicação impressa ou não, editada em fascículos ou volumes sucessivos, ordenados geralmente numérica ou cronologicamente, com duração não limitada à partida e independentemente da sua periodicidade; as publicações em série incluem os periódicos (revistas, jornais, boletins, anuários), as séries das actas e relatórios de instituições e congressos, bem como as colecções de monografias. É uma obra formada por parte ou volumes publicados sucessivamente com um título comum e com a intenção de ser continuada indefinidamente, mas não necessariamente a intervalos regulares. Publicação seriada.

Reimpressão — Acto ou efeito de reimprimir. Nova tiragem; reprodução de obra impressa, que não apresenta ou traz alterações de conteúdo ou de apresentação, além das correcções tipográficas feitas sobre o texto da impressão anterior; conjunto de exemplares; conjunto dos exemplares impressos de uma só vez.

Tiragem — Transferência para o suporte da forma registada na matriz; número de exemplares de uma edição que saem da tipografia de uma só vez ou que são impressos de uma só vez; uma mesma edição pode comportar várias tiragens ou impressões; […] hoje em dia tira-se geralmente a primeira edição em 1000 exemplares; as tiragens subsequentes são indicadas como 2.º, 3.º, 4.º, etc., milhar...

Tiragem especial — Parte de uma tiragem normal, executada em bom papel, com numeração especial, muitas vezes com a assinatura autógrafa do autor e na qual consta o número total de exemplares dessa tiragem.

Tiragem limitada — Edição de reduzido número de exemplares aos quais se atribuem números consecutivos, impressos e encadernados mais luxuosamente que a edição corrente.

A propósito de «Allgarve»

«Los ayres andan corruptos
los hombres cada vez más»

Sá de Miranda
Do Minho ao Olgarve

      Como é que podemos confiar que os estrangeiros, os turistas, não vão confundir uma marca com o nome de uma região, se já hoje alguns nos julgam uma província da Espanha? Quanto a mim, a nova campanha publicitária para promover o Algarve tocou onde não devia. Com nomes próprios — antropónimos ou topónimos — não se mexe. A agência de comunicação tinha mil e um aspectos que podia explorar, sem tocar numa característica tão identitária como é o nome. Além disso, que é uma marca senão um nome? E nem podemos afirmar, como o narrador de uma obra de Robert Walser, que «isto aconteceu nos Cárpatos, o que pode servir de desculpa». Nem quero falar, pois logo me dirão alguns que misturo tudo, do custo da campanha, pago com os nossos impostos.

Apostila ao Ciberdúvidas: «explicitação»

Ora veja melhor

      Vamos fazer uma vaquinha para oferecer um exemplar do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa ao consultor do Ciberdúvidas F. V. P. da Fonseca. Vejamos porquê. «Explicitude e explicitação não se encontram registadas», afirma ele, «embora se compreendam, visto parecerem bem formadas. Amplamento não há, mas amplitude tem como sinónimo parcial amplidão. Em latim há amplitudine (ablativo de amplitudo), mas attitudine é italiano, e completudine não me parece existir.» Em que dicionário é que «explicitação» não se encontra registada? Está tão bem formada que se encontra registada… No dicionário que acabei de referir, podemos ler: «explicitação s.f. acção de explicitar, de tornar explícito. ◘ Etim explicitar + -ção; ver cheg.» Mais cuidado não fazia mal a ninguém. Digo eu. F. V. P. da Fonseca vai ter de mudar de dicionário ou de método: nota-se que nem tudo está bem. Veja-se o «diminuitivo» (entretanto corrigido, para desgosto de quem pretendia ver ali um defensor de uma forma popular). Sim, eu sei: «ameacei» um leitor que poderia vir a defender esta forma — mas apenas no campo do que poderia ser, não do que é, não da ortografia oficial. De facto, na obra A Bem da Língua Portuguesa (Edição da «Revista de Portugal», Lisboa, 1943, p. 204), Vasco Botelho de Amaral escreveu: «Na pág. 117, opina o douto filólogo [Augusto Moreno, na obra Lições de Linguagem] que se não deve dizer constituitivo, diminuitivo. Discordo. Constitutivo e diminutivo provêm do latim. Mas constituitivo e diminuitivo formaram-se por analogia, não apenas com diminuir e constituir, senão também com retribuitivo, intuitivo, etc. E, havendo i em diminuição, constituição, etc., diminuir, constituir, etc., a derivação de diminuitivo, constituitivo, posto que não conforme ao latim, é lógica, pelo menos em português. Lógica e de uso corrente. De facto, quem diz ou escreve retribuitivo, intuitivo, contribuitivo, etc., não erra se disser ou escrever diminuitivo, constituitivo, etc.»
      Só mais uma coisa: completudine existe e recomenda-se. Na licenciatura em Direito nas faculdades brasileiras há uma disciplina de Reda(c)ção e Expressão Forense, que devia também cá ser obrigatória, na qual se estudam os diversos argumentos: a contrario, a simili, a fortiori, a coherentia, e por aí fora. A um deles dá-se o nome de argumento a completudine. Trata-se de um procedimento discursivo segundo o qual, não se encontrando uma proposição jurídica que atribua uma qualificação jurídica qualquer a cada sujeito por referência a cada comportamento materialmente possível, se deve concluir pela existência e a aplicabilidade de uma disposição jurídica que atribui aos comportamentos não regulados de cada sujeito uma classificação normativa especial: ou sempre indiferente, ou sempre obrigatórios, ou sempre proibidos, ou sempre permitidos.


Apostila ao Ciberdúvidas: frase sem verbo

Fora!

      A. Tavares Louro, consultor do Ciberdúvidas, perdeu uma boa oportunidade de não de estar calado mas de explicar o conceito de holófrase. A uma pergunta de um consulente sobre se é obrigatório que uma frase tenha verbo, limitou-se a usar um provérbio e a afirmar que alguns de nós somos prolixos, ao passo que outros somos lacónicos. Ora, se é verdade que alguns leitores têm a pecha de não referir o contexto em que foi usado o termo ou expressão que querem ver esclarecidos, nem sempre se pode censurar com «não é possível darmos uma resposta definitiva porque não nos é dado o contexto».
      Não, senhor, caro leitor, não é obrigatório que uma frase tenha verbo. As frases de um só termo — como o tão parlamentar «Apoiado!» —, ou holófrases, não têm necessariamente verbo. Curiosamente, a fase inicial de desenvolvimento da linguagem nas crianças, por volta dos dezoito meses de idade, é constituída por holófrases ou palavras-frase, como teorizou o linguista Gustave Guillaume, em que há uma ligação a uma acção real. Assim, quando uma criança diz «água», tanto pode querer dizer «dá-me água, mamã», como «estou a ver que há aí água», etc. Também alguns doentes mentais se exprimem exclusivamente através de enunciados holofrásticos.

Léxico: «ântifen»

Ao Sr. correitor…

      O leitor C. L., revisor (?), pergunta-me se o sinal habitualmente chamado cardinal (#) tem designação específica no âmbito da revisão de provas. De facto, este sinal, que pertence ao conjunto da notação desta actividade, e que isoladamente serve para indicar que se devem afastar duas letras ou palavras indevidamente pegadas, tem o nome de ântifen. Ainda um dia aqui direi qual o nome de cada um dos sinais usados em revisão, tanto mais que é uma pergunta repetida já por alguns leitores.

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