Termos técnicos da edição

Dos livros

      Entende-se por depósito legal o depósito obrigatório de um ou vários exemplares de toda e qualquer publicação, feito numa instituição pública para tal designada. Em Portugal, esse serviço é administrado pela Biblioteca Nacional. É justamente do site da BN que respigo o seguinte vocabulário relativo à edição, que reputo de alguma utilidade.

Edição corrente — Publicação, em formato normalizado, de uma obra destinada ao mercado geral. Edição normal. Edição ordinária.

Edição especial — Diz-se da edição de uma obra clássica ou das obras de um autor clássico reimpressa com outro formato, compreendendo por vezes uma introdução, notas, apêndices, ilustrações e apresentando com frequência um novo título; diz-se de uma edição que se distingue da edição vulgar, quer pela qualidade do papel e da encadernação quer pela adição de ilustrações. Edição extra; número extra ou aumentado de uma publicação periódica ou outra dedicada a determinado assunto, cidade país, região ou editada aquando de um aniversário, Natal ou número especial; edição extraordinária.

Edição de luxo — Tipo de edição que se caracteriza pela riqueza dos materiais e trabalho apurado em que cada exemplar constitui o belo livro levado ao máximo de perfeição, trata-se, em geral, de uma edição limitada com exemplares numerados.

Monografia — Publicação contendo texto e/ou ilustrações apresentados em suporte destinados à leitura visual, completa num único volume de conteúdo unitário ou a ser completada num número determinado de volumes. Publicação monográfica.

Monografia em vários volumes — Monografia com um número de volumes limitado.

Nova edição — Edição feita de novo. Reedição; uma nova edição supõe que o conteúdo da obra se apresenta modificado numa proporção de cinquenta por cento relativamente à primeira edição.

Nova impressão — Impressão feita de novo. Reimpressão.

Publicação periódica — Publicação colectiva com o título legalizado, que é editada a intervalos regulares, durante um determinado período de tempo, cujos fascículos se encadeiam cronologicamente uns nos outros, para que no fim de um ano constituam um ou vários volumes, que tomam a sua ordem numa série contínua. Caracterizam a publicação periódica os factos de possuir um título, ser editada regularmente sob a forma de fascículos com artigos regra geral de autores diferentes e a circunstância de teoricamente não ter um fim.

Publicação em série — Publicação impressa ou não, editada em fascículos ou volumes sucessivos, ordenados geralmente numérica ou cronologicamente, com duração não limitada à partida e independentemente da sua periodicidade; as publicações em série incluem os periódicos (revistas, jornais, boletins, anuários), as séries das actas e relatórios de instituições e congressos, bem como as colecções de monografias. É uma obra formada por parte ou volumes publicados sucessivamente com um título comum e com a intenção de ser continuada indefinidamente, mas não necessariamente a intervalos regulares. Publicação seriada.

Reimpressão — Acto ou efeito de reimprimir. Nova tiragem; reprodução de obra impressa, que não apresenta ou traz alterações de conteúdo ou de apresentação, além das correcções tipográficas feitas sobre o texto da impressão anterior; conjunto de exemplares; conjunto dos exemplares impressos de uma só vez.

Tiragem — Transferência para o suporte da forma registada na matriz; número de exemplares de uma edição que saem da tipografia de uma só vez ou que são impressos de uma só vez; uma mesma edição pode comportar várias tiragens ou impressões; […] hoje em dia tira-se geralmente a primeira edição em 1000 exemplares; as tiragens subsequentes são indicadas como 2.º, 3.º, 4.º, etc., milhar...

Tiragem especial — Parte de uma tiragem normal, executada em bom papel, com numeração especial, muitas vezes com a assinatura autógrafa do autor e na qual consta o número total de exemplares dessa tiragem.

Tiragem limitada — Edição de reduzido número de exemplares aos quais se atribuem números consecutivos, impressos e encadernados mais luxuosamente que a edição corrente.

A propósito de «Allgarve»

«Los ayres andan corruptos
los hombres cada vez más»

Sá de Miranda
Do Minho ao Olgarve

      Como é que podemos confiar que os estrangeiros, os turistas, não vão confundir uma marca com o nome de uma região, se já hoje alguns nos julgam uma província da Espanha? Quanto a mim, a nova campanha publicitária para promover o Algarve tocou onde não devia. Com nomes próprios — antropónimos ou topónimos — não se mexe. A agência de comunicação tinha mil e um aspectos que podia explorar, sem tocar numa característica tão identitária como é o nome. Além disso, que é uma marca senão um nome? E nem podemos afirmar, como o narrador de uma obra de Robert Walser, que «isto aconteceu nos Cárpatos, o que pode servir de desculpa». Nem quero falar, pois logo me dirão alguns que misturo tudo, do custo da campanha, pago com os nossos impostos.

Apostila ao Ciberdúvidas: «explicitação»

Ora veja melhor

      Vamos fazer uma vaquinha para oferecer um exemplar do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa ao consultor do Ciberdúvidas F. V. P. da Fonseca. Vejamos porquê. «Explicitude e explicitação não se encontram registadas», afirma ele, «embora se compreendam, visto parecerem bem formadas. Amplamento não há, mas amplitude tem como sinónimo parcial amplidão. Em latim há amplitudine (ablativo de amplitudo), mas attitudine é italiano, e completudine não me parece existir.» Em que dicionário é que «explicitação» não se encontra registada? Está tão bem formada que se encontra registada… No dicionário que acabei de referir, podemos ler: «explicitação s.f. acção de explicitar, de tornar explícito. ◘ Etim explicitar + -ção; ver cheg.» Mais cuidado não fazia mal a ninguém. Digo eu. F. V. P. da Fonseca vai ter de mudar de dicionário ou de método: nota-se que nem tudo está bem. Veja-se o «diminuitivo» (entretanto corrigido, para desgosto de quem pretendia ver ali um defensor de uma forma popular). Sim, eu sei: «ameacei» um leitor que poderia vir a defender esta forma — mas apenas no campo do que poderia ser, não do que é, não da ortografia oficial. De facto, na obra A Bem da Língua Portuguesa (Edição da «Revista de Portugal», Lisboa, 1943, p. 204), Vasco Botelho de Amaral escreveu: «Na pág. 117, opina o douto filólogo [Augusto Moreno, na obra Lições de Linguagem] que se não deve dizer constituitivo, diminuitivo. Discordo. Constitutivo e diminutivo provêm do latim. Mas constituitivo e diminuitivo formaram-se por analogia, não apenas com diminuir e constituir, senão também com retribuitivo, intuitivo, etc. E, havendo i em diminuição, constituição, etc., diminuir, constituir, etc., a derivação de diminuitivo, constituitivo, posto que não conforme ao latim, é lógica, pelo menos em português. Lógica e de uso corrente. De facto, quem diz ou escreve retribuitivo, intuitivo, contribuitivo, etc., não erra se disser ou escrever diminuitivo, constituitivo, etc.»
      Só mais uma coisa: completudine existe e recomenda-se. Na licenciatura em Direito nas faculdades brasileiras há uma disciplina de Reda(c)ção e Expressão Forense, que devia também cá ser obrigatória, na qual se estudam os diversos argumentos: a contrario, a simili, a fortiori, a coherentia, e por aí fora. A um deles dá-se o nome de argumento a completudine. Trata-se de um procedimento discursivo segundo o qual, não se encontrando uma proposição jurídica que atribua uma qualificação jurídica qualquer a cada sujeito por referência a cada comportamento materialmente possível, se deve concluir pela existência e a aplicabilidade de uma disposição jurídica que atribui aos comportamentos não regulados de cada sujeito uma classificação normativa especial: ou sempre indiferente, ou sempre obrigatórios, ou sempre proibidos, ou sempre permitidos.


Apostila ao Ciberdúvidas: frase sem verbo

Fora!

      A. Tavares Louro, consultor do Ciberdúvidas, perdeu uma boa oportunidade de não de estar calado mas de explicar o conceito de holófrase. A uma pergunta de um consulente sobre se é obrigatório que uma frase tenha verbo, limitou-se a usar um provérbio e a afirmar que alguns de nós somos prolixos, ao passo que outros somos lacónicos. Ora, se é verdade que alguns leitores têm a pecha de não referir o contexto em que foi usado o termo ou expressão que querem ver esclarecidos, nem sempre se pode censurar com «não é possível darmos uma resposta definitiva porque não nos é dado o contexto».
      Não, senhor, caro leitor, não é obrigatório que uma frase tenha verbo. As frases de um só termo — como o tão parlamentar «Apoiado!» —, ou holófrases, não têm necessariamente verbo. Curiosamente, a fase inicial de desenvolvimento da linguagem nas crianças, por volta dos dezoito meses de idade, é constituída por holófrases ou palavras-frase, como teorizou o linguista Gustave Guillaume, em que há uma ligação a uma acção real. Assim, quando uma criança diz «água», tanto pode querer dizer «dá-me água, mamã», como «estou a ver que há aí água», etc. Também alguns doentes mentais se exprimem exclusivamente através de enunciados holofrásticos.

Léxico: «ântifen»

Ao Sr. correitor…

      O leitor C. L., revisor (?), pergunta-me se o sinal habitualmente chamado cardinal (#) tem designação específica no âmbito da revisão de provas. De facto, este sinal, que pertence ao conjunto da notação desta actividade, e que isoladamente serve para indicar que se devem afastar duas letras ou palavras indevidamente pegadas, tem o nome de ântifen. Ainda um dia aqui direi qual o nome de cada um dos sinais usados em revisão, tanto mais que é uma pergunta repetida já por alguns leitores.

«Sem-abrigo» pluraliza?

Panem et circenses

      A iniciativa, integrada na vertente de solidariedade social deste organismo, de a Federação Portuguesa de Futebol oferecer aos sem-abrigo quinhentos bilhetes para o jogo Portugal-Bélgica é tocante. Pelo menos nesse dia, vão esquecer-se de todas as discriminações, toda a fome, todo o abandono, todo o ar de não-presta que os restantes cidadãos lhes tributam. Entretanto, na RTP não há forma de aprenderem que o vocábulo «sem-abrigo» é invariável, e não «sem-abrigo/sem-abrigos», como insistem em escrever. Sim, é verdade que se trata de uma excepção, pois os nomes compostos em que o primeiro elemento é verbo ou palavra invariável e o segundo é nome, adjectivo ou verbo, só o segundo vai para o plural, como guarda-chuva/guarda-chuvas, ruge-ruge/ruge-ruges, bem-aventurado/bem-aventurados, vice-presidente/vice-presidentes, entre muitas outras. Conhecer a gramática, porém, implica conhecer e bem as excepções e não somente as regras.
 

Glossário da seda


Anafaia f. Primeiros fios de bicho-da-seda, antes da formação do casulo.
Baba f. Humor glutinoso, que largam de si o caracol, o bicho-da-seda e outros animais.
Batagem f. Operação de bater os casulos, que se faz na fiação da seda, para os imergir na água e ao mesmo tempo, levantar e enredar os fios destramados.
Bicho-da-seda m. É a designação comum para a larva que produz seda de qualquer das diversas espécies de mariposas. Existem diversas espécies de bichos-da-seda usadas na produção comercial de seda, no entanto a Bombyx mori é a mais comum.
Borra f. A parte do casulo que se não fia, e de que se fazem cadarços ou telas mais grosseiras.
Carilho m. Aparelho antigo com que se fiava o casulo da seda e se dobava esta.
Carretilha f. Depressão circular que forma uma espécie de cinta ao meio dos casulos finos e ovais da seda.
Carril m. Espécie de roda para fiar a seda.
Casulo m. Invólucro que várias larvas fiam, para fazerem a sua metamorfose, nomeadamente a do bicho-da-seda.
Cruzada f. A operação de cruzar os fios no fabrico dos tecidos de seda, antes de passar ao vaivém.
Dupião m. Casulo resultante do trabalho de dois bichos-da-seda em comum.│Seda grossa que se tira dos casulos dobrados.
Exúvias f. pl. Tegumento deixado pelos animais, como o bicho-da-seda, por ocasião das mudas.
Fiadilho m. Borra de seda em fio torcido.│A parte não fiada, cadarço que se tira dos casulos da seda.
Garfete m. Instrumento cilíndrico de pau ou vidro, empregado no fabrico da seda.

Guingão m. Excremento do bicho-da-seda.│Parte mais grosseira e espessa da seda.
Moróforo m. Bot. Nome dado outrora por alguns botânicos à amoreira.
Organsim m. Fio de seda formado por dois fios de casulo torcidos, cada um no mesmo sentido, e depois retorcidos juntos, em sentido contrário.│O primeiro fio de seda que se coloca no tear para formar a urdidura.
Parcha f. Casulo em que o bicho-da-seda morreu de doença.
Pebrina f. Vet. Doença epidémica e contagiosa dos bichos-da-seda devida à presença de corpúsculos que vivem nas glândulas sedosas, nos dejectos, nas sementes e, de um modo geral, em qualquer órgão do bicho atacado.
Retrós m. Fio de seda ou conjunto de fios de seda torcidos.
Rodete m. Carrinho de madeira, em que se dobra o fio da meada de seda.
Rota da Seda loc. Ligava a China Oriental ao Mediterrâneo, e foi considerada a maior rota comercial do mundo. Aberta em 139 a. C., só posteriormente veio a ter esta designação.
Sedígero adj. Que produz seda.
Seríceo adj. Poét. Relativo à seda.│Feito de seda.│Que tem a aparência da seda.
Sericícola adj. 2 gén. Relativo à produção de seda.│s. 2. gén. Pessoa que trata da criação dos bichos-da-seda.
Sericicultor adj. e m. Que ou aquele que exerce a sericicultura, que promove a indústria da seda.
Sericicultura f. Indústria que tem por fim a criação do bicho-da-seda.
Sericífero adj. Que tem ou produz seda. │Que contém o fio segregado pelo bicho-da-seda.
Sericígeno adj. Que produz seda (falando-se das espécies de bichos-da-seda).
Sericímetro m. Instrumento para apreciar a elasticidade e a tenacidade de um fio de seda. O m. q. serímetro.
Serígeno adj. Que produz seda.│Diz-se do bicho-da-seda.
Serigueiro m. Aquele que faz obras de seda, passamanaria, também chamado sirgueiro e passamaneiro.
Sirgaria f. Estabelecimento de sirgueiro; o m. q. serigaria.│Lugar em que se faz criação do bicho-da-seda.
Sirgueiro m. Aquele que trabalha em obras de fio de seda ou lã; serigueiro.
Sirgo m. O m. q. bicho-da-seda.
Tussá m. Nome genérico das sedas produzidas por outros bichos-da-seda que não sejam o Bombyx mori.



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Tradução: «moufle»

Corte e costura

      Ao recriar o quotidiano de uma senhora da sociedade chinesa, o autor escreveu: «Sa journée, à l’intérieur de la maison, se passait en travaux de couture, de broderie, en confection de moufles ou de chaussures.» O tradutor achou, e bem, que nenhuma das quatro acepções do vocábulo «mufla» se adequavam ao que se pretendia aqui dizer. Enganou o leitor crédulo (e a obra vai na 3.ª impressão, que o editor insiste, por pura ignorância e não por má-fé, certamente, em chamar «edição»), traduzindo: «O seu dia, dentro de casa, era passado em trabalhos de costura, de bordados, na confecção de mitenes ou de sapatos.» Ora «mitene», como qualquer costureira sabe, «é uma espécie de luva que apenas cobre o corpo da mão, deixando os dedos livres; meia-luva». A moufle, por sua vez, é a luva só com o polegar separado. Nestas circunstâncias, o que deve fazer o tradutor, além de estudar mais? Aportuguesar o termo estrangeiro? Deixar o termo no original e acrescentar uma nota de rodapé? Dar um sinónimo tão pouco sinónimo como «mitene» o é de «moufle»? Ou traduzir simplesmente por «luvas»? Nestes casos, creio que é de preferir sempre o hiperónimo. Tudo são luvas, mas há manicas, guantes, mitenes…

«Moufle: Gant épais qui couvre toute la main, sans séparation pour les doigts sauf pour le pouce. Moufle fourrée; moufle de ski. Elle quittait pas ses mitaines à cause de ses mains délicates et des moufles épaisses en hiver, mais à résille, et ornées de roses pompon (CÉLINE, Mort à crédit, 1936, p.127). Les mains qui disparaissent dans de grandes moufles chaudes (TRIOLET, Prem. accroc, 1945, p.282).» (TLFI)

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