«Sem-abrigo» pluraliza?

Panem et circenses

      A iniciativa, integrada na vertente de solidariedade social deste organismo, de a Federação Portuguesa de Futebol oferecer aos sem-abrigo quinhentos bilhetes para o jogo Portugal-Bélgica é tocante. Pelo menos nesse dia, vão esquecer-se de todas as discriminações, toda a fome, todo o abandono, todo o ar de não-presta que os restantes cidadãos lhes tributam. Entretanto, na RTP não há forma de aprenderem que o vocábulo «sem-abrigo» é invariável, e não «sem-abrigo/sem-abrigos», como insistem em escrever. Sim, é verdade que se trata de uma excepção, pois os nomes compostos em que o primeiro elemento é verbo ou palavra invariável e o segundo é nome, adjectivo ou verbo, só o segundo vai para o plural, como guarda-chuva/guarda-chuvas, ruge-ruge/ruge-ruges, bem-aventurado/bem-aventurados, vice-presidente/vice-presidentes, entre muitas outras. Conhecer a gramática, porém, implica conhecer e bem as excepções e não somente as regras.
 

Glossário da seda


Anafaia f. Primeiros fios de bicho-da-seda, antes da formação do casulo.
Baba f. Humor glutinoso, que largam de si o caracol, o bicho-da-seda e outros animais.
Batagem f. Operação de bater os casulos, que se faz na fiação da seda, para os imergir na água e ao mesmo tempo, levantar e enredar os fios destramados.
Bicho-da-seda m. É a designação comum para a larva que produz seda de qualquer das diversas espécies de mariposas. Existem diversas espécies de bichos-da-seda usadas na produção comercial de seda, no entanto a Bombyx mori é a mais comum.
Borra f. A parte do casulo que se não fia, e de que se fazem cadarços ou telas mais grosseiras.
Carilho m. Aparelho antigo com que se fiava o casulo da seda e se dobava esta.
Carretilha f. Depressão circular que forma uma espécie de cinta ao meio dos casulos finos e ovais da seda.
Carril m. Espécie de roda para fiar a seda.
Casulo m. Invólucro que várias larvas fiam, para fazerem a sua metamorfose, nomeadamente a do bicho-da-seda.
Cruzada f. A operação de cruzar os fios no fabrico dos tecidos de seda, antes de passar ao vaivém.
Dupião m. Casulo resultante do trabalho de dois bichos-da-seda em comum.│Seda grossa que se tira dos casulos dobrados.
Exúvias f. pl. Tegumento deixado pelos animais, como o bicho-da-seda, por ocasião das mudas.
Fiadilho m. Borra de seda em fio torcido.│A parte não fiada, cadarço que se tira dos casulos da seda.
Garfete m. Instrumento cilíndrico de pau ou vidro, empregado no fabrico da seda.

Guingão m. Excremento do bicho-da-seda.│Parte mais grosseira e espessa da seda.
Moróforo m. Bot. Nome dado outrora por alguns botânicos à amoreira.
Organsim m. Fio de seda formado por dois fios de casulo torcidos, cada um no mesmo sentido, e depois retorcidos juntos, em sentido contrário.│O primeiro fio de seda que se coloca no tear para formar a urdidura.
Parcha f. Casulo em que o bicho-da-seda morreu de doença.
Pebrina f. Vet. Doença epidémica e contagiosa dos bichos-da-seda devida à presença de corpúsculos que vivem nas glândulas sedosas, nos dejectos, nas sementes e, de um modo geral, em qualquer órgão do bicho atacado.
Retrós m. Fio de seda ou conjunto de fios de seda torcidos.
Rodete m. Carrinho de madeira, em que se dobra o fio da meada de seda.
Rota da Seda loc. Ligava a China Oriental ao Mediterrâneo, e foi considerada a maior rota comercial do mundo. Aberta em 139 a. C., só posteriormente veio a ter esta designação.
Sedígero adj. Que produz seda.
Seríceo adj. Poét. Relativo à seda.│Feito de seda.│Que tem a aparência da seda.
Sericícola adj. 2 gén. Relativo à produção de seda.│s. 2. gén. Pessoa que trata da criação dos bichos-da-seda.
Sericicultor adj. e m. Que ou aquele que exerce a sericicultura, que promove a indústria da seda.
Sericicultura f. Indústria que tem por fim a criação do bicho-da-seda.
Sericífero adj. Que tem ou produz seda. │Que contém o fio segregado pelo bicho-da-seda.
Sericígeno adj. Que produz seda (falando-se das espécies de bichos-da-seda).
Sericímetro m. Instrumento para apreciar a elasticidade e a tenacidade de um fio de seda. O m. q. serímetro.
Serígeno adj. Que produz seda.│Diz-se do bicho-da-seda.
Serigueiro m. Aquele que faz obras de seda, passamanaria, também chamado sirgueiro e passamaneiro.
Sirgaria f. Estabelecimento de sirgueiro; o m. q. serigaria.│Lugar em que se faz criação do bicho-da-seda.
Sirgueiro m. Aquele que trabalha em obras de fio de seda ou lã; serigueiro.
Sirgo m. O m. q. bicho-da-seda.
Tussá m. Nome genérico das sedas produzidas por outros bichos-da-seda que não sejam o Bombyx mori.



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Tradução: «moufle»

Corte e costura

      Ao recriar o quotidiano de uma senhora da sociedade chinesa, o autor escreveu: «Sa journée, à l’intérieur de la maison, se passait en travaux de couture, de broderie, en confection de moufles ou de chaussures.» O tradutor achou, e bem, que nenhuma das quatro acepções do vocábulo «mufla» se adequavam ao que se pretendia aqui dizer. Enganou o leitor crédulo (e a obra vai na 3.ª impressão, que o editor insiste, por pura ignorância e não por má-fé, certamente, em chamar «edição»), traduzindo: «O seu dia, dentro de casa, era passado em trabalhos de costura, de bordados, na confecção de mitenes ou de sapatos.» Ora «mitene», como qualquer costureira sabe, «é uma espécie de luva que apenas cobre o corpo da mão, deixando os dedos livres; meia-luva». A moufle, por sua vez, é a luva só com o polegar separado. Nestas circunstâncias, o que deve fazer o tradutor, além de estudar mais? Aportuguesar o termo estrangeiro? Deixar o termo no original e acrescentar uma nota de rodapé? Dar um sinónimo tão pouco sinónimo como «mitene» o é de «moufle»? Ou traduzir simplesmente por «luvas»? Nestes casos, creio que é de preferir sempre o hiperónimo. Tudo são luvas, mas há manicas, guantes, mitenes…

«Moufle: Gant épais qui couvre toute la main, sans séparation pour les doigts sauf pour le pouce. Moufle fourrée; moufle de ski. Elle quittait pas ses mitaines à cause de ses mains délicates et des moufles épaisses en hiver, mais à résille, et ornées de roses pompon (CÉLINE, Mort à crédit, 1936, p.127). Les mains qui disparaissent dans de grandes moufles chaudes (TRIOLET, Prem. accroc, 1945, p.282).» (TLFI)

Tradução

Tiro e queda

      No âmbito da ciência, todos conhecemos a lei da causa e efeito. Para os budistas, também há, para além desta, outra lei da causa e efeito: o renascimento em formas superiores ou inferiores é determinado pelas boas ou más acções, ou carma, que se foi produzindo durante as vidas anteriores. Já os tradutores se vêem em dificuldades para verter uma frase tão simples como a que se segue: «Pour un peu, se rappelant la loi bouddhique de cause à effet, il est prêt à croire que Lan-ying a contribué à racheter Shun-zi pour cette raison aussi, celle d’assurer une période de transition, afin de lui épargner un trop brusque sentiment de délaissement.» As dúvidas do tradutor transbordaram para as margens acolhedoras do original. Por fim, traduziu: «Pouco lhe falta para, lembrando-se da lei budista de causa a efeito, acreditar que Lan-ying contribuiu para a compra de Shun-zi a pensar também naquela possibilidade de lhe proporcionar a ele, Dao-sheng, um período de transição que o poupasse a um sentimento demasiado brusco de abandono.» Ah, sim, a frase precisava de outras roupagens, e o adjectivo «búdico», tão pouco usado, ter-me-ia agradado aqui muito.

Futebolês

Campo do esférico

Apesar de julgarmos sempre viver no pior mundo possível no que diz respeito à língua, a verdade é que, no que se refere ao futebolês, por vezes tão ridículo, já se sofreram outras modas, como a de chamar «esferódromo» ao campo de futebol. Leiamos Vasco Botelho de Amaral: «Então peço licença para contar o seguinte:
O campo de futebol é um campo, está claro. Mas, às vezes, chama-se-lhe para aí com palavra inglesa — “ground”.
Outras vezes ainda, escreve-se, e não me parece mal: rectângulo.
Pois, não contentes com isto, os desportistas descobriram outra palavra toda grega: esferódromo. Como já havia aeródromo, hipódromo, velódromo, agora, para o jogo da bola, há o esferódromo. Acho a palavra engraçada, e não na tenho por mal formada, analogicamente, posto que me pareça um tanto supérflua.
Ora, se já tínhamos campo e rectângulo, ninguém, no entanto, protestou contra a inovação do esferódromo» (Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa, edição da Revista de Portugal, Lisboa, 1946, p. 119).

Glossário dos castelos

Glossário dos castelos e acampamentos



Adarve m. Caminho no alto do muro das fortalezas, atrás das ameias. O m. q. caminho de ronda.│Muro ou muralha da fortaleza.
Ager m. Trincheira ou baluarte de terra nos acampamentos romanos.
Alcáçova f. Castelo ou fortaleza.
Alambor m. Plano inclinado ou talude na zona baixa dos muros, cubos ou torres de uma fortificação, que serve para aumentar a superfície de apoio da obra e manter à distância as máquinas de assalto, provocando o ricochete dos projécteis defensivos e reduzindo os ângulos mortos.
Almedina f. A parte de uma cidade construída em sítio alto e defendido.
Almenara f. Facho ou farol que outrora se acendia nas torres para dar sinal ao longe: a torre em que se acendia o facho.
Alquiez m. Risco gravado na parede, à entrada dos castelos ou residências senhoriais, para servir de medida linear destinada a servir de padrão nesse domínio ou senhorio.
Ameia f. Cada uma das aberturas, feitas de distância em distância, no alto de muro, torre ou obra fortificada.
Antefosso m. Cava aberta em redor da esplanada.
Atalaia f. Torre donde se observa e vigia ao longe o mar ou a terra.
Balhesteira f. Pequeno vão, das torres medievais, para se lançarem por ele bestas, quaisquer projécteis.
Baluarte m. Corpo de terra, sustentado por muralhas.
Barbacã f. Muro que se construía diante das muralhas e mais baixo do que elas e que servia para defender o fosso.
Bastião m. Obra de terra, revestida de muro e disposta em ponta nos ângulos salientes de uma praça de guerra.
Bombardeira f. Postigo por onde se metia a boca da bombarda.
Bonete m. Obra avançada de fortificação de duas faces, formando ângulo saliente, adiante do antefosso.
Caminho de ronda loc. O m. q. adarve.
Canhoeira f. O m. q. canhoneira.
Canhoneira f. Aberta do muro, do parapeito ou dos flancos do navio, para se assentarem os canhões e pela qual eles atiram.
Cárcova f. Ant. Porta falsa das praças fortificadas ou entrada encoberta.
Castelejo m. Na fortificação antiga era a parte mais alta do castelo, para se descortinar o terreno.
Cidadela f. Fortaleza que domina e defende uma cidade ou povoação.
Contraforte m. Reforço de muralha, reparo e terrapleno.
Contravalação f. Fosso com parapeito, para impedir as surtidas dos sitiados.
Cubelo m. Torreão das fortificações antigas em forma de cubo e que foi substituído pelo baluarte.
Falsa-braga f. Ant. Antemuro baixo construído como defesa da muralha principal e que correspondia à barbacã.
Fosso m. Escavação aberta à frente de fortificações e entrincheiramentos, em geral envolvendo-os para fornecer terras para o parapeito e constituir obstáculo à penetração do assaltante inimigo.
Hurdício m. Ant. Grade de madeira com que se protegiam as muralhas para não serem muito danificadas pelos projécteis.
Mata-cães m. pl. Espécie de galeria saliente nos velhos castelos e sobre as antigas portas das cidades, com aberturas, pelas quais se arremessavam pedras ou outros projécteis para evitar a aproximação do inimigo.
Meia-gola f. Linha tirada do ângulo da cortina ao centro do baluarte.
Merlão m. Parte saliente de um parapeito que separa duas ameias.
Poterna f. Porta falsa ou galeria subterrânea, para sair secretamente de uma praça fortificada.
Redente m. Obra de fortificação, aberta na gola, formada por duas faces que se cortam, formando um ângulo saliente.
Revelim m. Construção externa e saliente, de forma angular, para defesa de ponte, cortina, etc.
Seteira f. Pequena abertura nas muralhas, pela qual se atiravam setas contra os inimigos ou sitiantes.
Tenalha f. Pequena obra de fortificação, com duas faces e um ângulo reentrante para o lado do campo.│Tenalha dobre, a tenalha que tem quatro faces, formando três ângulos salientes e dois reentrantes, e flanqueando-se cada duas reciprocamente. O m. q. tenalha flanqueada.
Tenalhão m. Obra de fortificação que assenta algumas vezes em cada uma das faces de uma meia-lua.
Torreão m. Torre de maiores dimensões, integrada ou destacada, mas ligada à cerca ou anexa a um castelo, erguida a um e outro lado de uma porta ou no interior do recinto fortificado.
Troneira f. Intervalo dos merlões por onde se enfia a boca do canhão ou bombarda; bombardeira. O m. q. boca-de-fogo.



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«Bracelete»: feminino ou masculino?

Já aconteceu

      Já chegámos ao ponto de se rejeitar, por erróneo, o género masculino do vocábulo «bracelete». E são mesmo os editores, melífluos, a dizerem-me: «Veja lá, “bracelete” é feminino.» «Bracelete» é, e sempre foi, do género masculino, em português e em francês, língua de que procede (le bracelet). A explicação possível, já adiantada por certos estudiosos, é a influência do sinónimo «pulseira», do género feminino, e mesmo de outras palavras terminadas em -ete, a começar por nomes próprios, como Odete, Gorete, Ivete, Elisabete, Rosete, etc., e por nomes comuns, também do género feminino, tais como bandelete, cassete, disquete, retrete, etc. Curiosamente, todos (?) os vocábulos femininos terminados em -ete têm a penúltima sílaba aberta, ao contrário dos vocábulos com a mesma terminação mas do género masculino, que são a maioria. Com excepção de «bracelete».




Aço: «corten», «cor-ten» ou «cortene»?

Imagem: http://www.georgetown.edu/
Cortem!

      Agora os arquitectos e os escultores andam entusiasmadíssimos com o aço — «cortene», «corten», «cor-ten»? Um leitor ouviu a palavra e quer saber do que se trata e como se escreve. Bem, trata-se na verdade de uma marca, COR-TEN®. Com o uso tão comum deste material actualmente, ocorreu, como acontece com tantos outros nomes próprios, um fenómeno de derivação imprópria, pelo que alguns passaram a escrever «corten», outros «cortene» e outros ainda «cor-ten». Esta última forma, hifenizada, não me parece fazer qualquer sentido, pelo que é de rejeitar. À primeira, «corten», falta-lhe um acento agudo na primeira sílaba, pois é (seria) palavra paroxítona terminada em n, à semelhança de «cânon», «gérmen», «íman», «líquen», «regímen», «sémen», etc. Num boletim informativo da Fundação Calouste Gulbenkian, lê-se a palavra em itálico, corten, o que é desnecessário.
      O aço cortene contém um alto teor de cobre, cromo e níquel, que lhe proporciona a característica cor avermelhada, como se estivesse enferrujado, mas na realidade funcionando como camada protectora contra a corrosão.

Actualização em 17.10.2010

      «O arquitecto, que partilha com José Martinez o Atelier Central, quis ainda assumir os efeitos da exposição dos materiais ao longo do tempo e às intempéries: o aço córten das portadas do exterior muda de cor e textura ao longo do tempo, no betão aparente já existem marcas do efeito da erosão, e na cobertura de zinco fortemente inclinada será sempre visível a água das chuvas a escorrer» («Falemos de casas», Cláudia Melo, Diário de Notícias, 17.10.2010, p. 66).


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