Barbarismo: «biópico»

Falta de palavras


      Como não são apenas os jornais de referência que influenciam a língua que se vai falando, cito hoje uma frase do 24 Horas (3.2.2007): «O actor [Johnny Depp] está em conversações para vir a interpretar o papel de Freddie Mercury num filme biópico sobre os Queen, que deverá ser produzido por Robert de Niro.» Quantos leitores daquele jornal saberão o que significa o barbarismo «biópico»? Em inglês, é uma amálgama, a partir de bio(graphical) + pic(ture). Em português não é nada nem é necessário. Bem dizia Vasco Botelho de Amaral: «Infelizmente, não é só a introdução desordenada de vocábulos estranhos que se verifica nas páginas dos jornais e nas emissões radiofónicas. A estrutura da Língua, o jeito característico da sintaxe portuguesa vai-se todos os dias alterando em subordinação às construções estrangeiras» (Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa, edição da Revista de Portugal, Lisboa, 1946, p. 125).

À deriva

Ou seja?...

À pergunta sobre como vê a cidade de Lisboa, António Mega Ferreira declarou no programa Palavra de Honra, da TSF: «À deriva, à deriva. Lisboa está completamente à deriva.» O entrevistador perguntou por nós: «O que é que isso quer dizer concretamente?» A propósito desta mesma locução — à deriva —, já Vasco Botelho do Amaral escreveu: «O caso de à deriva é simbólico. Esta locução bárbara do nosso dialecto jornalístico corresponde em português escorreito a — ao sabor das ondas, à mercê das ondas. Outras vezes aparece à deriva com os sentidos seguintes: ao som da água; ao sabor da corrente, ao grado da corrente, ao impulso da maré; ao deus-dará, à toa, ao reboque, ao acaso, sem destino, à ventura, etc.» (Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa, edição da Revista de Portugal, Lisboa, 1946, p. 133).

«Bizarro» é galicismo?

Depende

      Por vezes, lemos que o vocábulo «bizarro» é um galicismo na nossa língua, devendo ser evitado. Ora, a verdade é que em certas acepções constitui galicismo, mas não noutras. José van den Besselaar, na obra que já aqui citei, lembra que este adjectivo significava, originariamente, «iracundo, furioso»; depois, «fogoso, brioso» e, mais tarde ainda, «luzido, elegante, loução». É nesta acepção, lembra ainda este autor, que Vieira emprega a palavra na História do Futuro: «exercitos tão notaveis por seu numero e grandeza, como bizarros por seu luzimento». O sentido de «excêntrico, esquisito, estranho» é uma inovação do francês, que se poderá datar do início do século XVI, a qual acabou por entrar em todos os idiomas da Europa, inclusive em italiano, língua do étimo. Nesta língua, bizzarro, que inicialmente era apenas «iracondo, collerico», por influência do francês passou a ser também: «che colpisce per stranezza e originalità, fuori dal comune, stravagante: temperamento bizzarro, gusti bizzarri, mio nonno è un vecchietto bizzarro

Conjunção «apenas»

Ciberdúvidas corrigido


      Na passagem do antigo para o novo Ciberdúvidas, as perguntas arquivadas poderão ser as mesmas, mas as respostas são outras. Por exemplo, a uma pergunta sobre o uso da conjunção «apenas» em português (consulente Andreia Dutra, resposta em 7.4.2006), a resposta do antigo Ciberdúvidas, através do consultor R.G., foi: «A frase "Apenas cheguei a casa, telefonei-lhe" certamente poderá ter algum contexto em que seja possível [e, portanto, correcta]. Não me parece é que possa ser equivalente a "Assim que cheguei a casa, telefonei-lhe", "Logo que cheguei a casa, telefonei-lhe" ou "Mal cheguei a casa, telefonei-lhe", por exemplo.» No Ciberdúvidas renovado, a mesmíssima pergunta já recebeu (e só espero que a consulente ainda seja viva) estoutra resposta: «Pode, sim. Para além de advérbio com o significado de "somente; unicamente; exclusivamente" e "dificilmente; só; mal", apenas também pode ser uma conjunção precisamente com o significado que lhe atribuem os espanhóis na frase que nos é apresentada: "logo que; assim que; mal".»
      Gosto mais do novo Ciberdúvidas; pelo menos neste caso, a resposta é mais correcta. Aliás, o consultor poderia ter abonado a sua resposta com alguma frase de um autor português. José van den Besselaar, estudioso da obra do P. António Vieira e organizador de uma edição crítica e comentada da História do Futuro, escreve no opúsculo «Achegas para o estudo lexicológico da obra vieiriana»: «Apenas: Este advérbio emprega-se ainda hoje em dois sentidos diferentes: a) = “somente”; b) = “custosamente, dificilmente”. A segunda acepção é a original, sendo ainda de uso corrente em frases do tipo: “Apenas cheguei a casa, recebi um telegrama”, onde “apenas” tem o valor conjuncional de “logo que”. Registamos aqui quatro passos em que “apenas” tem o sentido de “custosamente, dificilmente” (cf. à peine, em Francês):
HF IX 307 [isto é, edição crítica de a História do Futuro, Capítulo IX, p. 307] “apenas se acha cousa que não seja contradição da verdade”; XII 1064 “apenas dão passo que não seja com o remo na mão”; X 58 “Cousa maravilhosa he, e que apenas se póde entender, como…”; XII 1035-1036 “[gente] que, por ser tão pouco conhecida e apenas nomeada nos escritores,…”»
      Talvez se possa tão-somente condenar, como a propósito do uso do substantivo «medidas» faz Vasco Botelho de Amaral na obra Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa (edição da Revista de Portugal, Lisboa, 1946), o castelhanismo que a abusada repetição, nas traduções, constitui. A quem discordar só resta debater a questão com o imperador da língua portuguesa — em espírito ou em obra.


Léxico: foróptero

Imagem: http://en.wikipedia.org/

Assim vejo bem!

Não estará registado em muitos dicionários, mas, mais simples ou mais complexo, manual ou electrónico, é usado todos os dias. Chama-se foróptero ou refractor (em inglês, phoropter ou phoroptor*) e é um instrumento de trabalho de oftalmologistas e optometristas. O foróptero contém lentes de graduações diferentes, que podem ser movimentadas para o campo de visão. O médico vai-nos fazendo perguntas sobre a nitidez com que vemos as letras na escala de Snellen (e para isso convém saber de cor a tabela antes de entrar no consultório. Estou a brincar) conforme as lentes vão sendo experimentadas.

* Na realidade, trata-se de mais um caso de derivação imprópria, como outros que já aqui referi: Phoroptor é a marca registada de um refractor da Reichert, Inc., antiga Leica.

Informação

Continuando o meu papel de divulgador, gostava de deixar aqui uma hiperligação para o Corpus Lexicográfico do Português, trabalho que muito prestigia a Universidade de Aveiro. Ver aqui.

Expressão «pro bono»

Prò boneco

«A Plataforma Artigo 65, movimento cívico que apadrinha o direito à habitação, está a recrutar advogados para trabalhar pro bono na área da defesa à habitação» («Advogados para uma causa», Sol, 3.2.2007, p. 38). O universo de leitores do Sol (230 mil leitores? Hum…) há-de ser muito heterogéneo, naturalmente, mas desconfio que somente uma escassa minoria saberá descodificar cabalmente a mensagem. Se mesmo em ambientes universitários (se a comparação for boa…) uma triste maioria ignora, por exemplo, o significado da abreviatura latina v. g., tão comum, não espero que os leitores do Sol sejam diferentes. A estrita obrigação do jornalista — na verdade, é esta parte que mais interessa — era explicar o que significa a expressão pro bono. Fazendo-o, cada seria mais improvável poder suspeitar-se com razão que os leitores não sabem. Pro bono (por pro bono publico) significa «para o bem» (público). Usa-se habitualmente, como no excerto da notícia citada, em relação aos advogados que trabalham voluntariamente a favor de uma causa, isto é, não cobram honorários.

Se apassivante

Se

Aflita, uma professora telefonou-me: «Como se deverá escrever: “Convoca-se as professoras” ou “Convocam-se as professoras”? Numa acta escrevi da primeira forma, mas agora estou com dúvidas. Lembrei-me do on francês.» São poucos os estudiosos em Portugal a afirmarem que é indiferente. A língua portuguesa, já aqui o escrevi uma vez, tende sempre para a concordância. Ora, nesta frase o sujeito é professoras — plural. Logo, para o plural deverá ir o predicado. Optar pela primeira forma significa considerar que o se destas expressões é pronome indefinido sujeito, e não é claramente assim. O se é uma partícula apassivante, ou seja, torna passivo o verbo, como se se dissesse «as professoras são convocadas».

Arquivo do blogue