Léxico: guimató e indona

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Enciclopédia visual


E se um desconhecido lhe perguntasse que nome têm as arruelas (ou botoques, daí o nome dado pelos Portugueses) de madeira que os Botocudos introduziam em buracos abertos nas orelhas, o que faria? Podia mandá-lo dar uma volta ao bilhar grande ou dedicar-se a ler um dicionário de língua portuguesa. Não podia é, como já sabemos, ser um dicionário qualquer. São os guimatós.
Sim, bem lembrado, os elementos de algumas tribos africanas também faziam um orifício no lábio superior para prender e usar uma rodela — chamada indona.

Etimologia: «recruta»

Recruta Zero




      O vocábulo «recruta», formado por derivação regressiva do verbo recrutar, tem três significados principais: refere-se ao acto de recrutar, ao soldado novo que ainda não está pronto na instrução militar e à própria instrução militar ministrada aos recrutas. Terá entrado na língua portuguesa no dealbar do século XVIII.
      O verbo recrutar provém do francês recruter, com o mesmo significado, registado pela primeira vez nesta língua num texto de Racine (Lettre à son fils, Œuvres), datado de 1691: «Vous y pourriez apprendre (dans les gazettes de Hollande) certains termes qui ne valent rien, comme celui de recruter, dont vous vous servez, au lieu de quoi il faut dire faire des recrues.» O verbo francês formou-se a partir de récroître, formado pelo verbo croître (crescer) precedido do prefixo re-. Por sua vez, croître derivou do latim crescere (crescer), com base na ideia de que o exército «crescia» com os novos recrutas. (A alteração do e latino em oi é bastante comum em francês e repete-se em palavras como, por exemplo, croire, formada a partir do latim credere.) Já em relação ao vocábulo «exército», dizia Varrão: «Exercitus dicitur, quia exercendo fit melior», ou seja, diz-se exército porque exercitando-se se aperfeiçoa.


Uso das preposições

Exageros consentidos

A pergunta

Uma leitora pergunta-me se, na tradução da frase em inglês que se segue, deve «usar a preposição simples ou a locução prepositiva»: «A soft breeze blew a wisp of sand over the top of the dune.» Será, pergunta, «uma brisa suave soprou um punhado de areia sobre o topo da duna» ou «uma brisa suave soprou um punhado de areia por sobre o topo da duna»?

A resposta

Antes de tudo, deixe-me dizer-lhe que não se trata de uma locução prepositiva, pois que o que está em causa é uma acumulação de preposições. O Prof. Evanildo Bechara, que o designa como «acúmulo de preposições», refere explicitamente o uso simultâneo destas duas preposições, afirmando que «não raro duas preposições se juntam para dar maior efeito expressivo às idéias, guardando cada uma seu sentido primitivo: Andou por sobre o mar» (Moderna Gramática Portuguesa, Rio de Janeiro, Editora Lucerna, 37.ª edição, 2002, pp. 301-302). Não raramente, Camilo fez uso desta acumulação expressiva das preposições.

Alcorão e alcorânico

Haja coerência

Estranhamente, nem sequer aqueles que já se convenceram de que se deve dizer «Alcorão» e não «Corão» repararam que, por coerência, também devem dizer «alcorânico» e não «corânico». Vejamos uma frase de uma obra francesa: «Je passe donc toutes les matinées à la Madrassa, l´école coranique, à apprendre par coeur les prières et les sourates.» «Passei então», verteu o tradutor português, «a ir todas as manhãs à madrassa, à escola corânica, para aprender de cor as orações e as suras.» No inglês: «Quranic interpretation said that the body was like a garment for the soul; it was good and pure, endowed with gorgeous flaws.» O tradutor deu-no-lo assim: «A interpretação corânica dizia que o corpo era como uma peça de roupa para a alma: era bom e puro, dotado de esplêndidas falhas.»

Substantivos: abstractos/concretos

Concreto como a música

A pergunta

«[…] Eu considero (porque li algures) que os nomes concretos são todos aqueles que designam realidades que podem ser percebidas pelos sentidos (o que inclui, por exemplo, o vento e a música); outras colegas consideram concretos só os nomes que designam realidades palpáveis ou com forma visível, o que exclui o vento e a música...»

A resposta

Partindo do conceito de substantivo abstracto como o que designa uma pessoa, um objecto, uma coisa, um animal, algo detectável pelos sentidos, chegamos à compreensão de que «música» e «vento» são substantivos concretos comuns. De facto, a música ou o vento não são algo de conceptual ou subjectivo: existem na realidade, independentemente da forma como cada um os entende ou percepciona. A TLEBS (subdomínio classe de palavras, B3.1.2.2.) conclui que não existe uma oposição clara entre concreto/abstracto, antes valores diferentes numa escala concreto-abstracto, o que, a ser verdade, não ajuda muito numa classificação.

Fiama esteve aqui

EM GALAFURA

Os povoadores da beira Douro
conhecem o pó e as pedras.
E sabem que o Universo
concebe cerejais e parras.
Vivem como vermes magníficos,
iluminados por dias soalheiros,
obscurecidos pelas invernias.
Fiama Hasse Pais Brandão
As Fábulas
Famalicão, Quasi Edições, 2002

Tradução

Imagem: http://www.fox.com/bones/

Qualquer coisa -logia

É a segunda vez em muito pouco tempo — e eu quase nunca vejo televisão, já sabem — que vejo este erro. Uma personagem da série Ossos (episódio n.º 7, «A Man on Death Row», transmitido anteontem pela 2:) perguntava a outra em que é que trabalhava, ao que o inquirido respondeu «entomology». O tradutor, José Manuel Fiuza, achou que devia traduzir por «etimologia», apesar de no contexto se falar de insectos, e, naturalmente, a própria temática da série ajudar a perceber que se tratava de entomologia, e concretamente de entomologia forense, que é o estudo de insectos e outros artrópodes num contexto legal. Afinal, a própria RTP apresenta a série como «um emocionante drama policial inspirado na vida real dos antropólogos forenses e da escritora de best-sellers Kathy Reichs».

Segredos de alcova

Imagem: http://dinaladina.blogspot.com/

Trocar os vv pelos ff

Enquanto espero pela minha vez numa clínica, folheio a edição de Fevereiro (estas revistas são todas temporãs…) da revista Elle. Leio num título, na página 27: «Segredos de alcofa». Penso: olha que inesperado trocadilho, que criatividade. Passo a ler o texto correspondente: «Não perca a colecção Sexy Little Things, de Victoria’s Secret. Destacamos as jóias autocolantes Adore Me, Adore Me Body Bling, para colocar onde quiser e revelar [cá está o segredo] a quem quiser. www.victoriassecrets.com.» Onde está, afinal, a alcofa? Qual trocadilho, qual criatividade! Burrice, isso sim. Só agora me apercebi como a expressão anda assim deturpada pelo mundo. Diz-se «segredos de alcova»: intimidades que não se revelam. Pois que uma alcova é um pequeno quarto interior de dormir. Uma alcofa é um cesto flexível, de vime, esparto ou folhas de palma, geralmente com asa e fundo redondo.
A propósito do uso, neste texto, do verbo colocar, é caso para dizer que qualquer dia nem já as galinhas põem — colocam ovos!

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