Nomeadamente

Desmancha-prazeres

O falante médio (o equivalente do jurídico bonus pater familias, digamos…) português está a perder rapidamente a noção exacta do significado do advérbio «nomeadamente». Embora não devesse ser assim, a comunicação social reflecte esse facto. Vejamos um exemplo tirado da tão decantada revista Epicur: «Esta Adega Cooperativa encontra-se implantada na bela e fértil região da Cova da Beira, nomeadamente, na cidade do Fundão» («Aldeias do xisto», Eduardo Miragaia, edição n.º 61, p. 58). Porquê «nomeadamente»? Este vocábulo significa «sobretudo, em especial, referindo o nome, mormente». Nenhum dos sinónimos se adequa ao que o jornalista pretendia exprimir.

«Esta Adega Cooperativa encontra-se implantada na bela e fértil região da Cova da Beira, concretamente, na cidade do Fundão.»

«Esta Adega Cooperativa encontra-se implantada na bela e fértil região da Cova da Beira, mais concretamente, na cidade do Fundão.»

«Esta Adega Cooperativa encontra-se implantada na bela e fértil região da Cova da Beira, mais precisamente, na cidade do Fundão.»

Pronúncia de «paisagem»

Nem pai nem mãe



      José Hermano Saraiva deve ser já dos poucos portugueses a saber que na palavra «paisagem» não há nenhum ditongo, pelo que a sua pronúncia é feita em quatro sílabas e com o primeiro a fechado: /pâ-i-sagem/. (A minha professora da escola primária também sabia, mas de então para cá tem sido sempre a piorar.)




Locução adjectiva

O adjectivo disfarçado

Uma leitora pergunta-me como classificar a locução «de hoje» na frase que se segue: «Os jovens de hoje são mais informados.» Trata-se de uma locução adjectiva, que se forma com o auxílio de uma preposição («de») e de um substantivo. E porquê adjectiva, antecipo-me à hipotética pergunta da leitora, se contém um substantivo? Pois simplesmente porque «de hoje» equivale, como é fácil de ver, ao mero adjectivo «actual», ainda que não nos soe tão bem: «Os jovens actuais estão mais informados.» Como podemos ler na Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara, que já aqui citei diversas vezes e que recomendo por ser, a meu ver, a melhor da língua portuguesa, «nem sempre encontramos um adjetivo de significado perfeitamente idêntico ao de locução adjetiva: colega de turma» (p. 144). O mesmo autor acrescenta ainda, e refiro-o por estar relacionado com uma questão já aqui abordada: «A língua poética é mais receptiva ao emprego do adjetivo que exprime matéria em lugar da locução adjetiva:
áureas estátuas — estátuas de ouro
nuvens plúmbeas — nuvens de chumbo
colunas marmóreas — colunas de mármore
».

Informação


Informação

Já existe há algum tempo, mas só agora tenho oportunidade de o divulgar: o jornal Público tem um consultório linguístico, que pode ver aqui.

Chapelinho


Não apostes

      Uma amiga, professora (eu não disse já que conheço muitos professores?), apostou comigo, imprudente, em como não existe a palavra «chapelinho», mas «chapeuzinho».
      Há quem se recorde que durante o Estado Novo a história do Capuchinho Vermelho andava publicada com o título A Menina do Chapelinho Encarnado. Não apenas «vermelho» era palavra expungida, aspada, obliterada do vocabulário do regime e, à força, dos cidadãos, como o muito mais interessante «capuchinho» não tinha ainda sido inventado. Isto é o que se lê por aí, porque de facto o regime apenas manteve o que já existia. Muito antes, na verdade, em 1877, foi publicada uma compilação — Contos para a Infância —, da autoria de Guerra Junqueiro, em que se pode comprovar que a personagem já se chamava Chapelinho Encarnado.
      Ao lado de chapeuzinho, temos chapelinho, como também temos chapeirão (o infante D. Henrique, ensinaram-nos, usava chapeirão), chapelaço, chapelão, chapeleirão, chapeleta, chapelete e chapelório. A forma «chapelinho» explicar-se-á, creio, pelo facto de existir o vocábulo «chapel», a partir do qual se formou, de forma absolutamente regular, o diminutivo «chapelinho».

Pontuação

Deixem-me pontuar o mundo!


Este texto já faz parte do anedotário nacional. Contudo, quando o pretendemos contar, como já me aconteceu, nunca sabemos onde encontrá-lo, razão que me levou a publicá-lo agora.



Um homem muito rico e avarento estava em agonia. Sentindo a morte chegar, pediu papel, caneta e escreveu assim:
«Deixo os meus bens a minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do padeiro nada dou aos pobres.»
Como morreu antes de fazer a pontuação, a quem deixava ele a fortuna? Eram quatro os pretendentes.
O sobrinho fez a seguinte pontuação:
«Deixo os meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho. Jamais será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.»
A irmã chegou em seguida. Pontuou assim o escrito:
«Deixo os meus bens à minha irmã. Não a meu sobrinho. Jamais será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.»
O padeiro pediu cópia do original. Puxou a brasa para a sardinha dele:
«Deixo os meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.»
Por fim, chegaram os sem-abrigo da região. Um deles, bastante expedito, fez esta interpretação:
«Deixo os meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do padeiro? Nada! Dou aos pobres.»

Taoísmo ou Daoísmo?

A pergunta



      O pinyin, cuja tradução (à letra) para Português é «soletração de sons», é o método usado oficialmente na República Popular da China para a transcrição do idioma Chinês (Mandarim, ou falar de Pequim) através do alfabeto latino.
      Aprovado em 1958 e adoptado em 1979, o pinyin depressa se impôs a todos os outros sistemas de transliteração, cerca de 40, deficientes e enganosos na medida em que ficam dependentes da fonética da língua do transcritor ([Alexandre] Li Ching — A Estrutura da Língua Chinesa, Lisboa, Fundação Oriente, 1994, p. 19.).
      Sem se conhecer o pinyin, a procura de uma palavra no dicionário era uma tarefa demorada, exigente e nem sempre coroada de êxito: primeiro tinha de se identificar o radical do carácter (de entre um universo de 214); seguidamente, contava-se o número de traços sobrante; por fim consultava-se uma lista de todos os caracteres com aquele radical e aquele número de traços, o que nos deveria remeter para uma determinada página do dicionário. Se não estivesse lá o carácter procurado, ou o radical tinha sido mal escolhido, ou o número de traços tinha sido mal contado. Havia então de encetar nova busca. Parece que estou a ouvir o saudoso Professor Li Ching a dizer com orgulho que todos os seus alunos, no final do primeiro ano, já sabiam consultar um dicionário.
      O pinyin facilitou imenso a vida daqueles que se dedicam ao estudo do Chinês sobretudo pela normalização que se faz sentir, por exemplo, na escrita em computador, tarefa anteriormente muito complicada. Agora, pelo contrário, basta escrever (num processador de texto adequado, é claro) aquilo que se pretende, em pinyin, e os caracteres chineses vão aparecendo no monitor.
O pinyin também tem os seus detractores, principalmente pela conotação que lhe é feita com a Revolução Cultural e com o regime chinês.
       Antes da adopção deste método de transliteração havia palavras de origem chinesa que já pertenciam ao nosso léxico, como por exemplo Xangai, Pequim e Mao Tse Tung. As alterações, entretanto, fizeram-se sentir: Xangai passou a escrever-se Shanghai, Pequim, Beijing e Mao Tse Tung, Mao Zedong. As mudanças criam sempre resistências, mesmo inconscientes: no primeiro parágrafo deste texto, por exemplo, «fugiu-me a tecla» para Pequim e não para Beijing. Enfim, estamos a falar de modificações cujo sentido se entende e que, com maior ou menor facilidade, vão entrando nos nossos hábitos, embora desencadeiem, por vezes, episódios quase anedóticos como o daquele aluno que perguntava à professora de Chinês se as cidades de Pequim e Beijing estavam ou não muito próximas uma da outra. Segundo a sua percepção, estavam mesmo.
       Neste panorama há, no entanto, uma alteração que me parece profundamente forçada: Caminho, em Chinês, diz-se tao, mas porque o som “t”, quando não é expirado, se representa por “d”, em pinyin, escreve-se dao.
       Há um pensamento filosófico que surgiu no tempo do mítico imperador Amarelo e alimentado pelo Tao Te Ching (em pinyin: Dao De Jing), Livro do Caminho e da Virtude, da autoria do também mítico filósofo Lao Tsé (em pinyin: Laozi).
       A esse pensamento chamou-se Taoísmo, termo perfeitamente consagrado na nossa língua. Entendendo o fenómeno, vou ter enorme dificuldade em passar a escrever Daoísmo, como já vai aparecendo abundantemente.
      Devo continuar a escrever Taoísmo, ou devo adaptar-me, embora contrariado, a Daoísmo?

José Manuel Pedroso da Silva


A resposta



      A propósito de Beijing e de outros topónimos, já aqui tive oportunidade de expor a minha opinião, a opinião de quem lida todos os dias com a língua e se vê confrontado com novas opções. Em particular no que diz respeito a topónimos e a antropónimos, não cedo a essas novas transliterações. Neste aspecto, o peso da tradição (por vezes não muito longa…) impõe-se e, francamente, não vejo que vantagens nos traria fazer de modo diverso. No que respeita ao vocábulo «taoísmo», tenho vindo a comprovar essa evolução de que fala e a reflectir que não há, mais uma vez, qualquer vantagem em preterirmos a forma que adoptámos há muito, opinião que me parece coincidente com a do leitor. À semelhança do miúdo da anedota, eu perguntaria se a cidade de Pequim foi arrasada ou se a China mudou de capital. Acresce que «Beijing» não é tão eufónico. Fica registado o facto, não despiciendo, de o pinyin ter vindo facilitar a escrita dos que se dedicam ao estudo do chinês.


Selvagemmente ou selvagemente?

A pergunta


      Olá!
      Sou uma estudante de português da Galiza, acho que tenho deixado comentários no blogue. Moro com duas filólog@s mais e hoje no jantar tivemos uma dúvida linguística que eu achei ser «básica» mas que parece que nom o é. A questão, tenho um crachá que diz «Selvagemmente feminista» e as minhas colegas estranharam-se pelo duplo m da formação do advérbio em -mente. Eu quero saber se existe uma regra para esta formação segundo a qual as palavras acabadas em -m que se formam com -mente mantém o m ou se é que varia segundo a palavra (ex. comummente).
      Muito obrigada,
      Sabela

A resposta

      Cara leitora, a sua dúvida não é básica. Não há, aparentemente, excepções à regra de que a consoante m dobra nos advérbios de modo formados a partir de adjectivos terminados em m (comummente, ruimmente, etc.). Assim, o vocábulo «selvagemmente» estaria, salvo melhor opinião, bem formado. Contudo, não parece ser opinião consensual. Vejamos. Numa consulta ao Ciberdúvidas sobre a mesma questão, o consultor Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca afirma que «o advérbio correcto para selvagem é selvaticamente, formado a partir do adjectivo selvático». José Pedro Machado, porém, no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, regista expressamente: «Selvagemente, adv. De modo selvagem; como os selvagens.│Só, isoladamente.» A única explicação para esta variante sem duplo eme só a encontro no facto de a forma antiga, e também popular, do adjectivo ser «selvage». Há até um monumento arqueológico na freguesia de Samil, concelho de Bragança, em cujo nome se usa esta forma do adjectivo: Fraga do Selvage. Logo, admitiria ambas as formas: selvagemente e selvagemmente.

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