Receita: bolo de chocolate


Mudança de ramo?


      Não se enganou no blogue, caro leitor. Depois de algumas pessoas remotamente conhecidas me terem feito saber que o meu blogue (mandei-lhes, claro, o recado de que já sabia isto…) aborda questões relacionadas com a língua — seu maior defeito, na opinião dessas pessoas —, decidi divulgar hoje a minha receita de um bolo de rápida confecção. Entre preparar e cozer — no microondas —, demora 20 minutos. Ideal para festas de crianças, pois além da rapidez com que se faz, permite uma ampla gama de decorações: com chantilly, confeitos, nozes, pinhões, etc.
      Espero agora que os convites para fazer crítica gastronómica chovam de todas as publicações, acolitados por amplas amostras de produtos regionais.

Ingredientes: duas chávenas de açúcar; cinco ovos inteiros; uma chávena de chocolate instantâneo do tipo Nesquik, uma chávena de óleo; duas chávenas de farinha com fermento; uma chávena de água morna.

Preparação: Os ingredientes que referi devem ser misturados, pela ordem em que aparecem, numa tigela, a mesma que serve de forma para ir ao microondas. Num microondas com a potência de 800 W, o tempo de cozedura é de 10 minutos. Deve, contudo, retirar-se antes de todo o chocolate solidificar, para que ao desenformar, imediatamente após sair do microondas, para um prato escorra para os lados, como se vê na fotografia.



Agradeço a colaboração da minha prima Luísa Cristina Leal Monteiro Pereira Ferreira.

Léxico: cotonifício

Além-mar

Os nossos irmãos Brasileiros são, na verdade, simultaneamente mais e menos conservadores do que nós no que respeita à língua. Por um lado, mantêm, mesmo na oralidade, termos e expressões que em Portugal já esquecemos, o que redundou sempre em prejuízo nosso. Por outro, são muito menos conservadores, permitindo a entrada generosa de estrangeirismos e afeiçoando-os ao português. Já aqui um dia referi o vocábulo «pastifício», de etimologia italiana. Hoje, divulgo outro, também com étimo italiano, de uso corrente no Brasil: «cotonifício». Cotonifício m. Manufactura de tecidos de algodão. Vem de cotonificio: «industria della filatura e tessitura del cotone; fabbrica per la produzione di tessuti di cotone».
E já que falo de têxteis, lembro que sobretudo no Alentejo se usa o termo «rouparia» para designar as indústrias, quase sempre pequenas e familiares, de lacticínios ou queijarias. E em que dicionário se encontra registado tal termo? Em poucos, valha a verdade. O nome deve-se ao facto de o soro ou almece (almécere, almeice, almícere, almiça, almice, almiço…) se filtrar, tradicionalmente, com roupas ou panos sobrepostos, os coadeiros.

Léxico: «testigo»

Imagem: http://www.ceramicanorio.com/
Gatafunhos com significado

      A lembrar um pouco o que já aqui escrevi sobre a siglária (Léxico: ornamentista) nas grandes igrejas e noutros monumentos, hoje quero falar dos sinais que os operários, especialmente artesãos como os oleiros e os ceramistas, mas também os que fazem objectos de cortiça (como tarros, corchos, etc.), usam nos objectos que produzem. Há — como quase sempre, não se esqueçam, existe para cada objecto ou realidade — um termo para designar esses sinais: testigos. É a assinatura do autor, o seu testemunho de que fez aquela peça. Por vezes uma sigla, um sinal, um desenho, mesmo um nome, que identifica o respectivo autor. No início, provavelmente, como acontecia com a siglária das igrejas, serviria somente para efeitos de atribuição a cada operário das peças produzidas, para avaliar o salário correspondente. A propósito, para um bom glossário da cerâmica, ver aqui.

Léxico: «dorsal»

Imagem: http://www.akirasan.net/

Do atleta, não do peixe


      Nem todos os vocábulos em uso, já o sabemos, se encontram dicionarizados — que tal facto não sirva de desculpa para se afirmar que não existem, como por vezes estultamente se faz. No campo da linguagem desportiva, por exemplo, apercebi-me há pouco que o substantivo «dorsal» não está em nenhum dicionário que eu conheça. Dorsal na acepção de pedaço de tecido, plástico ou papel que os participantes de algumas provas desportivas trazem nas costas (e repetido, por vezes, à frente), com o respectivo número, nome, equipa ou selecção.

Dacar e não Dakar

Escolham, meus senhores!

      Fiquei todo contente por ver que o Diário de Notícias estava finalmente a seguir o bom exemplo do Expresso ao grafar «Dacar» («Lisboa-Dacar 2007 arranca mais tarde», Expresso, 6.5.2006, p. 16) e não «Dakar», mas foi só um fogacho. Afinal, ainda tergiversa: «Um gelado algarvio em honra do Dacar», era um dos títulos da página 32, edição de 28 de Dezembro. No corpo da notícia, contudo, ora usa uma, ora outra forma. Está mal: o Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves, regista este topónimo com a grafia «Dacar».

Soalheiro e solarengo

Manhãs so _ _ _ _ _ as


      Há erros que, apesar de tudo, são mais desculpáveis na oralidade. Na escrita, denotam sempre pelo menos falta de atenção, quando não ignorância. «No Jardim da Parada, em Campo de Ourique, a manhã solarenga contrastava com o triste espectáculo a que se assistia no ecoponto do jardim, caixas de brinquedos e de chocolates, despojos do Natal, espalhavam-se pelo chão, não cabendo mais no pequeno ecoponto» («Lixo nas ruas por falta de civismo», Francisco Reis, Diário de Notícias, 28.12.2006, p. 26). Claro que é lamentável que um jornalista, um profissional que trabalha com as palavras, desconheça desta forma a língua, mas também não deixa de ser lamentável que os revisores não façam nada. É a segunda vez que aqui refiro este erro, e apenas insisto porque não chegou a toda a gente. Quem conhecer Francisco Reis, por favor, dê-lhe o recado.

Superlativo absoluto sintético

Propriíssimo

Uma leitora, professora que prefere manter o anonimato (quão longe daqueles que exibem a sua indigência cultural em programas televisivos), pergunta-me como se escreve o superlativo absoluto sintético do adjectivo «próprio». À semelhança de todos os adjectivos terminados em -io, dá-se a queda do -o final e acrescenta-se um i:

cheio → cheiíssimo
feio → feiíssimo
frio → friíssimo
necessário → necessariíssimo
precário → precariíssimo
próprio → propriíssimo
sério → seriíssimo
sumário → sumariíssimo
vário → variíssimo


Por vezes, como ensina Evanildo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa, Rio de Janeiro, Editora Lucerna, 37.ª edição, 2002, pp. 150-51), autor a quem fui buscar os exemplos acima, ocorre fusão dos dois iis, o que demonstra a tendência da língua à fuga ao hiato. Quanto ainda ao superlativo de próprio, Evanildo Bechara lembra que o escritor setecentista Dias Gomes escrevia propríssimo.

Serra: nome das peças


Enciclopédia visual

      Também um violino parece uma coisa simples e afinal é constituído por 85 peças. Afinador, alma, botão, braço, cavalete, cordas, cravelhas, estandarte, ilhargas, ouvidos, pestana, ponto, queixeira, tampos, voluta… e 30 camadas de verniz. Uma serra é, obviamente, menos complexa, mas ainda assim tem várias peças, todas com designação específica: paralelamente à folha está a peça maior, o alfeizar*; nas extremidades deste encontram-se as armas, testeiras ou testicos; a dar tensão a toda a serra está o cairo ou corda. Cada uma das extremidades das testeiras é atravessada por uma peça móvel de madeira, chamada tornel, na qual se fixa a lâmina. A peça de madeira que, de um lado, prende ao meio do cairo e dá a volta obrigando-o a torcer, enquanto, do outro, assenta sobre o alfeizar, é o trabelho.


* [Não confundir com o espanhol alféizar (plano que delimita el hueco inferior de una puerta o ventana. Generalmente sólo se dice del horizontal que sirve de coronación del antepecho), a nossa soleira das janelas.]

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