«Topikar» e «paklé»

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Em Goa, de chapéu

      Até meados da década de 1990, via no Metro, com alguma frequência, um senhor baixo, com cerca de 80 anos. Era impossível deixar de reparar nele. Em plena Lisboa de fim de século, apresentava-se imaculadamente vestido com roupas dos trópicos. Não apenas calças e casaco caqui, o que apesar de tudo não é ainda hoje invulgar, mas também e exoticamente com o típico chapéu colonial introduzido pelos Ingleses nas suas colónias africanas e asiáticas. (E em Portugal fabricado pela Real e Imperial Chapelaria a Vapor de Costa Braga & Filhos, com instalações na Rua da Firmeza, no Porto.) Tão tipicamente ocidental, como se sabe, que na Índia os Ingleses eram conhecidos por topikar, numa alusão ao facto de usarem chapéu. O que, aliás, tem paralelo com os Portugueses, que eram designados em Goa por paklé (singular: pakló), o que se devia ao facto de usarem, quando houve o encontro de povos, chapéus ornados com penas (pak, em concani). Ainda hoje, época que prescindiu de qualquer ornamento ou protecção na cabeça, os goeses que se reúnem na Praça da Figueira tratam ― sem saberem porquê, muitas vezes ― os brancos por paklé.

Léxico: «gelaba» e «xeique»

Ao lado

      «Mohamed Ouakalou é um jovem marroquino de 26 anos, vestido com uma Djellaba, túnica tradicional do Sul de Marrocos» («Acabou-se o jejum. Muçulmanos celebraram o fim do Ramadão no Porto», Nuno Escobar de Lima, Sol, 28.10.2006, p. 36). Pois é, mas os dicionários registam gelaba e jilaba. «A associação de mesquitas de Sydney suspendeu por três meses o sheik Taj Din al-Hilali’s» («Sheik australiano lança polémica», Sol, 28.10.2006, p. 72). Pois é, mas os dicionários registam xeque e xeique.


Cule, evolução semântica


[…] aqui, estou metido num hotel, e quando discuto,
é sobre câmbios — e quando penso, é sobre coolies.

Eça de Queirós em carta a Ramalho Ortigão, 1873

O nosso cônsul em Havana

      Quando um tratado anglo-espanhol de 1817 tornou ilegal o tráfico de escravos, que afinal só já perto do fim do século, em 1886, acabaria, Cuba precisou de crescente mão-de-obra para as plantações de cana-de-açúcar que substituísse os escravos com que tinha podido contar durante mais de 300 anos. Foi precisamente nesta altura que se pensou levar os cules, primeiro de Hong Kong e depois de Macau. Como o porto de Macau era território português, a questão da emigração passou a constituir uma preocupação do Estado português. Quando Eça de Queirós, nomeado cônsul de 1.ª classe nas Antilhas Espanholas, chegou a Havana, em Dezembro de 1872, à falta de outros problemas ou interesses, passou a analisar a situação de quase escravatura que os cules sofriam.
      A palavra «cule» na Índia significa apenas um carregador ou trabalhador braçal. Encontravam-se, naturalmente, na base da escala social (mas acima, numa sociedade tão complexamente estratificada, dos intocáveis), e por isso a determinada altura começaram a emigrar. Quando Gandhi estava na África do Sul, a palavra «cule» tinha uma forte conotação de desprezo, e todos os indianos eram designados cules. Os ingleses que estavam na colónia, numa demonstração de crassa ignorância, também chamavam samis aos cules, que é uma palavra que vem do tâmil e significa patrão, mestre (é o swami do sânscrito).

Semântica: pontífice

O fazedor de pontes

      De alguma maneira, com as jornadas inter-religiosas de Assis, o papel do Papa João Paulo II (Bento XVI, como se sabe, manifesta algumas reservas em relação a estes encontros) cumpriu-se integralmente. Como também é sabido, a Igreja Católica herdou — não forjou — o termo latino «pontifex» para designar o papa. Pontifex era o construtor de pontes romano (pontis facere), que, nos collegia fabrorum romanos, detinha a primazia. Apesar de tudo, convenhamos, no contexto social, um construtor de pontes não passava de um vulgar artífice. Por isso, na verdade, o pontifex maximus que os imperadores e os papas vão juntar aos demais títulos tinha origem na designação de um alto funcionário romano com funções sagradas — fazia sacrifícios nas pontes (facere in ponte), pois as pontes eram consideradas, na Antiguidade, locais sagrados. Havia simultaneamente oito pontífices em funções e ao principal era dado o nome de pontifex maximus. Vem a propósito lembrar que a ideia de ligação, conexão, é tão intrínseca à religião que este substantivo vem mesmo de religare, religar.


Anglicismo: «cópia»

O legendador copista

      A romancista espanhola Rosa Montero foi entrevistada por Paula Moura Pinheiro na edição do programa Câmara Clara da última sexta-feira. Quando, a determinada altura, se falou de Herman Melville e dos escassos exemplares que terá vendido do fabuloso Moby Dick, Rosa Montero afirmou que teriam sido «diecisiete ejemplares». O legendador achou que escrever «exemplares» não denotaria todo o esforço que terá feito para fazer a tradução. Logo, vá de escrever que foram «dezassete cópias». Contudo, «cópia», nesta acepção, é um puro anglicismo. Escusado será dizer que alguns dicionários já acolhem este significado — mas por distracção ou falta de critério, decerto.

Uso da vírgula

Bem me parecia

      «Di conseguenza, l’amore per antonomasia — vale a dire l’eterno e increato Iddio — deve per forza essere mistero in supremo grado: deve essere il Mistero per eccellenza.» Ou seja, para o tradutor português: «Consequentemente, o amor por antonomásia — quer dizer o eterno e o incriado Deus — deve forçosamente ser mistério em supremo grau: deve ser o Mistério por excelência.» Quase bem. Na verdade, falta uma vírgula após a expressão explicativa «quer dizer». À semelhança de outras, explicativas ou correctivas, como ou melhor, digo melhor, ou antes, quero dizer, aliás, digo, ou seja, por exemplo, isto é, etc., em que também se deverá usar pelo menos uma vírgula a isolar do resto da frase.

Tradução: «tramcar»

Imagem: http://upload.wikimedia.org/
Americanos em Lisboa

«Chora, s. m. (de Shore, antr.). Carro de tracção animal para transporte colectivo, usado em Lisboa nos fins do século XIX e princípios do XX» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa).

      Por coincidência, numa mesma semana, deparei-me com um problema de tradução que também obrigou um leitor a pedir-me ajuda. A palavra em causa é tramcar. O contexto, em ambos os casos, mostrava que não se tratava de um eléctrico. (Para um brasileiro, porém, seria sempre e só «bonde».) Era de um veículo a tracção animal que se tratava.
      Mais uma infausta vez, é da qualidade de dicionários bilingues que estamos a falar. O meu leitor usara uma edição, que não identificou, do Dicionário Inglês-Português da Porto Editora. Neste dicionário, como tradução do vocábulo tramcar regista-se apenas «eléctrico». Ora, a verdade é que sendo puxado por muares, uma ou duas parelhas, não são eléctricos. Estes veículos chamavam-se, em Portugal, americanos. Em Lisboa, a primeira linha, entre Santos e Santa Apolónia, abriu a 17 de Novembro de 1873. O último parágrafo d’Os Maias fala de uma corrida de Carlos e de João da Ega para apanharem um americano: «De novo a lanterna deslizou e fugiu. Então, para apanhar o americano, os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela Rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia.» No Porto, a linha de americanos abrira mais cedo, a 9 de Março de 1872. Uns anos mais tarde, alguns destes americanos (fabricados, alguns, na Inglaterra pela Starbuck Car & Wagon Co. Ltd, Birkenhead) foram adaptados a eléctricos.
      Carlos do Carmo canta um fado, com letra de Ary dos Santos, «O Amarelo da Carris», através do qual ficamos a conhecer outro nome para este veículo de tracção animal: «O amarelo da Carris/já teve um avô outrora,/que era o chora./Teve um pai americano,/foi inglês por muito ano,/só é português agora.»

Tradução: «pechina»

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Ainda os termos de arquitectura

      A propósito da dúvida do leitor Luís C. Martins, lembro-me de recentemente me ter aparecido uma tradução em que no original, espanhol, se usava o vocábulo pechina. Solução do tradutor? Deixar para o revisor… Claro, bem entendido, o tradutor sabia do que se tratava — mas qual a palavra portuguesa correspondente? Em espanhol, pechina, do latim pecten,-inis («Cada uno de los cuatros triángulos curvilíneos que forman el anillo de la cúpula com los arcos torales sobre que estriba»). Em catalão, petxina, com o mesmo étimo («Cadascun dels quatre triangles curvilinis situats entre els arcs torals, sobre els quals descansa directament l’anell de la cúpula»). Em francês, pendentif, do latim pendēns,-entis («Construction en triangle sphérique concave, entre les grands arcs soutenant une coupole, permettant de passer du plan carré au plan circulaire ou octogonal»). Em inglês, com étimo francês, pendentive («A triangular section of vaulting between the rim of a dome and each adjacent pair of the arches that support it»). Circunlóquios, só em último caso: parte triangular da abóbada que serve para sustentar a volta de uma cúpula. Uma só palavra: penacho. Ou, menos idiossincrático, pendente.

[Espanhol: pechina. Português: penacho ou pendente.]

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