Depreciativos e burlescos

Aqui d’el-rei!

      Não deixa de espantar o número de palavras depreciativas que temos para os termos «rei» e «príncipe». Mas não para «rainha», que a Lei da Paridade ainda não tinha sido… parida. Concebida, congeminada, engendrada, gerada, urdida… A República, mais tarde, amansou-nos, e o vocábulo «presidente» não tem, que eu conheça, nenhum derivado burlesco. Rei, pois: reizete, regulete, régulo… Príncipe: principelho, principete, principículo, principote… Foram muitos séculos.

Fenómeno fonético: imela

I... quê?

      «Há um fenômeno», explica Ismael de Lima Coutinho na obra Pontos de Gramática Histórica, «peculiar à fonética árabe, denominado imela*, segundo o qual o a tônico passa a e ou i. É o que explica a transformação de Tagu> Tejo, Pace, ou melhor Paca> Beja, *Hispalia por Hispalis> Isbilia, hoje Sevilha» (p. 192).

* Do árabe clássico الاِستِعلَاءُ, imālah (inflexão). Este fenómeno fonético foi frequente na Espanha muçulmana. A propósito, calcula-se que o espanhol tenha cerca de 4 mil palavras de origem árabe.

Blog ou blogue?

Opções

      O leitor JRC pergunta se se deve escrever «blog» ou «blogue». Bem, começo por dizer que adoptei desde a primeira hora a forma «blogue», que vejo que tem um uso muito difundido. Vamos às razões. Seria difícil encontrar um termo novo ou já existente na língua portuguesa que passasse a designar esta realidade nova. A força avassaladora do inglês provém, naturalmente, do facto de ser no seio desta cultura que se inventam as realidades a que se impõe dar nome. Assim, dado que há uma relação aproximada grafema/som entre o inglês «blog» e o aportuguesamento «blogue» — como poucas vezes acontece, pense-se em tentativas de aportuguesamento como «icebergue» e «surfe», para não referir outras —, é preferível usarmos o estrangeirismo «blogue» ao empréstimo «blog». E já se sabe: quem empresta nunca melhora.

Televisão e cultura

Dispenso

      Embora haja quem deplore isso — e sobretudo que o escreva aqui —, poucas vezes vejo televisão e quase sempre que o faço me arrependo. Anteontem mesmo, depois de jantar, pus-me a ver esse monumento à ignorância que é o concurso A Herança. No desafio final, pergunta a apresentadora, Tânia Ribas de Oliveira, ao concorrente: «Estava a pensar em quê? Na nau Santa Maria?» (Porque estava lá o nome Henrique, que podia apontar para Henrique Galvão.) A nau Santa Maria, meu Deus! Acho que vou pedir asilo cultural à República da Abcásia.

Corso e corço

Napoleão não é para aqui chamado

      Se não tivesse desembolsado 1,40 euros pelo jornal, talvez achasse alguma piada ao «corso» em vem de «corço». «O incêndio, que afectou uma área equivalente à cidade do Porto, atingiu uma das duas zonas de protecção total do parque, a Mata do Ramiscal, refúgio do lobo-ibérico e do corso» (Público, 20.08.2006, primeira página). Esta chamada da primeira página remete para a notícia, nas páginas 24 e 25, onde se voltou a escrever sempre «corso»: «Situado numa zona muito pouco acessível da serra do Soajo, e dada a humanização do resto do parque, o vale húmido e encaixado do rio Ramiscal tornou-se num santuário de espécies animais como o lobo-ibérico (canis lupus), o corso (capreolus capreolus), o gato-bravo (felis silvestris), nele se alimentando o único exemplar de águia-real (aquila chrysaetos) da Peneda-Gerês» («Peneda-Gerês. Balanço de uma área protegida oito dias à mercê do fogo», Abel Coentrão).
      Três notinhas: escreve-se corço (do latim cortius, em alusão à cauda curta deste animal, que, através de certos fenómenos fonéticos, alguns dos quais já aqui expliquei, deu corço); o verbo tornar-se não carece de preposição nem da contracção com o artigo (um dos erros mais difundidos hoje em dia, a que poucos escapam) e a nomenclatura científica exige que no nome composto dos seres vivos se grafe com maiúscula a primeira palavra (já aqui falei disso duas vezes, mas os jornalistas deviam estar de folga).

Ortografia: «digladiar»

Espera aí

      Que nunca se escreveu tão mal no Público, é asserção que carece de honesta fundamentação, que não tenho. Mais seguramente se pode afirmar que, hoje em dia, no Público, os erros e as gralhas impedem uma leitura fluente e com prazer. Claro, admito que uma parte desta sensação provém de uma possível deformação profissional: habituado a corrigir, a emendar, ver tantas máculas faz alguma mossa na minha boa vontade. Hoje, quero somente falar de um erro na edição de domingo passado. «Não apenas porque passarão a estar realmente frente a frente dois semanários que lutarão para conseguir a liderança de mercado, mas porque, acima de tudo, irão degladiar-se dois “quase-irmãos”» («Sol quer vencer Expresso desde o primeiro round», Maria Lopes, 20.08.2006, p. 46). É, estranhamente, muito raro ver este vocábulo correctamente escrito. Escreve-se com i, como em latim, língua donde provém: digladiar(-se). Cinquenta vezes: digladiar, digladiar, digladiar, digladiar, digladiar, digladiar, digladiar, digladiar...

Formas de tratamento

Ó tu que fumas!

      À saída do Tribunal de Lagos, os dois franceses suspeitos de homicídio a bordo do trimarã Intermezzo, naufragado ao largo do cabo de São Vicente, falaram à comunicação «em tom espanholado», como sugestivamente descrevia o Diário de Notícias. Um polícia, ao que presumo um agente da PJ, obrigava-os a entrar rapidamente na viatura, dizendo para a mulher: «Ahora tienes de entrar!» Via-se logo que era um leitor de Eça de Queirós, e em especial da Correspondência de Fradique Mendes: «Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua terra: todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro.» A maioria dos portugueses suspeita que os Espanhóis se tuteiam a torto e a direito. São só suspeitas infundadas. Se não vão a Espanha, não lêem literatura nem jornais espanhóis, se não vêem televisão espanhola, se não ouvem rádio espanhola, se não falam com espanhóis, pelo menos leiam esta entrada do Diccionario de la Real Academia Española: «Tutear. 1. tr. Hablar a alguien empleando el pronombre de segunda persona. Con su uso se borran todos los tratamientos de cortesía y de respeto. U. t. c. prnl.»

De compostas a simples

Sempre a aprender

      Pelo grande interesse de que se reveste, transcrevo o que escreve Ismael de Lima Coutinho na obra Pontos de Gramática Histórica (6.ª edição, 1969, Livraria Acadêmica, Rio de Janeiro, que agradeço a JRC) sobre as palavras que apresentam em português forma simples, quando na língua originária eram compostas.
«1) árabes: benjoim (luban-Jawi, incenso de Java), salamaleque (salam-alaik, a paz esteja contigo), oxalá (in-sha-Allah, se Deus quiser);
2) hebraicos: aleluia (hallelu-Iah, louvai a Deus), hosana (hoshi-anna, salvai, eu vos peço), Israel (shara-Al, príncipe de Deus);
3) persas: julepo (gul-ab, água de rosas), azarcão (azar+gun, cor de fogo), caravançará (karwân-serai, casa das caravanas);
4) turco: janízaro (jenit-cheri, nova milícia);
5) germânicos: marechal (marah-scalc, servo do cavalo), lansquenete (lands-knecht, servidor do país), potassa (pot-ashe, cinza de panela);
6) franceses: oboé (haut-bois, alta madeira), vendaval (vent-d’aval, vento de baixo), gendarmes (gens-d’armes, homens de armas), ferrabrás (Fier-à-bras, nome de um bandido sarraceno, lembrado pelas gestas francesas);
7) ingleses: redingote (riding-coat, casaco de montar a cavalo), macadame (Mac-Adam, nome próprio do engenheiro escocês que inventou esse processo de calçamento), contradança (country-dance, dança do país);
8) italianos: anspeçada (lancia-spezzata, lança quebrada), tramontana (tra-montana, além da montanha), pedestal (piede-stallo, assento do pé);
9) americanos, sobretudo da língua tupi-guarani: caroba (caar-oba, mato amargo), capivara (caapi-uara, comedor de capim), carioca (cari-oca, casa do branco), igara (ig-iara, dona d’água), socó (çoó-có, bicho que se arrima), Paquequer (pac-ker, dormida das pacas), Paraguai (paraguá-i, rio dos papagaios), Paraná (pará-nã, semelhante ao mar), Paraíba (pará-aib, rio impraticável), Pirai (pirá-i, rio do peixe), icarai (i-caraí, rio santo ou água santa).»

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