De compostas a simples

Sempre a aprender

      Pelo grande interesse de que se reveste, transcrevo o que escreve Ismael de Lima Coutinho na obra Pontos de Gramática Histórica (6.ª edição, 1969, Livraria Acadêmica, Rio de Janeiro, que agradeço a JRC) sobre as palavras que apresentam em português forma simples, quando na língua originária eram compostas.
«1) árabes: benjoim (luban-Jawi, incenso de Java), salamaleque (salam-alaik, a paz esteja contigo), oxalá (in-sha-Allah, se Deus quiser);
2) hebraicos: aleluia (hallelu-Iah, louvai a Deus), hosana (hoshi-anna, salvai, eu vos peço), Israel (shara-Al, príncipe de Deus);
3) persas: julepo (gul-ab, água de rosas), azarcão (azar+gun, cor de fogo), caravançará (karwân-serai, casa das caravanas);
4) turco: janízaro (jenit-cheri, nova milícia);
5) germânicos: marechal (marah-scalc, servo do cavalo), lansquenete (lands-knecht, servidor do país), potassa (pot-ashe, cinza de panela);
6) franceses: oboé (haut-bois, alta madeira), vendaval (vent-d’aval, vento de baixo), gendarmes (gens-d’armes, homens de armas), ferrabrás (Fier-à-bras, nome de um bandido sarraceno, lembrado pelas gestas francesas);
7) ingleses: redingote (riding-coat, casaco de montar a cavalo), macadame (Mac-Adam, nome próprio do engenheiro escocês que inventou esse processo de calçamento), contradança (country-dance, dança do país);
8) italianos: anspeçada (lancia-spezzata, lança quebrada), tramontana (tra-montana, além da montanha), pedestal (piede-stallo, assento do pé);
9) americanos, sobretudo da língua tupi-guarani: caroba (caar-oba, mato amargo), capivara (caapi-uara, comedor de capim), carioca (cari-oca, casa do branco), igara (ig-iara, dona d’água), socó (çoó-có, bicho que se arrima), Paquequer (pac-ker, dormida das pacas), Paraguai (paraguá-i, rio dos papagaios), Paraná (pará-nã, semelhante ao mar), Paraíba (pará-aib, rio impraticável), Pirai (pirá-i, rio do peixe), icarai (i-caraí, rio santo ou água santa).»

Brincar com as palavras

Eh, rapaz!

Não resisto a transcrever aqui o post de hoje dos revisores do Le Monde:

      «Antony Blair, Prime minister de son état, s’est vanté au tabloïd Sun, avec une rare délicatesse, faire l’amour jusqu’à cinq fois par nuit à son épouse chérie. Ladite Cherie n’a cependant pas confirmé cette remarquable performance. Casanova, dans ses mémoires, évoque un jeune homme (de 26 ans) surnommé par ses galantes Tirsis (du nom du berger mythique, mais tout le monde comprenait Tire-six). Tire-cinq, si l’on nous permet ce sobriquet, a pour lui son plus grand âge. Mais l’avantage final revient à Tire-six, car ce sont les femmes qui l’ont ainsi surnommé, alors qu’Antony a peut-être affabulé. Il l’avait déjà fait avec les « armes de destruction massive » inexistantes. D’ailleurs, ses administrés ne l’appelleront bientôt plus que : Tire-toi

Ortografia: acupunctura

Mais uma picada

      A tendência para as pessoas menos instruídas dizerem «acunpuctura» (na verdade, «acupunctura», do latim acu, «agulha» + punctura, «picada») o que se deverá, em parte, ao facto de ser uma palavra um pouco estranha aos nossos hábitos, não passará despercebida a ninguém. Que o erro também tenha passado para a escrita, e sobretudo nas traduções, é que é mais lamentável. A única variante admissível, mas dentro da norma brasileira, é «acupuntura». O resto é iliteracia.

«Governar sob ditadura»

Não é o mesmo

      Em Direito, pergunta-se: «Quis custodies custodes ipsos?» (Quem guarda os próprios guardas?). Este artigo do Diário de Notícias trouxe-me à memória a pergunta. «O general Alfred Stroessner, que governou sob ditadura o Paraguai durante 35 anos, morreu ontem num hospital de Brasília, aos 93 anos» («Ex-ditador Stroessner morre no exílio», 17.08.2006, p. 13). Claro, ele era um ditador, mas terá ele próprio governado debaixo de ditadura? Talvez a mulher, por sua vez, o tiranizasse… Parece-me que a frase precisava de uma reformulaçãozinha.

Soalheiro e abisseiro

Sombra e sol

      Já por diversas vezes alguns leitores me mandaram mensagens ou deixaram comentários em que pediam que eu dissesse alguma coisa sobre este disparate tremendo que é dizer que «o dia vai estar solarengo». Vejam, senhores jornalistas e demais comunicadores, o que significa esta palavra: «Solarengo, adj. Relativo ou pertencente a solar (casa ou herdade nobre).│Que é moradia solar ou tem o aspecto de solar.│Que vive em solar; que é dono de solar.│ S. m. Senhor de solar.│Aquele que, como serviçal ou lavrador, viva no solar ou herdade de outrem» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado). Contudo, a verdade é essa, este texto serve apenas para lembrar ou revelar o vocábulo abisseiro ou abixeiro, justamente por ser um antónimo de soalheiro. «Abixeiro, s. m. (do lat. aversariu-). Lado da encosta onde o sol não dá nunca, ou não dá mais que uns momentos durante o dia.│Lugar sombrio, voltado ao norte.│Como adj., em que não dá ou quase não dá o sol; sombrio.│O contrário de abixeiro, como substantivo, é soalheira, s. f., e, como adj., soalheiro» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado).

A filosofia das maiúsculas

Com autorização do autor, transcrevo na íntegra uma crónica exemplar de Ruben de Carvalho, publicada no dia 17 do corrente no Diário de Notícias.

A minúscula hermenêutica

      Na semana passada, a direcção do Público tomou uma iniciativa que corre sério risco de vir a figurar entre os mais bizarros episódios da imprensa portuguesa.
      No final de um artigo de Isabel do Carmo (IC) criticando a política israelita em geral e o ataque ao Líbano em particular (de resto, em resposta a afirmações anteriores, visando a autora, da habitual colaboradora do jornal Ester Mucznik), estampou a gazeta a seguinte nota: “NR — O Público não alterou a grafia deste texto, designadamente o facto de a autora escrever Holocausto com caixa baixa.”
Comecemos por um pormenor secundário (sendo que nada é irrelevante neste disparate): o facto de se usar a expressão “caixa baixa”. Trata-se de uma formulação de perfil técnico, vinda do tempo da tipografia manual (da composição de chumbo, em que os tipos se distribuíam por compartimentos duma “caixa” de madeira), mas que persiste na área das artes gráficas, substituindo o comum “maiúscula” e “minúscula”: “caixa baixa” é inteiramente sinónimo desta última, “caixa alta” da primeira.
      É evidente que o que subjaz à nota do Público é IC ter escrito holocausto e não Holocausto, ou seja, ter iniciado com letra “minúscula”: o jornal parece ter a concepção da imensa relevância da primeira letra como critério formal de valorização! Escrever “holocausto” é estar com o Hezbollah, grafar “Holocausto” é estar com Israel e a Administração Bush!... Mas porque é que se usa o elusivo “caixa baixa”?...
      Daria pano para mangas reflectir sobre esta concepção litúrgica e sacralizante do uso da maiúscula, mas a nota coloca ainda outra questão: é evidente que a direcção do Público pretende tornar claro que não subscreve aquilo que no seu exclusivo entender significa o facto de IC ter utilizado minúscula. Ora, por esta ordem de razões, o jornal teria de estar constantemente a fazer notas semelhantes esclarecendo “não ter alterado a grafia” aos azedos e reaccionários insultos de Vasco Pulido Valente, às reflexões que levam Ester Mucznik a considerar terrorista toda a gente que não pensa como ela e por aí fora!
      A vantagem, entretanto, é que fica a saber-se que para incomodar aquele jornal basta uma pequena entorse na ortografia e escrever a grandíssima ofensa de que se trata da Folhinha dirigida por josé manuel fernandes…

Léxico; flor de sal

Imagem: http://www.av.it.pt
O sal da vida

      Este também foi, recentemente, assunto de um post no blogue dos revisores do Le Monde: flor de sal. Também chamada nata ou coalho de sal, é recolhida à superfície — daí o nome — das salinas. Flos, em latim, significa a parte mais fina. Há quem fique muito admirado quando ouve esta expressão. Sempre tive um grande fascínio por salinas, vá-se lá saber porquê, uma vez que nunca vi nenhuma de perto. Sei algumas coisas, puramente livrescas. Ainda era pequeno quando descobri o verbo rer ou raer, que significa raspar o sal da salina e juntá-lo com o rodo. Tem dado jeito quando me perguntam: «Varrer com três letras?» A frequência diuturna do dicionário trouxe as que se seguem.

Alassar v. int. Destacar-se facilmente (o sal) do casco da marinha.
Alcatruzada f. Cano de manilhas, que leva a água do caldeirão para a marinha, nas salinas do Sado.│O conteúdo de um alcatruz ou a porção de líquido que um alcatruz comporta.
Alfinete m. Cristais de sal, compridos e finos, que, com o vento quente e seco, aparecem entre os cristais de sal comum nas marinhas.
Algibé m. Segunda bacia rectangular, nas salinas, separada do viveiro por um dique, construído de torrão e de lama.
Almanjarra f. Espécie de grande rodo, com que se tira a lama das marinhas.
Almanjarrar v. t. Tirar com a almanjarra.
Andoa f. Espécie de argila das margens dos rios, aplicada (em Ílhavo, Aveiro, etc.) no fundo dos cristalizadores das marinhas de sal para os tornar impermeáveis.
Andoar v. tr. Cobrir com andoa, que é um barro extraído da margem esquerda da ria de Aveiro.
Arriar v. tr. Inutilizar compartimentos destinados à evaporação do sal.
Baracha f. A cova ou caldeira nas marinhas de sal.│Travessão de lama que divide os compartimentos nas marinhas de sal. O m. q. maracha.
Bexiga f. Fragmentos, que se despegam do casco, nas marinhas do Sado.
Bimbadura f. Fragmento de lodo, aderente aos travessões das salinas.
Botadela f. Última preparação da marinha, para a cristalização do cloreto de sódio.
Bruaca f. Pequeno saco para acondicionamento de sal.
Bunho m. T. de Aveiro. Espécie de junco, com que se tapam as medas do sal nas marinhas, para as resguardar contra a chuva.
Cabeceira f. Um dos compartimentos das marinhas.
Caldeira f. Cada um dos dois compartimentos, inferiores ao caldeiro, nas marinhas do Sado.
Cambeia f. Ruína produzida pelos vendavais nos muros das salinas.
Camisa f. Ligeira cobertura de sal, no fundo dos meios das marinhas.
Canajeira f. Espécie de pá empregada nas salinas.
Caneja f. Rego que nas salinas de Aveiro se faz na andaina de cima de dois em dois compartimentos, para ligar a água de baixo.
Carregonceira f. Rolha de junco e lama, para tapar a alcatruzada, nas salinas.
Casula f. Espécie de caldeirinha que os marnotos das salinas de Aveiro fazem nos meios de baixo, na operação de andoar.
Círcio m. Cilindro de madeira com que os marnotos curam o solo das marinhas de sal.
Codejo m. Sulfato de cal que se forma nas salinas.
Contra f. Baracha ou travessão, nos talhos das marinhas do Guadiana.
Contratejo m. Um dos compartimentos das marinhas de Faro.
Coque m. Cozinheiro de marnotos, nas margens do Sado.
Corredor m. Viela que separa tabuleiros nas salinas.
Corredor-mestre, corredor-real m. Vala que rodeia a salina e distribui a água pelas poças ou a lança na escoadeira.
Creve m. Marinheiro incumbido de contar os moios de sal postos a bordo.
Cristalizador m. Compartimento em que, nas marinhas, se cristaliza o sal.
Despinça f. Designação das salinas ao norte do Tejo onde se não faz o cozimento ou casco.
Encanas f. pl. Água que se junta na drainagem das marinhas-podres.
Ensampação f. Nome que, nas margens do Sado, se dá ao enjoo das marinhas.
Entijolar v. t. Adquirir a consistência do tijolo (falando-se do solo das marinhas).
Entraval m. Vala, paralela ao tabuleiro do sal da marinha velha.
Entrebanho m. Caldeirão das salinas.
Escoadeira f. Cano de manilhas, que da salina conduz a água para o mar.
Esgoteiro m. Reservatório de água junto de cada compartimento cristalizador, nas salinas.
Gafa f. Vaso com que se transporta o sal nas marinhas.
Greiro m. Corte nos muros das marinhas, nas salinas de Aveiro.
Guarda-mato m. Vala exterior às salinas, para receber as águas de terrenos adjacentes e impedir que elas invadam a marinha.
Lã-de-borrego f. Uma das espécies de limo que aparecem mais frequentemente nas salinas.
Lavadoura f. Espécie de degrau, formado pela tirada dos torrões, com que se forma a vedação da salinas, em Aveiro.
Limo-letria m. Nome vulgar de uma das espécies de limo que aparecem nas salinas.
Louvor m. Crosta de sal que se forma à superfície da água dos talhos.
Louvoura f. Côdea de cloreto de sódio, que se forma sobre os cristalizadores, na primeira colheita do sal, nas marinhas de Setúbal.
Madris f. Caminho sobre a maracha das salinas.
Maracha f. Muro pequeno, que separa as peças da salina. O m. q. baracha.
Marinha f. Lugar em que se recolhe a água do mar, para o fabrico do sal; salina.
Marnota f. Parte da salina em que se acumula a água para fabricar o sal.
Marnotagem f. Conjunto dos trabalhadores para se obter o sal, nas marinas de Aveiro.
Marnoteiro ou marnoto m. Indivíduo que trabalha nas salinas.
Marroteiro m. Indivíduo que dirige o trabalho dos marnotos; marnoteiro.
Moeira f. Um dos dois cabos que seguram as extremidades do eixo do círcio, nas salinas de Aveiro.
Moeiro m. Instrumento de marnoteiro com o feitio de espada.
Mouradouro m. Um dos compartimentos das salinas.
Mourar v. tr. Depositar o sal na borda dos caldeirões (falando-se da água salgada das marinhas).
Mula f. Monte de sal, em forma de prisma de secção triangular, que termina em dois meios cones.
Muradouro m. Estaca arqueada, com que se abrem os lagrimais nas barachas das marinhas do sal de Aveiro.
Múria f. Nas salinas, a água-mãe que fica depois da cristalização do sal e a água saturada de sal depois que a submeteram à evaporação.
Pá-de-cavalo m. Nas salinas de Faro, o m. q. cambaio.
Passadouro m. Pequeno muro por onde os marnotos conduzem o sal do tabuleiro para as eiras.
Pejo m. O maior reservatório das marinhas de sal.
Redor m. Operário salineiro, que toma água para os viveiros e quebra a crosta salina.
Redura f. Acto de rer; rodura.
Ronha f. Doença das salinas, produzida pelo vento do sul ou de leste, que torna a água gordurenta e incapaz de produzir sal.
Salgado m. Conjunto das salinas de uma região: o salgado do Tejo.
Salicultura f. Exploração do sal numa salina ou marinha de sal.
Salicórnia f. Vegetal rico em betacaroteno que cresce junto às marinhas, também conhecida por espargo marinho. É usada em saladas e em pratos de peixe. As sementes da planta são uma fonte excepcional de proteínas. Os caules fibrosos são usados para rações de animais e para fabricar tijolos.
Salinar v. tr. Provocar a salinação, na safra do sal.
Salineira f. Mulher que trabalha nas salinas.
Salineiro m. Aquele que fabrica sal ou o empilha.│Vendedor de sal.
Sangradeira f. Portal que, nas salinas, põe em comunicação os cristalizadores com o entraval.
Silha f. Um dos muros que separam os compartimentos das marinhas.
Singela f. Fila longitudinal de pequenos compartimentos, de cada lado do corredor, nas marinhas do Sado.
Sobrecabeceira f. Um dos compartimentos das salinas.
Tabuleiro m. Divisão ou talho das salinas.
Taburno m. Peça de madeira, em forma de telha, em que se transportam torrões para os muros das marinhas.
Talho m. Compartimento nas salinas; reservatório onde se cristaliza o sal.
Torroeiro m. Parte da praia, donde se tira o torrão para construir a vedação das marinhas.
Travadoura f. Peça de madeira ou de pedra com que se impede a passagem da água do corredor para as peças da salina.
Trave f. Talude ou dique de terra argilosa que separa o viveiro dos algibés, e estes do mandamento, nas marinhas de Aveiro.
Trintada f. Prov. Porção de trinta moios de sal que os compradores de fora tinham de comprar à Misericórdia de Setúbal.
Ugalho m. Espécie de ancinho ou varredouro, nas salinas.
Valagem f. Acto de valar ou murar as salinas na Figueira da Foz.
Viveiro m. Cada um dos reservatórios das marinhas para onde entra directamente a água.


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Pleonasmo: «desfecho final»

Tristes desenlaces

      Cada vez é mais vulgar ouvir-se, na rádio e na televisão — na imprensa escrita ainda não vi —, «desfecho final». Como se houvesse um «desfecho inicial», um «desfecho médio» e um «desfecho final». Um conselho: de vez em quando, experimentem consultar um dicionário.

«Desfecho, s. m. (de desfechar). Acção ou efeito de desfechar; desenlace.│Termo, conclusão, resultado final.» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado)

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