Moinhos de maré: léxico

Moinho da Asneira, rio Mira (Imagem: http://abae.pt/)
Mira!

      Chegou-me às mãos, oferecida pela Câmara Municipal de Odemira, a obra Rio Mira, Moinhos de Maré, da autoria de António Martins Quaresma (1.ª edição, Suledita, Aljezur, 2000). Trata-se de um estudo de história local, de onde extraio a seguinte passagem: «Os moinhos de maré constituem uma categoria particular dos moinhos hidráulicos. Eles utilizam o efeito das marés, mais concretamente a diferença de nível entre o preia-mar e o baixa-mar, para colocar em funcionamento o aparelho de moagem. Localizam-se, por isso, próximo da costa, onde as marés se fazem sentir, geralmente em estuários com margens alagadiças e esteiros. A água, na enchente, é retida numa grande represa — a caldeira —, podendo ser utilizada para moer no refluxo da maré logo que, no exterior, a roda motriz fica desbloqueada. Esta está colocada horizontalmente no interior de uma câmara, onde se move por acção de um jacto de água lançado sobre o penado (conjunto de pás ou penas da roda), a modo de uma turbina primitiva. O movimento obtido é transmitido directamente à mó andadeira, que gira à mesma velocidade.
      A roda horizontal — rodízio — é a roda motriz aplicada na generalidade dos moinhos portugueses. Uma variante — o rodete —, em que a roda gira no interior de um poço, teve difusão recente e restrita. Uma excepção à utilização da roda horizontal surge exactamente no rio Mira. Ao contrário, nas costas do Norte da Europa (França, Grã-Bretanha) difundiu-se a roda vertical, cujo movimento é transmitido à mó através de uma engrenagem, constituída por uma grande roda dentada — a entrosga — e um carreto, o que permite a multiplicação da potência» (pp. 9-10).

Falsos cognatos

Amigos da onça

      Já aqui tenho falado de problemas de tradução que implicam falsos cognatos, usando exemplos do espanhol. Hoje o exemplo é do inglês e ainda é mais confrangedor por se tratar de um tradutor experiente e o erro elementaríssimo mas muito comum. Vejamos a frase do original: «We passed a number of closed rooms as the corridor wound through two right turns, and eventually came ou upon na inner courtyard.» Previsível, claro: aquele «eventually» passou a «eventualmente» na tradução. «Passámos por várias divisões fechadas, à medida que avançávamos por duas voltas apertadas, e, eventualmente, viemos dar a um pátio interior.» Como se compreende, quanto mais próxima da nossa a língua de partida, maior é o número de problemas relacionados com falsos cognatos. E o inglês, com cerca de metade do léxico, segundo alguns estudiosos, com etimologia latina, oferece muitas oportunidades para ocorrerem estes erros. Tenho um registo, do espanhol para português, de larguíssimas centenas de casos. Mas também há casos noutras línguas, como o italiano. «Ero preparata a tutta una serie di possibilità, ma quando sentii quella proposta rimasi senza parole.» Que o tradutor verteu assim: «Estava preparada para toda uma série de possibilidades, mas quando senti aquela proposta fiquei sem palavras.» O verbo italiano sentire tanto significa «sentir» como «ouvir».

Confusões jornalísticas

Imagem: http://ilhadamadeira.weblog.com.pt/
Ler pode fazer mal
      
      «Na última quarta-feira, o jovem foi com três primos, todos com idades entre os 15 e os 19 anos, colher uma planta de jardim conhecida como trombeteira, no lugarejo do Papagaio Verde, no Funchal […] Trombeteira. Nome popular: trombeta, trombeta-de-anjo, trombeteira, cartucheira, zabumba. Nome científico: Datura suaveolens L» («Chá de trombeteira mata miúdo», Rute Coelho, 24 Horas, 18.08.2006, p. 9).
      «Um jovem de 15 anos morreu quarta-feira na Madeira depois de ter ingerido, com mais três amigos, um chá de “erva-de-diabo”, uma planta com efeitos alucinogénios que existe em vários jardins da região. A planta, que tem o nome de beladona, já foi enviada para um laboratório em Lisboa para ser analisada, disse à Lusa fonte da Polícia Judiciária, que garantiu estar afastada a hipótese de crime» («Erva-do-diabo mata jovem de 15 anos», Diário de Notícias, 18.08.2006, p. 20). A imagem mostra uma fotografia da beladona e tem seguinte legenda: «Erva-do-diabo pode ser fatal, mas existe em muitos jardins».
     «Um rapaz de 15 anos morreu quarta-feira no Funchal, Madeira, depois de beber, com outros três jovens, um chá de ‘erva do diabo’, uma planta tóxica com efeitos alucinogénicos espalhada pelos jardins da Região» […] A legenda mostra uma imagem da datura e diz: «A ‘erva do diabo’, também conhecida por Beladona (foto ao lado), foi colhida pelos quatro rapazes na zona da praia Formosa (foto de cima), onde se terão deslocado quarta-feira de manhã para jogar futebol. Depois foram para casa onde prepararam a infusão mortal» («Chá fatal de ‘erva do diabo’», Antunes de Oliveira, Correio da Manhã, 18.08.2006, p. 9).
      «A planta que terá causado a morte do adolescente madeirense é a beladona (nome científica: atropa belladona L) que, explicou à Lusa Carlos Cavaleiro, professor da Faculdade de Farmácia de Coimbra, é frequente no Centro e Sul da Europa e em África» («Adolescente morre na Madeira depois de ingerir erva-do-diabo», Kathleen Gomes, Público, 18.08.2006, p. 22).
      Que o adolescente morreu não parece haver dúvidas. Os restantes adolescentes tanto podiam ser amigos como primos, podendo mesmo ser as duas coisas em simultâneo. A erva era a trombeteira ou a erva-do-diabo — os jornalistas não chegaram a acordo. O Correio da Manhã afirma que se trata, como vimos, da erva-do-diabo, mas a ilustrar o artigo está uma fotografia da datura (Datura suaveolens L). A edição online do Jornal da Madeira noticia que se trata da «“Brugmansia suaveolens”, “saia-branca”, “erva-do-diabo”, “trombeteira” e “figueira-do-inferno”, estes os nomes que são usados para identificar a planta que foi mortal para um dos quatro jovens que ingeriram chá desta flor» («Ingestão de trombeteira provoca alucinações», Carla Ribeiro, 18.08.2006). A ilustrar a notícia, uma fotografia da Datura suaveolens L, espécie que ilustra este texto.

Conceito de fileira

Vão falando

      Até há pouco tempo, o termo «fileira» só era utilizado nas publicações e suplementos económicos e em manuais de certas disciplinas. Creio até que é bem sintomático do carácter técnico do conceito o facto de a acepção ainda não ter chegado aos dicionários da língua, mesmo aos melhores, como o Dicionário Houaiss. Ainda assim, lá se vai insinuando em algumas notícias dos jornais generalistas: «Hoje produtores florestais e empresários da fileira florestal — cortiça, celulose e madeiras — reúnem-se em Leiria para debater o estado da floresta nacional e reclamar do Governo “um investimento eficaz” numa “gestão sustentável” deste recurso natural» (Diário de Notícias, 19.09.2005). Sempre que há uma comunidade de interesses em redor de um mercado específico, fala-se de «fileira». Assim, «fileira industrial», «fileira florestal», «fileira têxtil» são locuções relativamente comuns desde os anos 80. Para outros autores, a definição é um pouco diferente: «Fileira Florestal — Centrada no desenvolvimento e preservação da floresta, esta categoria compreende todas as actividades da cadeia de valor ligada à floresta, desde a biologia das espécies aos produtos acabados de alto valor acrescentado.»
      Sabendo isto, mais estranhei que no noticiário da Antena 1 das 19 horas de ontem se tivesse falado em «fileira industrial», sem mais nem menos. Apesar de tantos estudos, parece que não conhecem o público ouvinte. A rádio sempre foi e será o mais popular dos meios de comunicação. Passo pela Estefânia e lá está o sem-abrigo cujos únicos pertences são uns papelões-cobertores e um rádio. Aqui perto de casa, o guarda-nocturno de um lar passa a noite nas suas rondas a ouvir rádio. Na serra da Estrela, alguns pastores, isolados de tudo e de todos, entretêm-se a ouvir rádio. Eu sei que a rádio não é ouvida apenas por estas pessoas, mas elas serão a maioria, decerto. Falar-lhes de fileira, um conceito que nem os próprios jornalistas alcançam plenamente, parece-me pouco inteligente.

Plural de «tórax»

Assim ninguém se engana

      Prudentemente, os dicionários ignoram a questão do plural do vocábulo «tórax», como se ninguém tivesse necessidade de o usar. Mas não é bem assim. Tratava-se de uma tradução e, embora o tradutor tivesse confundido o abdómen com o tórax, a questão permanecia: «tóraxes», como ele escreveu, ou «tórax»? Como dizia a personagem principal, the idea might seem outlandish, mas importava dar-lhe solução. Há quase sempre forma de não dizermos aquilo que não é muito claro ao nosso espírito. Todavia, não devemos evitar, eludir, contornar todas as dificuldades. Alguns gramáticos preconizam que os vocábulos que terminam em -x se mantêm inalterados na passagem para o plural. Contudo, veja-se como toda a gente diz «os faxes» e não «os fax», ainda mais tolerável por se tratar de um neologismo. O mesmo se passa, aliás, com «tórax», que já ouvi alguém pluralizar em «tóraxes». Ora, a Base IX, n.º 2, a), do Acordo Ortográfico de 1990 preconiza:
      «As palavras paroxítonas que apresentam na sílaba tónica/tônica as vogais abertas grafadas a, e, o e ainda i ou u e que terminam em -l, -n, -r, -x e -ps, assim como, salvo raras exceções, as respetivas formas do plural, algumas das quais passam a proparoxítonas: amável (pl. amáveis), Aníbal, dócil (pl. dóceis) dúctil (pl. dúcteis), fóssil (pl. fósseis), réptil (pl. répteis; var. reptil, pl. reptis); cármen (pl. cármenes ou carmens; var. carme, pl. carmes); dólmen (pl. dólmenes ou dolmens), éden (pl. édenes ou edens), líquen (pl. líquenes), lúmen (pl. lúmenes ou lumens); açúcar (pl. açúcares), almíscar (pl. almíscares), cadáver (pl. cadáveres), caráter ou carácter (mas pl. carateres ou caracteres), ímpar (pl. ímpares); Ajax, córtex (pl. córtex; var. córtice, pl. córtices), índex (pl. index; var. índice, pl. índices), tórax (pl. tórax ou tóraxes; var. torace, pl. toraces); bíceps (pl. bíceps; var. bicípite, pl. bicípites), fórceps (pl. fórceps; var. fórcipe, pl. fórcipes)» (sublinhado meu).

Abuso do elemento mega-, outra vez

Megalomania

      O uso exagerado do elemento mega-, que já aqui referi, está a tomar proporções preocupantes. Claro que percebo que os jornalistas o prefiram, pela simplicidade, a outros boleios da frase. Não há muitos jornais que escapem a esta forma de escrever, que creio ser a mania do momento.
      «Agora, a empresa prepara uma mega-campanha na TV e na rádio, que reverterá ainda mais a seu favor a diabrura dos rebeldes geniozinhos», «Adolescentes britânicos criam toque de telemóvel para enganar os adultos», Sofia Jesus, Diário de Notícias, 2.07.2006, p. 17.
      «Mega-aliança GM-Renault-Nissan pode abrir perspectivas à fábrica da Azambuja», Público, 10.07.2006, p. 41.
      «A praia de Mira vai acolher hoje a primeira megafesta da comunidade gay na região centro», «Praia de Mira megafesta da comunidade ‘gay’», Diário de Notícias, 21.07.2006, p. 21.
      «Cabeçada de Zidane na final do Mundial inspira megaêxito músical [sic] do Verão em França», Ana Navarro Pedro, Público, 3.08.2006, p. 44.
      «Mega-rusga “varre” Centro», 24 Horas, 4.08.2006, p. 12.

Infinitivo pessoal

Mais contributos

      A pedido de vários leitores, continuo a abordar a questão do infinitivo pessoal ou flexionado. Neste texto trago o contributo da Prof.ª Helena Mateus Montenegro, de quem já aqui citei outra obra. Esta é uma recolha de textos publicados pela autora, professora auxiliar na Universidade dos Açores, na imprensa, tem 111 páginas e comprei-o na FNAC por 9 euros. Não é uma obra com pretensões académicas, a linguagem é clara e — característica sumamente apreciável — aduz sempre exemplos para cada afirmação. Recomendável.
      «O uso do infinitivo pessoal é reconhecido, em primeiro lugar, nas frases subordinadas finais, como no exemplo, Ler A Caverna é fundamental para compreendermos a sociedade contemporânea. A mesma frase poderia surgir com o infinitivo impessoal, tomando então um valor mais universal: Ler A Caverna é fundamental para compreender a sociedade contemporânea.
      Se se tornar redundante a especificação do sujeito permitida pelo infinitivo pessoal, poder-se-á optar pelo infinitivo impessoal: Lemos os jornais para passarmos o tempo., ou Lemos os jornais para passar o tempo.
      Outras estruturas frásicas recorrem também ao infinitivo pessoal, como sejam: frases subordinadas causais iniciadas pela preposição por (Por não terem lido a obra completa, os alunos não conseguiram responder a todas as perguntas.); frases subordinadas concessivas (Apesar de termos viajado para Atenas, não vimos a abertura dos Jogos Olímpicos.); frases subordinadas condicionais introduzidas pela preposição a (Ao visitares só alguns museus, visita o Louvre.) e frases subordinadas temporais (Ao viajarem para Atenas, os nossos amigos escolheram uma companhia segura.)» (Português para Todos. A Gramática na Comunicação, Helena Mateus Montenegro, João Azevedo Editor, Mirandela, 2005, pp. 75-76).


Infinitivo pessoal

Corrijam Camões

      Já aqui falei da doutrina de Soares Barbosa e de como ela se incrustou no cérebro de alguns gramáticos. Vejamos um exemplo d’Os Lusíadas que contraria essa regra prática. «Ó Neptuno, lhe disse, não te espantes/De Baco nos teus reinos receberes» (Os Lusíadas, VI, 15). Uma vez que Camões usou aqui um hipérbato, vamos lá pôr o verso por ordem lógica. Disse-lhe: Ó Neptuno, não te espantes de receberes Baco nos teus reinos. Camões pretendeu realçar inequivocamente o sujeito daquele «receberes», que é Neptuno e não Baco, e acautelar a interpretação, pois que o nome mais próximo da forma verbal é Baco. A própria figura de estilo obrigou ao uso do infinitivo pessoal. Soares Barbosa, como refere M. Said Ali na sua magnífica obra Dificuldades da Língua Portuguesa, considerou que Camões usou aqui indevidamente o infinitivo flexionado. Said Ali, por seu lado, demonstrou, curiosamente, que o verso de Camões estava duplamente certo segundo a teoria de Soares Barbosa: «1.º porque o infinitivo está regido de preposição e determina-se a pessoa; 2.º porque a regra primeira reza assim: Usa do pessoal 1.º quando o sujeito do verbo infinito he diifferente do do verbo finito, que determina a Linguagem infinita; ou póde haver equivocação sobre qual he o de quem se fala, ainda que seja o mesmo. Então esta Linguagem infinita para distincção dos dous sujeitos toma differentes terminações pessoaes, com as quaes se tira o equivoco. E mais adiante: E todo o caso é sempre para tirar qualquer equivocação ou incerteza que possa haver sobre se é ou não o mesmo sujeito de ambos os verbos

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