Infinitivo pessoal

Corrijam Camões

      Já aqui falei da doutrina de Soares Barbosa e de como ela se incrustou no cérebro de alguns gramáticos. Vejamos um exemplo d’Os Lusíadas que contraria essa regra prática. «Ó Neptuno, lhe disse, não te espantes/De Baco nos teus reinos receberes» (Os Lusíadas, VI, 15). Uma vez que Camões usou aqui um hipérbato, vamos lá pôr o verso por ordem lógica. Disse-lhe: Ó Neptuno, não te espantes de receberes Baco nos teus reinos. Camões pretendeu realçar inequivocamente o sujeito daquele «receberes», que é Neptuno e não Baco, e acautelar a interpretação, pois que o nome mais próximo da forma verbal é Baco. A própria figura de estilo obrigou ao uso do infinitivo pessoal. Soares Barbosa, como refere M. Said Ali na sua magnífica obra Dificuldades da Língua Portuguesa, considerou que Camões usou aqui indevidamente o infinitivo flexionado. Said Ali, por seu lado, demonstrou, curiosamente, que o verso de Camões estava duplamente certo segundo a teoria de Soares Barbosa: «1.º porque o infinitivo está regido de preposição e determina-se a pessoa; 2.º porque a regra primeira reza assim: Usa do pessoal 1.º quando o sujeito do verbo infinito he diifferente do do verbo finito, que determina a Linguagem infinita; ou póde haver equivocação sobre qual he o de quem se fala, ainda que seja o mesmo. Então esta Linguagem infinita para distincção dos dous sujeitos toma differentes terminações pessoaes, com as quaes se tira o equivoco. E mais adiante: E todo o caso é sempre para tirar qualquer equivocação ou incerteza que possa haver sobre se é ou não o mesmo sujeito de ambos os verbos

Concordância

Concordem lá

      Já percebi que os meus leitores não têm em grande conta os textos em que abordo a questão da concordância, qualquer que ela seja. Pois fazem mal: é a regra, ou conjunto de regras, que sofre mais transgressões. Há, bem entendido, e um dia escreverei aqui sobre a questão, vários tipos de concordância. Vamos ao exemplo de hoje. «Para tal, a estufa, no final do jardim que tem caminhos delimitados com pedras, vai ter um laboratório acessível aos olhos do público através de um grande vidro que deixa ver a enorme diversidade de lagartas que existem, nomeadamente as que dão origem às borboletas nocturnas» («Primeira estufa de borboletas nasce no jardim Botânico», Isaltina Padrão, Diário de Notícias, 14.08.2006, p. 19). Já sei, não contraponham: a jornalista, ao escrever a forma verbal, pensou em «lagartas» e não em «diversidade», o verdadeiro sujeito. Este erro é também muito comum em frases em que se usa o substantivo «tipo». As sociedades onde acontecem este tipo de fenómenos têm problemas de identidade. Ora, num caso como no outro, o verbo — regra canónica em português — deve concordar com o sujeito expresso («diversidade de lagartas» e «tipo de fenómenos»), que está no singular.

Adesão e aderência

Sinónimos mas não tanto

      Lembram-se do major pára-quedista na reserva José Moutinho, que participou na 1.ª Companhia da TVI? Eu também não, mas isso agora não interessa. Este ano é relações públicas da volta a Portugal. Ouçamo-lo: «O ciclismo é um desporto muito popular com uma grande aderência por parte da população, especialmente no Norte do País» («José Moutinho, relações públicas da Volta», Diário de Notícias, 9.08.2006, p. 28). O itálico — e esta é, ao que julgo, uma nova prática deste jornal — é do Diário de Notícias. Ora aí está uma questão que merece reflexão: deve o jornalista corrigir erros como este, assinalá-los ou não fazer nada? Não fazer nada, atitude a que estamos habituados, não aproveita a ninguém. Assinalá-los, como fez neste caso o jornalista do DN, serve somente para dar a entender (a quem compreender esta metalinguagem) que o erro é do autor da citação e não do jornalista. Quanto a corrigi-los, parece ser mais polémico e arriscado. Quais os limites, enveredando por esta prática, para a correcção? E como proceder se, em vez de se tratar da transcrição de uma gravação, estivermos perante um texto, eventualmente já publicado, e texto com erros, que temos de citar?
      Útil e corajoso seria o jornalista ter escrito: «O ciclismo é um desporto muito popular com uma grande aderência [adesão, na verdade] por parte da população, especialmente no Norte do País.»
      Para o título não ser totalmente enganador: adesão e aderência são vocábulos sinónimos e ambos procedem do latim. Todavia, o primeiro, que vem de adhesione-, aplica-se em especial ao acto de alguém aderir a uma ideia, a um partido, a uma iniciativa. A adesão da ex-mulher de Paul McCartney, Heather Mills, ao vegetarianismo parece ter sido um truque para casar com o ex-Beatle. O segundo, por sua vez, provém de adhaesione- e usa-se em relação a coisas. A aderência do papel à parede só à custa de muita cola se fez.

Tradução. Quão e quanto

Eu já vi isto

      De vez em quando, gosto de trazer aqui casos reais de traduções do espanhol feitas por quem nem sequer conhece bem o português. Isto é tudo tão previsível: quando se deviam desviar do espanhol, não o fazem; quando, pelo contrário, as regras são iguais, querem afastar-se do espanhol. Vejamos este caso.
      «A pesar de esta simplicidad de estilo y de su técnica severa, sin ninguna concesión amable, ¡cuánta belleza, cuán noble dignidad!» O tradutor, pois claro, tentou dar uma voltinha à frase, para soar a lídimo português: «Apesar desta simplicidade de estilo e da sua severa técnica, sem nenhuma concessão amável, quanta beleza, quanta nobre dignidade!» Azar o dele — e o nosso, que o corrigimos ou lemos. Aqui, quem não sabe?, deveria ter seguido o espanhol, que o mesmo é dizer o português, que nisto são línguas irmãs, e escrito «quão nobre», pois que se trata de um advérbio de intensidade seguido de um adjectivo. Junto de um substantivo seria, nesse caso sim, «quanto», com função adjectival e, logo, variável.

Citação

As espécies de professores

«O professor medíocre, que diz, o bom professor, que explica, o professor superior, que demonstra, e o grande professor, que inspira.»

[The mediocre teacher tells. The good teacher explains. The superior teacher demonstrates. The great teacher inspires.]

William Arthur Ward (1921–1994)

(Apud «Medíocres, bons, superiores e grandes professores», Rui Baptista, Público, 5.08.2005, p. 8)

Livro de estilo da SIC

Pergunte com mais jeitinho…

      No Jornal da Noite da SIC, de ontem, dois repórteres, em duas reportagens diferentes, usaram de uma forma pouco delicada e clara — e pelos vistos em voga na estação — de fazer uma pergunta. Por três vezes, após o entrevistado fazer qualquer afirmação, o repórter inquiria: «Porque?...» O que pode revelar muito poder de síntese e acutilância entre amigos (e inimigos), mas pouco cuidado no âmbito profissional e da comunicação social.

Pronúncia de Gotemburgo

Irmãs desavindas

      Na Antena 1, já se ouve o topónimo Gotemburgo correctamente pronunciado: /Gutemburgo/. Na RTP1, pelo contrário, ainda se pronuncia com o aberto: /Gotemburgo/. A informação ainda não circula bem por aqueles corredores. Esperemos que as coisas melhorem.

Serra d’Ossa, outra vez

Gregos e alentejanos

      «O nome desta famosa serra — d’Ossa —, que segundo as crónicas provém dos Essénios ou Ósseos, remete para a Ursa cuja patronidade proto-histórica como eventual referência religiosa de contornos druídicos parece muito provável (e não só aqui). Do ponto de vista da geografia sagrada assinale-se, porém, a existência de duas montanhas com o mesmo nome (Ossa) na Grécia» (Lugares Mágicos de Portugal, volume VI, «Enigmas», Paulo Pereira, Círculo de Leitores, 2005, p. 177).

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