Artigo em nomes de localidades

Hum…

      José Rodrigues dos Santos, no Telejornal de ontem, a propósito do incêndio na serra d’Ossa, dizia «em Redondo». Ora, a verdade é que os naturais, os redondeiros, não dizem assim, usam o artigo: o Redondo, no Redondo, vou ao Redondo. As gramáticas, é verdade, não abordam esta questão, mas a língua não está apenas nos dicionários e nas gramáticas. Regra prática, há-a: se o nome da localidade é simultaneamente um substantivo comum, então o nome da localidade tem o género desse substantivo comum: a amadora/a Amadora; a amieira/a Amieira; a azenha/as Azenhas do Mar; a fajã/a Fajã (da Ovelha/de Baixo/de Cima); a figueira/a Figueira da Foz; a foz/a Foz do Arelho; a gafanha/a Gafanha; a glória/a Glória; a guarda/a Guarda; a igrejinha/a Igrejinha; a lixa/a Lixa; a marinha/a Marinha Grande; a meda/a Mêda; a moita/a Moita; a parede/a Parede; a pontinha/a Pontinha; a portela/a Portela; a régua/a Régua; a sertã/a Sertã; o alandroal/o Alandroal; o arco/os Arcos; o barreiro/o Barreiro; o cartaxo/o Cartaxo; o entroncamento/o Entroncamento; o fogueteiro/o Fogueteiro; o fundão/o Fundão; o pinhal/o Pinhal Novo; o pinhão/o Pinhão; o porto/o Porto; o pragal/o Pragal; o sabugal/o Sabugal; o tramagal/o Tramagal; etc. Se, pelo contrário, o nome da localidade não corresponder a um nome comum, então a tendência é para não atribuir género. Mas há excepções, ainda assim: a Amareleja, a Azaruja, a Benedita, a Covilhã (mas existe covilhão, uma espécie de urze), a Golegã, a Lourinhã, a Malcata, a Nazaré, a Trofa, o Crato, o Gerês, o Montijo (embora exista o substantivo comum montijo, ponho algumas reservas, pois é somente um regionalismo alentejano) e outros, que não correspondem a nomes comuns.
      E já que referi a serra d’Ossa, devo referir o lapso de Conceição Lino, no Jornal da Noite (SIC) de anteontem: depois de ter dito que esta serra se situava no Baixo Alentejo e de, minutos depois (e alguns telefonemas de protesto, aposto), ter corrigido a informação, disse «a serra da Ossa». Apesar de envolto em algumas brumas, «Ossa» não corresponde a nenhum nome comum, e toda a gente diz e escreve «serra d’Ossa». «Fogo na serra d’Ossa fez ontem cinco feridos», titulava o Diário de Notícias (11.08.2006, p. 19).

Crise humanitária?

Nem pensar

      Nem o Diário de Notícias escapa a este disparate: «Crise humanitária agrava-se no Líbano» (Susana Salvador, 11.08.2006, p. 15). Consultem num dicionário a entrada respectiva: «humanitário adj.s.m. (1858) 1 que ou aquele que se dedica a promover o bem-estar do homem e o avanço das reformas sociais; filantropo. ETIM fr. humanitaire (1835) ‘que diz respeito à humanidade, que vem em auxílio às necessidades dos homens’» (Dicionário Houaiss). É óbvio que o vocábulo apenas se pode utilizar em expressões que qualifiquem acções benéficas, positivas: ajuda humanitária, corredor humanitário, intervenção humanitária, missão humanitária das ONG, trabalhador humanitário, etc. De contrário, a semântica de cada um dos termos é de sinal oposto. Assim, pode soar mal (para ouvidos habituados ao erro), mas o correcto é «crise humana agrava-se no Líbano» ou tão-somente «crise agrava-se no Líbano».
 

Publicidade I

Latim macarrónico

      Os ebrifestivos anúncios da cerveja Abadia lá andam novamente a estropiar o latim e a nossa paciência por esse país fora. Sejamos claros: está tudo errado. O pior mesmo é que reincidem com um anúncio completamente errado e para o qual alguém — não eu, porque nessa altura este blogue ainda não existia ou eu não estava atento — sugeriu entretanto correcções, pelo que não se aplica o brocardo non bis in idem. De facto, escrever «sapore autenticum est» é um enorme dislate. «Sapor authenticus est» deveriam ter escrito. «Receitae artesanalis» é um disparate ainda maior, pois nem uma palavra nem outra existem em latim, e receitae está declinada num caso que não se adequa ao que se pretende. Mas isto eles também não sabem. A recepta latina tem outro significado. Talvez ex praecepto coquinario traditionis («a partir de receita culinária da tradição», à letra) expressasse esse conceito. Noutro anúncio, lê-se: «Sapore sublimis». Mas sapor não tem e final, como já vimos.
      A UNICER não pode ignorar que se fizeram críticas fundamentadas aos anúncios, mas nem assim exigiu que a agência emendasse. Passados uns meses, volta à carga com os mesmos anúncios e outros igualmente errados. O público-alvo (no qual não me incluo: não gosto de cerveja; prefiro um tinto alentejano, por exemplo) pode não se importar, mas não deixa de ser uma falta de respeito escrever estas trapalhadas e propiná-las ao público. Contratem quem saiba latim, não sejam gananciosos.

Publicidade II

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Português macarrónico


      Nos mupis, lê-se no anúncio ao vinho Gazela: «Saboreia o lado da vida que mais gostas». O verbo gostar pede a preposição de: de que gostas. Quem gosta, gosta de alguma coisa, ou não? Mas afinal quem é que está a escrever nestas agências? Criancinhas de 7 anos ou licenciados em Marketing e cursos quejandos? Tenham dó. Contratem revisores, não sejam gananciosos.


Gramática e lógica

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A sério?

      A gramática estrutura, como se sabe, as frases, mas não se substitui a uma lógica externa. O Independente foi ouvir Josefina Castro, directora-adjunta da Escola de Criminologia da Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Depois de citar a directora-adjunta — «Não vamos formar polícias» —, escreve o jornalista João Francisco: «Combater os efeitos fantasiosos de séries televisivas como “CSI” ou outras é um dos propósitos daquela escola e da própria licenciatura» («Porto forma especialistas em Criminologia», O Independente, 4.08.2006, p. 12). Imagino a devastação moral provocada pela série CSI por esse país fora, o desperdício de fantasia. Pois eu vejo as coisas ao contrário: por causa de séries televisivas como CSI, da sua fantasia, se quiserem, os candidatos ultrapassaram em muito as vagas para este curso. Desmentir que na realidade o processo de investigação seja como se vê na série não deve erigir-se em missão da escola. Disparate. Aliás, a fantasia é mesmo a única coisa boa para quem daqui a quatro anos tiver a licenciatura em Criminologia e for trabalhar com crianças e jovens meigos como aqueles que assassinaram Gisberta.

Citação

Língua lúdica

      «Manuel Monteiro tem um partido pequenino, de peluche. Nem lá cabe quem o prefira de “pelúcia”, porque tal constituiria fraccionismo e o partido (ao qual a direita voyeuse ainda atribui 0,3%) não tem dimensão que comporte divergências» («Trufas e “Don Pérignon”», Nuno Brederode Santos, Diário de Notícias, 6.08.2006, p. 48).

Léxico: cantautor

As palavras dos outros

      De vez em quando, vão-se insinuando por entre as linhas umas palavrinhas que não são nossas. «Cantautor», que eu conheço há muitos anos, quando comecei a ouvir música espanhola de Joaquín Sabina e outros, é uma delas. Já a tinha lido no Público, recentemente. «Em Setembro há o regresso do cantautor da depressão esquecida numa rumba parola. JP Simões vem com menos veneno, uma lucidez rara e sambas mais pessoais que patriotas» (Público/Y, 26.05.2006, João Bonifácio, p. 39). E agora no Diário de Notícias: «Espectáculo inédito nas serenas noites da Vila Malaspina, entre colinas de recorte suave, foi o de cerca duma dúzia de carabinieri, dispostos aos pares, no exterior e no interior do pátio de acesso livre, antes e durante a actuação da banda israelita do famoso cantautor Hanan Yovel, que se acompanha à guitarra acústica, sendo também acompanhado pela voz da filha, Shira Yovel, e por outros três instrumentistas, na guitarra eléctrica, nas teclas e na percussão» («A guerra a ecoar entre músicas do mundo na Toscânia [sic]», Elisabete França, 6.08.2006, p. 38).
      Talvez nos faça falta, pois expressa um conceito complexo como nenhuma palavra portuguesa equivalente.

«Cantautor, ra. m. y f. Cantante, por lo común solista, que suele ser autor de sus propias composiciones, en las que prevalece sobre la música un mensaje de intención crítica o poética» (Diccionario de la Real Academia Española).

Uso das aspas

Ser ou não ser

      «Na época trabalha por sua conta e risco, intermediando negócios e actuando no mercado de capitais, por vezes como testa-de-ferro de terceiros» («Jorge de Brito. O empresário que Marcelo apoiou», Cristina Ferreira, Público, 3.08.2006, p. 35). Afinal, Jorge de Brito foi mesmo testa-de-ferro ou não? Se foi, as aspas estão a mais; se não foi, estão as aspas e a palavra: a jornalista deveria então escolher o termo que julgava adequado. É pecha comum entre os jornalistas, esta de usar as aspas em situações que as não requerem.

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