Habitação operária: ilhas e vilas

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De Roma para Portugal

      «Este método, que explica a sobreposição de algumas vielas do centro histórico, usava-se para as insulae, os blocos de casas da época, que podiam chegar a ter oito pisos, e para os edifícios mais imponentes, como o Domus Aurea de Nero, uma ruína grandiosa, sepultada e coberta pelas Termas de Trajano, que de algum modo desencadeou o primeiro renascimento do interesse pela Roma subterrânea» («Roma Secreta», Luca Villoresi, National Geographic, Julho de 2006, p. 40).
      Há realidades que pouco mudam, e até as palavras são as mesmas: a habitação do operariado industrial da cidade do Porto são, lembremo-nos, as ilhas (em 1899, 30% da população da cidade morava em ilhas, e em 1939, existiam 14 mil ilhas, albergando 20% da população, segundo este estudo). Como em Lisboa são, e há lisboetas que ignoram este facto, as vilas, que em 1979 estavam contabilizadas em 350, segundo este estudo.

Ilha, s. f. Termo do Porto. Pátio, cercado de vivendas pobres. (Grande Dicionário da Língua Portuguesa)
Vila, s. f. Conjunto de casas pequenas, geralmente iguais, dispostas ao longo de um corredor ou à roda de um área que comunica com a rua. (Grande Dicionário da Língua Portuguesa)

Léxico: gomásio

Língua epicúria

      Gomásio, cara Joana Dias, não é uma palavra portuguesa, mas japonesa, e derivada por aglutinação: gomashio (goma, sésamo; shio, sal). Tenho à minha frente a 3.ª edição, de 1972, do Japanese-English Dictionary The New Crown, e de facto somente estão dicionarizadas as palavras goma e shio. Talvez as novas edições já registem a palavra gomashio. Claro que se adapta que nem uma luva de pelica ao léxico português. Não que haja muitos vocábulos terminados em -ásio, valha a verdade. Anota aí, Gervásio: amásio, anatásio, australásio, básio, crisoprásio, diabásio, eurásio, ginásio, idocrásio, malásio, oligoclásio, ortoclásio, prásio e tásio. Quase tantos, na verdade, como em -ázio: armázio, balmázio, balázio, calmázio, capatázio, contrapinázio, copázio, durázio, folhetázio, gatázio, gázio, golpázio, mourázio, panázio, papelázio, pinázio, tirázio, topázio, torcázio e trompázio.
      O gomásio é, como sabe, um óptimo substituto do sal, que pode ser utilizado em saladas, sopas, estufados e outros pratos. É igualmente saboroso para polvilhar em pratos de arroz, massa, empadões e outros pratos de ir ao forno. São os alimentos da globalização...

DNA e ADN

Distracção ou convicção?

      «É esta a conclusão de a [sic] uma análise de DNA divulgada ontem por José Antonio Lorente, responsável por uma investigação científica aos restos mortais do célebre genovês» («Análise de DNA confirma que Colombo jaz em Sevilha», Diário de Notícias, 2.08.2006, p. 31).
      «É isso que indicam os resultados das análises de ADN realizadas no âmbito da investigação coordenada por José Antonio Lorente, director do laboratório de investigação genética espanhol» («Análises de ADN confirmam que são de Colombo os ossos sepultados em Sevilha», Isabel Gorjão Santos, Público, 2.08.2006, p. 44).
      Defendo, e defende quem se interessa pela defesa da língua, a sigla ADN, correspondendo a Ácido DesoxirriboNucleico. Já basta que tenhamos esquecido que deveria ser OTAN e não NATO.


Gramática, lógica e manadas

Ora tente explicar melhor

      «Ao fim de 11 dias após José Miguel Júdice ter dito que o relator dos seus processos disciplinares, o advogado Alberto Jorge Silva, não tinha “condições éticas, jurídicas e psicológicas para julgar nem uma manada, quanto mais advogados”, o bastonário, Rogério Alves, ainda não compreendeu “o que a expressão quer dizer”, sublinhando que a mesma foi proferida num “contexto emotivo e bastante duro”» («Bastonário ainda não sabe o que quer dizer “manada”», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 2.08.2006, p. 18).
      Senhor jornalista: «ao fim de 11 dias após» parece-me pleonástico. Ora experimente: «Ao fim de 11 dias de José Miguel Júdice […]. Ou: «Onze dias após José Miguel Júdice […].» Senhor bastonário: manada* é um agrupamento de gado graúdo, como búfalos, elefantes, cavalos, bois, rinocerontes, etc. Por outro lado, ter sido proferida num “contexto emotivo e bastante duro” explica que a não tenha compreendido? Ou dizê-lo não revelará, afinal, incoerentemente, que compreendeu perfeitamente o que significa? Não vejo lógica na afirmação. Recordo as palavras de Camilo a propósito de um poeta: «No auge da aflição, erra os versos.»
      Finalmente, a mesma notícia no Público não saiu mais escorreita, e já todos ansiamos pela anunciada remodelação gráfica e editorial: «[…] Rogério Alves afirmou tratarem-se de declarações “feitas a quente, sob forte pressão emocional”» («Ordem dos Advogados não quer mais polémica», Renato Teixeira, Público, 2.08.2006, p. 11). O verbo tratar-se, pronominal, já aqui o escrevi mais do que uma vez, é um verbo defectivo e impessoal. Conjuga-se sempre, e apenas, na 3.ª pessoa do singular.

* Parece que em toda a Internet não há um glossário de nomes colectivos completo. Já estou a tratar disso.

Caná, Canaã, Qana

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Confusões bíblicas

      Ontem, um leitor (peixeiro?) deixou-me aqui a pergunta: «Qaná, Caná e Canaã também mereciam uma posta, ou não?» Merecem, pois, que a confusão já é muita.
      «Sobreviventes das famílias Hasham e Shalhoub, que procuraram abrigo na cave de um edifício em Qana, Sul do Líbano, começaram ontem a contar o seu drama, depois de um ataque israelita que causou mais de 50 mortos, 37 dos quais crianças» (Qana. O drama de duas famílias», Maria João Guimarães, Público, 1.08.2006, p. 2).
      «A União Europeia aumentará hoje a pressão para o fim das hostilidades no Líbano, ainda sob o choque do ataque israelita à aldeia de Caná, que provocou 56 mortos, incluindo 37 crianças» («UE pedirá cessar-fogo imediato no Líbano», Fernando de Sousa, Diário de Notícias, 1.08.2006, p. 12).
A restante imprensa regula pelo mesmo: ora Caná ora Qana. Para agravar, ainda nos vêm falar de Canaã.
      Bem, pese embora as diferenças — 50 mortos, num caso, 56, no outro —, parece tratar-se da mesmíssima قانا‎, a 10 quilómetros de Tiro e a 12 da fronteira com Israel. Não me choca nada que se escreva «Qana», porque afinal também se escreve «Qatar» — algum jarreta que propusesse «Catar» seria sumariamente julgado e executado. «Qana» é a grafia preferida dos anglo-saxónicos: «Displaced families had been sheltering in the basement of a house in Qana, which was crushed after a direct hit» (BBC). Contudo, essa é que é essa, قانا‎ é a Caná, o Lugar dos Juncos da Bíblia, terra natal de Natanael e a povoação do primeiro milagre de Jesus: transformar água em vinho, durante uma boda (Jo 2,1-11).
Quanto a Canaã, finalmente, não sei porque é que o meu leitor a põe a par das outras duas. A também bíblica Canaã* ou Canã, כנען em hebraico (baixo, plano), não é uma localidade, mas um território situado entre a Síria e o Egipto, no qual se estabeleceram os Israelitas.

* Citei aqui recentemente a obra Dificuldades da Língua Portuguesa, do filólogo M. Said Ali. Este longo extracto é da mesma obra: «Assam, Annam, Siam e nomes asiáticos em -ão. Raríssimos nomes geográficos da Ásia escrevemos, sem hesitar, com -ão final: Japão, Cantão, Damão, Ceilão, Jordão, Hindostão. Daí por diante começa a incerteza ou a grafia decididamente diversa. Já ao lado de Hindostão (devera ser Hindostan) temos a península do Dekhan, que não nos decidimos a escrever “Decão”. Conservamos o nome bíblico Jordão, mas com flagrante incoerência, desde que, por outro lado, preferimos a forma Canaã a Canão, que Gil Vicente rimava com “perfeição” e “conjunção”. O nome Cantão, que se dá a uma cidade da China, tem uma história bem curiosa. É um ajeitamento aceito na Europa (salvo novos ajeitamentos: Canton, Kanton), que acudiu aos Portugueses para o termo chinês Kuang-tung (= “Largo Oriente”), nome não da própria cidade, mas da província costeira de que é capital e porto. A cidade chamam-lhe os Chins Kuang-tchu-fu» (p. 156, ortografia actualizada por mim).

Língua por decreto

Da Pérsia ao Irão, o puro

      Com a devida vénia, reproduzo aqui uma notícia do Público («Ahmadinejad não quer palavras estrangeiras», 1.08.2006, p. 14): «O Presidente ultraconservador do Irão, Mahmoud Ahmadinejad, ordenou que não sejam usadas palavras estrangeiras, para “promover a pureza” do farsi na administração pública. A Academia de Linguagem Persa tem agora a tarefa de pôr em farsi os estrangeirismos mais usados (com excepção dos árabes, que são tolerados). Esta não é uma tarefa nova: a academia transformou já no passado algumas palavras, por exemplo “helicopter” e “mobile phone”, em qualquer coisa como “asas rotativas” e “telefone de companhia”. Um programa popular de televisão já deu uma ajuda para a tarefa, propondo o termo “pão elástico” para substituir “pizza”.»

Léxico: miscelo

Dúvidas

      Este blogue não é só feito de certezas. Algum dos meus leitores conhece a palavra «miscelo»? A jornalista do Jornal de Notícias não a explica: «Outro problema [dos cogumelos] prende-se com a agricultura. Quando os castanheiros são muito lavrados, vão destruir-se os miscelos. Pelo que é urgente que os agricultores adoptem medidas de tratamento mais adequadas» («Riqueza dos cogumelos ainda é pouco explorada», Glória Lopes, 25.07.2006, p. 30). Não a vejo registada em nenhum dicionário. Será o Tragopogon miscellus, aportuguesado pelo entrevistado? Quem usou a palavra foi Francisco Martins, o presidente da Associação Micológica A Pantorra, com sede em Mogadouro. É pena alguns jornalistas não serem muito dados a perplexidades desta natureza nem adivinharem as dos demais.

Ortografia: «T-shirt»

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Camisa-tê

      Pode ser um excesso de precaução, mas quando tenho dúvidas sobre a ortografia de uma palavra inglesa, recorro a um dicionário de língua inglesa. Ah, pois. Não parece ser isso que fazem os nossos jornalistas. Vejamos.
      «E há estilistas a desenharem peças, como Rafaela Monteiro que criou três vestidos para a colecção Primavera/Verão, ou o designer Sylvio de Oliveira que assina grande parte das t-shirts» («Marca de roupa de prostitutas é fenómeno cultural no Brasil», Dulce Furtado, Público, 24.07.2006, p. 44).
«Depois de esta semana seis jornalistas terem sido impedidos de entrar no local por estarem vestidos de T-shirts, o regulamento promete zelar pelo “prestígio da instituição”» («Madeira. Parlamento cria regras contra ‘T-shirt?», Diário de Notícias, 20.07.2006, p. 7).
      O mais parecido que temos é a nossa «régua-tê», porque em forma de tê. Como a shirt não é nossa, não apenas não lhe pospomos a forma, claro, como também não a devemos estropiar, como se fez no exemplo do Público (e sempre assim se escreve neste jornal esta palavra). Aliás, na frase, a jornalista deveria ter ficado satisfeita com o estropiamento da pontuação. A forma do tê maiúsculo sugere mais o formato da referida peça de roupa do que o minúsculo, pensou-se, e os bons dicionários expressam-no: «T-shirt noun an informal shirt with short sleeves and no buttons, or just a few buttons at the top» (Oxford Advanced Learner’s Dictionary)*.

«T-shirt [ing.] s. f. (1920) VEST camisola curta de malha, com ou sem mangas. ETIM ing. T-shirt (1920) ‘camisola, geralmente de algodão, sem gola e de mangas curtas (ou inexistentes)’, do ing. T ou tee (notação da pronúncia da letra T em ing.), em alusão à forma de T da camisola, + shirt, ‘camisa’» (Dicionário Houaiss).

«t-shirt s. f. (Ingl.). Peça de vestuário em algodão que cobre o tronco, sem colarinho, de manga curta e cuja forma lembra um T. Ela comprou uma t-shirt com motivos marítimos para vestir com as calças azuis. «Nas ruas, as inúmeras tendas que comercializam ‘t-shirts’, bonés […] e bebidas estão praticamente desertas» (Expresso, 27.07.1996)» (Dicionário da Academia).

* No mesmo dicionário: «T-square noun a plastic or metal instrument in the shape of a T for drawing or measuring right angles (=90º).»

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