Jornais. Tradução

Don’t count on it, Público

      «O Líbano reclama o território, mas Israel argumenta que é com a Síria que as Shebaa Farms devem ser negociadas», «O Partido de Deus e o Estado hebraico», Público, 13.07.2006, p. 15.

      «Quintas de Shebaa. Ocupada por Israel em 1967, esta região agrícola situada entre a Síria e o Líbano tem sido motivo de polémica. Apesar da retirada israelita do Sul do Líbano, em 2000, o Estado hebraico recusou entregar as Quintas de Shebaa ao Líbano, que as reclamam [sic] como suas, afirmando tratar-se de território sírio. Damasco, por seu lado, afirmou que a região pertence ao Líbano. O impasse mantém-se», «Líbano de A a Z. Dos fenícios à Revolução do Cedro», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 19.07.2006, p. 4.

Divisão de palavras

Ir-ra!

      Em parangonas, a perfumada e policroma revista Lux Woman de Julho, num texto (pág. 116) da editora de Beleza Anett Bohme assistida por Inês Correia, titulava: «I-rre-sis-tí-veis!» A divisão de palavras faz-se, como se sabe, fundamentalmente por soletração — mas há algumas regras. Para o caso, o que interessa é que as consoantes dobradas — cc, mm, nn, rr, ss — se separam obrigatoriamente. Para quem não tem tempo nem paciência para interpretar regras, aconselho o Míni Aurélio, que na respectiva entrada regista: «ir.re.sis.tí.vel adj2g. A que não se pode resistir [Pl.: -veis]». A minha edição, a 6.ª, revista e actualizada, com 895 páginas muito manuseáveis, custou-me recentemente, salvo erro, 8 euros na FNAC. A revista Lux Woman custa 3 euros...

Elemento de composição «recém»

Só uma coisinha

      Eu avisei: se se justificasse, voltaria durante as férias. Ora aqui está um bom motivo. «Desde o nascimento tem sido impossível chegar à fala com os recém-papás [,] mas os amigos garantem ao 24horas que correu tudo bem e que a família já está toda reunida em casa, a curtir o menino» («“Já nasceu. O puto é giro”», Vânia Custódio, 24 Horas, 24.07.2006, p. 8). O registo é informalíssimo, de mesa de café, pouco adequado, parece-me, a uma notícia, mas não tenho tempo para adentrar mais nessas apreciações. O que me interessa, já adivinharam, é aquele «recém-papás». Recém é um elemento de composição que só se usa, por mais informal que seja a linguagem, com adjectivo: recém-casado, recém-nascido, recém-licenciado, recém-nomeado, etc. Com um substantivo, jamais. A jornalista deveria ter usado o adjectivo ou o advérbio da mesma família: recente, recentemente.

Pronúncia: Sever

Imagem: http://www.rtp.pt/
Silabadas

      O programa Passeio Público, da Antena 1, foi hoje transmitido a partir da vila alentejana de Marvão. A jornalista Paula Castelar, ao entrevistar uma natural da vila, pronunciou Sever com o segundo e fechado: /Sevêr/. Subtilmente, a entrevistada corrigiu, afirmando que parecia que Paula Castelar tinha adivinhado, pois uma lenda sobre a origem do nome «Sever» refere que um cavaleiro teria dito a umas senhoras que precisavam de se refrescar e compor que perto havia um rio em que «era bom de se ver».
      Parece haver uma grande tendência para pronunciar mal topónimos, como já aqui tenho referido: rio Sabor, Estremoz, Sátão… O que denota não apenas falta de atenção — basta estar atento à forma como os naturais pronunciam —, mas também de cultura.

Alcorão, alcorânico

Coerência

      Se o Diário de Notícias escreve, e bem, «Alcorão», tem de escrever, em coerência, «alcorânico». «Estas afirmações confirmam a suspeita da polícia britânica, que logo após identificar os autores dos atentados percebeu que dois deles tinham passado pelo Paquistão e contactado com madrassas* (escolas corânicas)», «Rede da al-Qaeda treinou dois dos terroristas de Londres», Luís Naves, 9.07.2006, p. 13.

* Há quem defenda a grafia «madraça», mas a verdade é que apenas vejo nos dicionários que tenho, e são alguns, «madraçal». Do árabe مدرسة. O plural de madrassa é madaris.

Léxico: «asnático»

Imagem: http://www.sallymaxwellsart.com/
Salvo o devido respeito

      Um dia, elogiei aqui os juízes por darem algum uso a palavras tão incomuns e poéticas como «oblívio». Não era, juro, ironia, como também agora falo a sério ao elogiar o juiz Joel Timóteo, do tribunal de Santa Maria da Feira, por arejar um vocábulo tão solidamente insultuoso como «asnático». Foi desta forma, recordo, que este magistrado adjectivou um argumento apresentado pelo advogado João Castro Baptista ao requerer a abertura de um inquérito («No que se refere à invocada falta de aplicação analógica do artigo 796.º, n.º 3 do CPC, salvo o devido respeito, tal argumento é asnático […]».) O advogado sentiu-se, como era de esperar, ofendido e fez queixa ao Conselho Superior da Magistratura (CSM), que arquivou o caso porque o juiz pediu entretanto desculpas. Por sua vez, o presidente do Conselho Distrital da Ordem dos Advogados questionou-se se agora também se pode chamar asnáticos aos argumentos do CSM.

Asnático, adj. Próprio de asno ou burro; asnal.│Estúpido, tolo, idiota.


Rotinados?

Disse «arroteados»?

      «Os magistrados portugueses ainda estão pouco rotinados com a Internet, numa altura em que se começa a discutir a desmaterialização dos processos e o seu suporte exclusivamente digital» («Um sexto dos magistrados nunca enviou e-mails», Público, 13.07.2006, p. 11).
      É bem verdade que os jornais também são laboratórios de experimentação linguística, mas tem de se ter sensatez e perceber se é mesmo necessário criar uma palavra. Não vou dizer que nunca antes tinha ouvido — mas nunca lido — a palavra «rotinado». O Dicionário Houaiss, por exemplo, regista o verbo «rotinizar», o que daria «rotinizado», tão desnecessário como «rotinado». Em relação à oralidade, mais espontânea, livre, improvisada, temos de ser mais tolerantes, tanto mais que quase nada do que se diz passa à escrita. O pior mesmo é quando passa: «No lançamento oficial do DVD, realizado recentemente em Lisboa, a actriz protagonista e que se tornou célebre com este filme [O Crime do Padre Amaro], Soraia Chaves, disse aos jornalistas que esta edição em DVD “é um colmatar de um ano de trabalho dedicado a este projecto”, desde o início das filmagens, passando pelo lançamento do filme e pela sua exibição em formato de série na televisão» («Soraia Chaves apresentou o DVD de “O Crime do Padre Amaro”, o maior êxito do cinema português», Nuno Cunha, Dica da Semana, 20.07.2006, p. 29). Quanta fidelidade do jornalista...

Aquando de e quando de

Olhe que não

      «Apesar de quando do lançamento de “La possibilité d’une île” (“A Possibilidade de Uma Ilha”) em França, em Setembro de 2005, termos falado aqui do blogue de Michel Houellebecq e da agitação que o lançamento do seu romance estava a provocar na “rentrée” francesa, vale a pena voltar a ir ver, agora, os “sites” do escritor» («Socorro, ele está de regresso!», Isabel Coutinho, «Ciberescritas», Público/Mil Folhas, 15.07.2006, p. 5).
      Apesar de alguns estudiosos da língua afirmarem que a conjunção «quando» não existe seguida da preposição «de», o Dicionário Houaiss e mesmo o Dicionário de Academia registam o contrário. E, o que é mais importante, alguns estudiosos cujas opiniões sigo quase incondicionalmente — como José Neves Henriques — também o defendem. Nesta frase de Isabel Coutinho, o que nos fere um pouco o ouvido é aquela sucessão: «apesar de» + «quando do». Pelo menos em termos eufónicos, a frase ganharia muito se tivesse sido redigida, por exemplo, como segue: «Apesar de, por ocasião do lançamento de […].»

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