Publicidade, uso do latim

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Sanum per aqua?

      Lembram-se da campanha publicitária da cerveja Abadia — pretensamente em latim? Lembram-se então do «sapore autenticum est»? É bom que não se lembrem. Desta vez, os publicitários — apesar de a frase circular por aí correcta — voltaram a usar latim macarrónico, sem necessidade. Sendo, como consabidamente é, uma área que movimenta milhões, não sei porque não contratam especialistas em latim. Pelo menos de latim, já que de português estamos conversados.
      A preposição latina per é construída unicamente com acusativo (accusatiuus casus). Se pretendem argumentar que «aqua» é um ablativo de meio, vai ser preciso mais do que uma garrafa de água para se obliterar da minha memória a preposição per. Logo, escrevam «sanum per aquam», «a saúde pela (através da, por meio da, por causa da) água» e esqueçam o que viram em certos sites e nas campanhas de estâncias termais pela Europa fora, sim?
      Como complemento, deixo aqui algumas preposições latinas e os casos que regem (mas não deixem de contratar o especialista).
      Acusativo: ad, adversus, ante, apud, circa, circum, cis, citra, contra, contra, erga, extra, infra, inter, intra, iuxta, ob, penes, per, post, praeter, prope, propter, secundum, supra, trans, ultra, versus. Ablativo: a (ab, abs), coram, cum, de, e (ex), pro, sine, tenus. Acusativo ou ablativo: in, sub, super.

Brandeburgo ou Brandenburgo?

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Decidam-se

      «Centenas de milhares de pessoas concentraram-se no centro da cidade de Berlim, na Rua 17 de Junho, em frente da Porta de Brandeburgo, até a festa acabar» (Diário de Notícias, 16.07.2006, p. 40). A verdade é que na imprensa portuguesa ora se lê «Brandeburgo» ora «Brandenburgo». «A Porta de Brandenburgo é um verdadeiro símbolo da cidade e seu cartão de visita. Construída entre 1788 e 1791, é a única porta que resta de entrada na cidade» («Berlim», Ana Luzia Raposo, Expresso/Única, 27.05.2006, p. 108). Em alemão, de facto, é «Brandenburger Tor». Logo, talvez devêssemos todos seguir o exemplo do Expresso. Todavia, pensando bem, tratando-se de aportuguesamento, não podemos ficar a meio: antes de uma bilabial, como b, temos de ter uma nasal como m e não uma dental, n. Escreva-se, então, Brandemburgo ou Brandenburg.

Calendário islâmico. Hégira

Nem só o Ramadão

      Caro L. Pinto, para além do Ramadão (رَمَضَانْ), só conheço mais um mês do calendário islâmico aportuguesado: Moarrão (محرم). É um mês sagrado, em que é defeso usar armas e guerrear (ignoro o direito islâmico, mas talvez haja aqui alguma distinção no caso de se tratar de uma guerra ofensiva, harb, ou de uma guerra defensiva, jihad). O calendário islâmico é lunar, com meses de 29 ou 30 dias. O início é contado, como saberá, a partir da fuga (ou migração, mais correctamente) de Maomé de Meca para Medina, a chamada Hégira (Hijra), ocorrida a 16 de Julho de 622 da nossa era. O ano 1 a. H. (Anno Hegirae) corresponde, portanto, a 622 d. C. Aqui ficam os nomes de todos os meses.

  1. Moarrão
  2. Sáfar
  3. Rabiá-al-aual
  4. Rabiá-a-Thâni
  5. Jumada Al-Ula
  6. Jumada A-Thânia
  7. Rajáb
  8. Xaaban
  9. Ramadão
  10. Xauál
  11. Dhu al-Qaáda
  12. Dhu Al-Hijja

Particípio futuro latino

Vestígios

      É sabido que os gladiadores dirigiam um cumprimento ritual ao imperador antes de iniciar os seus combates, na Roma antiga. Diziam: Ave, Caesar; morituri te salutant! Ou seja: «Salve, César, os que vão morrer te saúdam!» Aquele morituri é um particípio futuro latino. De que temos — é este o objectivo deste texto — vestígios em português. A começar, justamente, por morituro (que há-de morrer). Mas também perituro (que há-de perecer ou acabar), nascituro (que há-de nascer) e vincituro (que há-de vencer).
      Até ao fim da República, o particípio futuro em -turus (-surus) era quase exclusivamente usado em latim com o verbo sum para formar locuções perifrásticas. Quid futurum est? (O que vai acontecer?), perguntou Cícero nas Ad Familiares Epistulae.
      O vocábulo «particípio», convém saber, vem do latim participium (tradução do grego μετοχή), pois que é uma forma que participa do nome e do verbo, isto é, que tem uma natureza dupla.

Tratar-se, de novo

Um dia todos saberão

      No noticiário das 19.30, na Antena 1, o jornalista Sérgio Infante disse, referindo-se às explosões de ontem em Beirute: «tratam-se de ataques israelitas». É um dos erros mais comuns e persistentes. Veja-se outro exemplo, neste caso da imprensa escrita: «A Anacom decidiu que os serviços de voz através da Internet (VoIP) terão, no caso de se tratarem de computadores portáteis, uma nova numeração, começada por “30”, e que os fixos poderão utilizar a numeração geográfica, ou seja, a utilizada pelos telefones tradicionais» («PC com números telefónicos», Raquel Oliveira, Correio da Manhã, 7.3.2006, p. 17).
      Já aqui o tinha referido uma vez, mas insisto: conjugado pronominalmente e com o sentido de «dizer respeito a», o verbo tratar emprega-se apenas na 3.ª pessoa do singular — é um verbo defectivo e impessoal. O sujeito da frase é indeterminado, logo, não se faz a concordância com o verbo.

Etimologia: barricar

Bum!

      «Um homem barricou-se, na sexta-feira à noite, em casa da sogra, na Quinta da Cabrinha, em Lisboa» («Homem barricou-se em casa da sogra», Diário de Notícias, 9.07.2006, p. 21). O verbo barricar é considerado galicismo pelos puristas, lembra-nos o Dicionário Houaiss, sendo preferível usar entrincheirar-se, fortificar provisoriamente, trincheirar-se. O que me interessa agora, porém, é a etimologia. Recorro à obra Presença Militar na Língua Portuguesa, da autoria do coronel Aleu de Oliveira (edição do Ministério da Defesa Nacional, 1993), para a dar a conhecer: «Barricada. Nome dado a algumas rebeliões parisienses. Em 1558, os partidários do duque de Guise assenhoreiam-se de Paris. O rei, Henrique III *, tenta recuperar a capital [,] mas as tropas reais vêem-se impossibilitadas de avançar através das ruas, por terem sido atravessadas cadeias de ferro e interrompidas por montes de barricas cheias de terra, donde o nome de “barricadas”. Hoje em dia, quando há um corte de uma rua numa qualquer perturbação da ordem pública, utilizando seja que material for, por exemplo, pedras da calçada, diz-se que a rua está “barricada”. Também se costuma dizer “estar num dos lados da barricada”, significando com tal expressão que “se pertence a um dado grupo”, contrário a um outro que se situará no outro lado da aludida “barricada”» (p. 35).

* Na verdade, nesta data, como me chamou a atenção o leitor Hugo Santos, era Henrique II o rei de França, pois que Henrique III (1551-1589), seu filho e o último rei da dinastia de Valois, somente subiu ao trono em 1574.

Pontuação e próclise pronominal

© Helder Guégués
Bum!

      Não muito longe da minha casa, desmoronou-se um muro, tendo esmagado dois automóveis. Uma jornalista do Diário de Notícias esteve no local e conta-nos: «Vítor Vieira, da Protecção Civil de Lisboa, contudo, esclarece que só após a avaliação das circunstâncias em que ocorreu a derrocada, poder-se-á determinar as suas causas» («Derrocada de muro esmaga dois carros em Benfica», Kátia Catulo, 15.07-2006, p. 32). Temos então dois desastres: o aluimento do muro e o da gramática. Vejamos.
      A vírgula após o vocábulo «derrocada» é incorrecta, pois não se segue — tento, em vão, reconstituir o que terá pensado a jornalista — uma oração condicional ou concessiva, por exemplo, que, essas sim, se separam da principal por vírgula. Por outro lado, tendencialmente, a presença do advérbio «só» leva a próclise pronominal: «Vítor Vieira, da Protecção Civil de Lisboa, contudo, esclarece que só após a avaliação das circunstâncias em que ocorreu a derrocada se poderá determinar as suas causas.»

Topónimo Casamansa

África, de novo

      Lia-se no último Jornal de Letras, Artes e Ideias: «Paralelamente, o governo chinês contribuiu ainda com 350 mil dólares (270 mil euros) de ajuda humanitária, destinada aos deslocados no norte [sic] da Guiné-Bissau, na sequência do conflito que opôs o exército guineense a um movimento independentista de Casamança» («Bissau acolhe Cimeira da CPLP», JL, 5.07.2006, p. 3). Ora, são muitos os dicionários que recomendam e registam a forma «Casamansa», a começar pelo Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves. A forma «Casamança» deve ter-nos vindo por influência francesa, língua em que se escreve «Casamance».
      O Diário de Notícias, por exemplo, grafa correctamente a palavra: «Aquele local — próximo da vila de São Domingos, no Noroeste da Guiné-Bissau e junto à fronteira com o Senegal — está cercado há vários dias pelas forças militares de Bissau» («Bombas contra os rebeldes de Casamansa», Manuel Carlos Freire, 14.4.2006, p. 14).

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