Léxico: batólito

Outra música

O maestro Virgílio Caseiro foi entrevistado, no sábado, no programa Mil e Uma Escolhas (Antena 1), e foi com que ele que eu aprendi que os afloramentos rochosos que se vêem, por exemplo, em Monsanto, a «aldeia mais portuguesa», têm a designação de «batólitos». Trata-se, sei-o agora, do batólito de Penamacor-Monsanto.
«batólito s. m. Geol. grande corpo de rocha ígnea formado pela intrusão e solidificação de magma, alguns com embasamento comprovado, cuja forma é equidimensional tendente a alongada, e com extensão superior a 100 km2» (Dicionário Houaiss). O elemento «bat(i)o», do grego, expressa a ideia de profundo, fundo em espessura. O maior batólito da Península Ibérica é o monte do Pilar, na Póvoa de Lanhoso, com uma altitude de 385 metros.

Pronome + infinitivo

No princípio era o pronome…

«A mãe de João Pereira Coutinho completou 90 anos e o filho não mediu esforços para a agradar. Até ofereceu fins-de-semana no Algarve aos vizinhos para compensá-los do barulho» («Milionário dá festa de arromba», Helena Isabel Mota, Correio da Manhã/Vidas, 17.06.2006, p. 16). É preferível colocar o pronome antes do verbo compensar, visto este estar no infinitivo precedido da preposição «para». Exemplos: «ele ofereceu um fim-de-semana para os compensar», «tu deves fazer alguma coisa para o pôr no lugar», «telefonei-lhe para o repreender», «ando para lhe confidenciar um segredo há que tempos».

Ortografia: fogo-de-artifício

Imagem: www.digi-hound.com

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«Fogo-de-artifício mata homem», Diário de Notícias, 10.07.2006, p. 36.
«Homem morre ao lançar fogo de artifício», Público, 10.07.2006, p. 49.
«fogo-de-artifício. s. m. 1. Conjunto de peças pirotécnicas que se queimam sobretudo em noites de festa ou romarias, e que, no momento da explosão, fazem estrondo e produzem jogos de luz deslumbrantes; espectáculo constituído pelo lançamento e queima dessas peças» (Dicionário da Academia).
Em espanhol, fuegos artificiales; em catalão, focs d’artifici ou focs artificials; em francês, feu d’artifice; em inglês, fireworks.

Adjectivo «censório»

Parecido…

«Shakespeare — o acima de todos venerável — não ficou imune ao olho censóreo, já bem depois de 1695: o Rei Lear, por exemplo, teve a sua encenação proibida, entre 1788 e 1820, devido à loucura do Rei Jorge III (a loucura que inunda a peça poderia, trazida ao palco, parecer “piada” à loucura do Rei Jorge…)», «Censores», Eugénio Lisboa, JL, 5.07.2006, p. 44. Para a publicação que é — Jornal de Letras, Artes e Ideias —, tem demasiados erros e gralhas. «Censório» deveria o autor ter escrito, pois o sufixo latino era -orius, que em português deu -ório. Censorĭuscensório. Censório, pois, à semelhança de acessório, compulsório, derisório, ilusório, irrisório, promissório, provisório, rescisório, revulsório, sensório, suasório, sucessório, supressório, transmissório, etc. Por outro lado, quantas palavras portuguesas o autor conhece terminadas em -óreo? Tanto quanto sei, apenas existem estas: alterniflóreo, arbóreo, ascospóreo, castóreo, concorpóreo, corpóreo, ebóreo, equóreo, estentóreo, extracorpóreo, flóreo, fosfóreo, herbóreo, heterospóreo, hiperbóreo, incorpóreo, litóreo, marmóreo e quadriflóreo.

Etimologia: demótico

Escrita etimológica

Escreveu Vasco Pulido Valente: «Até me irrito com as bandeirinhas do prof. Marcelo e com o esforço, um pouco embaraçoso, dos políticos para se mostrarem demóticos» («Futebol», Público, 30.06.2006, p. 52). Convenho: talvez a maioria das pessoas perceba o que o autor quer dizer com aquele «demótico» — mesmo que não seja o termo correcto. Talvez, mas a verdade é que a acepção usada não está registada nos nossos dicionários. Vejamos a respectiva entrada no Dicionário Houaiss: «demótico adj. s. m. LING 1 diz-se de ou língua grega moderna falada no quotidiano [Tornada a língua oficial da Grécia desde 1976.] cf. grego demótico. 2 diz-se de ou língua falada pelos antigos egípcios. 3 diz-se de ou forma cursiva (simplificada) da escrita hierática dos antigos egípcios, us. entre o sVII a.C. e o sV d.C. ETIM gr. demotikós ‘relativo à gente do povo, popular, plebeu’.» A seguirmos esta via etimológica, ninguém se poderia espantar se começássemos a ver nos jornais frases como esta: «O assaltante, surpreendido à saída da agência do BPI da Avenida do Uruguai, pespegou com um crachá na farda imaculada do agente da PSP, que lho devolveu na ponta do cassetete.» «Crachá», para nós, é somente um distintivo, uma medalha, ao passo que no francês, donde veio a palavra, é etimologicamente «escarro».

Topónimo: Cordofão

O mundo em português

«Os grupos rebeldes do Darfur que recusaram juntar-se ao acordo de paz assinado a 5 de Maio, em Abuja, levaram agora o conflito para fora das fronteiras daquela região do Oeste do Sudão, ao atacarem o estado vizinho do Kurdufan do Norte» («Grupos rebeldes atacam estado vizinho do Darfur», Diário de Notícias, 5.07.2006, p. 13). Por este andar, qualquer dia temos os jornalistas a escrever «Kashmir» em vez de «Caxemira», «Chechnya» em vez de «Chechénia», «Lebanon» em vez de «Líbano» e por aí adiante. Há séculos que no léxico português se encontra o topónimo «Cordofão» — usem-no.

Léxico e ortografia: zona-tampão

Imagem: http://www.oddjokes.com/

Comparemos


Nas citações que se seguem, de dois jornais, a notícia é a mesma, embora os jornalistas tenham optado por um léxico diferente. No Público, optou-se por «zona-tampão», tradução directa do inglês «buffer area» ou «buffer zone»* (à semelhança de «buffer state», «Estado-tampão», designação inevitável quando a notícia é o Nepal, por exemplo), ao passo que o Diário de Notícias preferiu o mais genuíno «zona de segurança». Certo, porém, é que «zona-tampão» está correcto, bem grafado (felizmente o autor é dos jornalistas que sabem que não pode alinhar dois substantivos sem mais) e tem a vantagem de, perante ele, se nos representar mentalmente o conceito.

«Não era claro se o objectivo seria a criação de uma zona-tampão, algo que o governo dizia considerar, e se para isso seria necessária a entrada das tropas em zonas densamente povoadas onde encontrariam resistência dos combatentes palestinianos», «Tanques israelitas entram no Norte da Faixa de Gaza», Maria João Guimarães, Público, 6.07.2006, p. 22.
«Boim [Zeev Boim, um dos elementos do Gabinete de Segurança israelita] comentava assim a decisão tomada pelo Gabinete: dar luz verde ao exército para criar uma “zona de segurança” no Norte da Faixa de Gaza», «Tanques israelitas avançam no Norte da Faixa de Gaza», Lumena Raposo, Diário de Notícias, 6.07.2006, p. 12.


* «Israel entered the three abandoned settlements overnight as it expanded a week-old incursion into Gaza, carving out a temporary buffer zone to prevent Palestinian militants from firing rockets into southern Israel. The invasion is Israel’s largest operation in Gaza since withdrawing from the coastal territory less than a year ago» («Fighting heats up in northern Gaza as Israelis advance», International Herald Tribune, 6.07.2006).

Ortografia: videovigilância

Porque nos apetece

Já aqui tinha referido uma vez o que parece ser uma opção, mas opção errada, do Público de grafar a palavra «videovigilância» com hífen. «Governo regula vídeo-vigilância e separadores nos táxis» (Inês Boaventura, 7.07.2006, p. 55). Tanto no título como no corpo da notícia, a palavra aparece sempre grafada desta maneira.
Ora, à semelhança de videasta, videoalarme, videoamador, videoamadorístico, videoarte, videocâmara, videocassete, videoclipe, videoclube, videoconferência, videodisco, videoendoscopia, videofax, videofilia, videófilo, videofone, videofonograma, videofrequência, videografia, videograma, videogravador, videojogo, videojóquei, videojornal, videolaparascopia, videolocadora, videomania, videomaníaco, videoporteiro, videoteca, videotex, videotexto, videotransmissão, etc., «videovigilância» só podia ser grafado assim.

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