Cérebro e linguagem

Trocar de sotaque



      Com a devida vénia, reproduzo aqui na íntegra um artigo publicado no Diário de Notícias, revelador da extrema complexidade do nosso cérebro.
      «Um ataque cerebral deixou a inglesa Linda Walker, de 60 anos, com um estranho feito secundário: acordou com pronúncia da Jamaica. Os familiares nem queriam acreditar quando a empregada administrativa reformada abriu os olhos e começou a falar, sem vestígios do sotaque nasalado de Newcastle que sempre teve.
      O chamado [sic] “síndroma da pronúncia estrangeira” é muito raro e foi identificado pela primeira vez na II Guerra Mundial, quando as primeiras palavras de um soldado norueguês, após ter sido ferido na cabeça num raide aéreo inimigo, passaram a ser embrulhadas num perfeito sotaque alemão.
      “Não me consigo reconhecer. Tenho constantemente a impressão de que sou outra pessoa”, declarou a desolada Linda Walker ao jornal local Evening Chronicle. Segundo investigadores da Universidade de Oxford, esta inglesa de meia idade [sic], que viveu sempre na mesma região do país, sofre do síndroma [sic] da pronúncia estrangeira, um fenómeno por vezes observado quando as partes do cérebro ligadas à linguagem são alteradas, depois de uma convulsão cerebral.
      A doente não se apercebeu imediatamente do facto quando acordou: foi a fisioterapeuta que a questionou acerca da estranha pronúncia. Sempre que fala ao telefone, a maioria dos interlocutores identifica um nítido sotaque jamaicano — também já confundido com italiano e eslovaco» («Mulher acorda de ataque com pronúncia da Jamaica», Diário de Notícias, 5.07.2006, p. 18).

Léxico: contracapista

Para que conste

«O lesto contracapista confundiu Ludwig Marcuse (1894-1971) com Herbert Marcuse, este sim, frequentemente reivindicado como “guru” do Maio de 68. Ignorância, desleixo, avidez comercial? Seja como for, imperdoável» («Freud em corpo inteiro», António Rego Chaves, recensão ao livro Freud e a Psicanálise, de Ludwig Marcuse, Livros do Brasil, 2006, in Jornal de Negócios, 30.06.2006, p. 31). De facto, Herbert Marcuse é contemporâneo do outro, pois viveu entre 1898 e 1979, mas são duas pessoas diferentes. O que me interessa agora, porém, já adivinharam, não é isso, que se me afigura grave, naturalmente, mas a palavra «contracapista». No meio editorial, de vez em quando ouço-a. Parece, penso sempre, o nome de uma profissão, uma coisa sólida e permanente, como taxista ou taxidermista (refiro este porque conheci um). Em contrapartida, nunca ouvi falar de nenhum «badanista». Talvez que, na classificação das profissões, seja contracapista/badanista…

Penalti, penálti, penalte ou «penalty»?

Grande penalidade

      «Como em 2000, Zidane marcou de penálti», «Coincidências madrastas», Rui Hortelão, Correio da Manhã, 6.07.2006, p. 23.
      «“O fado é perder de penalty com a França”», David Mandim, Diário de Notícias, «Diário do Mundial», 6.07.2006, p. VIII.
      «Foi-se o sonho, novamente num penalty marcado por Zidane, mas fica a certeza de que esta Selecção terá sempre lugar especial no coração dos portugueses», A Bola, 6.07.2006, primeira página.
      «Um pequeno erro que deu o golo de penálti, um remate de cabeça de Figo por cima, algum domínio territorial, mas a verdade é que a Selecção voltou a perder com a França [,] que teve uma defesa de ferro», «A Bastilha não caiu», José Carlos Freitas, Record, 6.07.2006, p. 5.
«Um penalti, outra vez», Público, 6.07.2006, primeira página.
      O Dicionário da Academia regista: «penálti, pênalti (Bras.). s. m. (Do ingl. penalty). O m. q. grande penalidade
      Muitos anos antes, registava já o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado: «Penálti, s. m. No jogo do futebol, castigo consequente de lance em que um jogador comete falta dentro de determinada área do seu campo, sendo por isso a sua equipa punida com um arremesso directo da bola à rede, da distância de onze metros.»
      Só faltou encontrar uma publicação que preferisse a forma que ouço mais na boca dos falantes comuns: «penalte».
     Já na imprensa brasileira, li no Folha Online (26.06.2006): «Com gol de pênalti duvidoso nos acréscimos, Itália avança às quartas.»
      Na imprensa espanhola, e apesar de o Diccionario de la Real Academia registar a forma «penalti», lia-se no El País online: «Poco tiempo después, el delantero entraba en el área y Ricardo Carvalho cometía un penalty. Entonces Zidane ha dado un paso al frente y ha asumido el lanzamiento ante el portero con fama de ‘parapenalties’ tras su actuación ante Inglaterra» («Cuando Zidane sonríe», Javier Bragado, 5.07.2006).
Por cá, novamente, e apesar de achar incongruente, face a outras opções, que o Diário de Notícias — que já esteve a par e talvez mesmo atrás, em algum momento, do Público, e neste momento é o jornal em que melhor se escreve — prefira a forma «penalty», julgo digno de realçar que admita, justamente ao lado da citação que fiz acima, uma forma diferente numa crónica: «Perdemos e perdemos mal. Mais uma vez, um penálti, no mínimo, ultraduvidoso», Jacinto Lucas Pires, «Vitória moral», Diário de Notícias, «Diário do Mundial», 6.07.2006, p. VIII.

Tradução: «helicopter gunship»

Imagem: http://images.military.com/pics/SoldierTech_Mi-28-3.jpg

Vamos lá ver

O leitor J. J. Reis pergunta-me como se deve traduzir a locução inglesa «helicopter gunship» e se está em algum dicionário. Comecemos, uma vez, pelo fim: nem todas as palavras estão registadas nos dicionários — e nem por isso são incorrectas ou inexistentes. Ainda está para vir o dicionário que acolha todo o léxico de um idioma. Quanto à tradução, tenho visto ser usado o termo «helicanhão».

Resmas e parónimos

Ao lado

      Agora, em certos programas da televisão, os concorrentes já não sabem sequer quantas folhas tem uma resma. «Cem», alvitrou um, possivelmente licenciado, não sei nem quis saber. Depois não querem que as pessoas digam, como o fotógrafo António Homem Cardoso: «Tenho a 4.ª classe, que corresponde hoje em dia a um curso universitário» (entrevista à revista Sábado, n.º 113, 29.06.2006, p. 110). Quem é que não sabia, antigamente, que uma resma se compõe de 500 folhas, ou seja, vinte mãos, e que cada mão tem 25 folhas? (A propósito de folhas, leia-se este texto de Nuno Crato.) E isto trouxe-me à memória o seguinte anúncio publicado no Diário de Notícias (21.05.2006, p. 56): «I.P.S.S. Na área da Infância e Juventude em Lisboa, precisa de candidatos para as funções de Perfeitos e Vigilantes. Enviar Curriculum Vitae para o apartado n.º 9025 Lisboa.» Que me recorde, os vocábulos «perfeito» e «prefeito» eram os únicos que eram apresentados para ilustrar o conceito de parónimo nas antigas gramáticas. Perfeito cretino me acharia a minha professora da escola primária se eu não soubesse usar, num contexto tão óbvio, o vocábulo «prefeito». Quando é tão rara a ocasião de usá-lo, eis que se falha por ignorância ou desmazelo.

Gentílico: francesano

Ao menos isso

No Portugal em Directo (RTP1), uma jornalista foi fazer uma reportagem à aldeia raiana de França, a 15 quilómetros de Bragança, nos contrafortes da serra de Montesinho. A razão, e a pergunta, era saber como iriam os habitantes ver o Portugal-França. A resposta foi, previsivelmente, bocejante, a aconselhar decisões mais ponderadas sobre que reportagens fazer, que meios disponibilizar. Valeu a informação de que os naturais da aldeia de França se dizem francesanos. À semelhança de Bragança → bragançano.

Ortografia: maldisposto

Está mal

«Nas carruagens da classe económica, muitos passageiros sentiram-se mal. “Agora que chegámos cá acima, estou mal disposta, com náuseas e dores de cabeça”, explicou ao enviado da Reuters, Wu Jia, uma turista chinesa de 32 anos» («Terminou primeira viagem de comboio entre a China e o Tibete», Público, 4.07.2006, p. 48). Pois é, mas «maldisposta» escreve-se como acabei de o fazer: é uma palavra composta por aglutinação. O prefixo «mal-» apenas exige o uso do hífen antes de vogal e de h: mal-afamado, mal-entendido, mal-estar, mal-humorado, etc. O adjectivo «bem-disposto», pelo contrário, é formado por justaposição.

Lhasa ou Lassa?

Do Tibete

«O primeiro comboio a partir da China para o Tibete chegou ontem a Lhasa, depois de uma viagem de dois dias e quase mil quilómetros» («Terminou primeira viagem de comboio entre a China e o Tibete», Público, 4.07.2006, p. 48).
«A viagem entre Pequim e Lassa demorará dois dias e custará 36 euros na classe mais económica — os chamados “bancos duros” — e mil euros na classe mais cara — as “camas moles”» («Sobre carris e muito perto do céu está a linha de comboio mais alta do mundo”, Ângela Marques, Diário de Notícias, 3.07.2006, p. 18).
Já conhecem as minhas preferências: se temos o topónimo aportuguesado, é este que eu uso e recomendo.

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