Tradução: «helicopter gunship»

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Vamos lá ver

O leitor J. J. Reis pergunta-me como se deve traduzir a locução inglesa «helicopter gunship» e se está em algum dicionário. Comecemos, uma vez, pelo fim: nem todas as palavras estão registadas nos dicionários — e nem por isso são incorrectas ou inexistentes. Ainda está para vir o dicionário que acolha todo o léxico de um idioma. Quanto à tradução, tenho visto ser usado o termo «helicanhão».

Resmas e parónimos

Ao lado

      Agora, em certos programas da televisão, os concorrentes já não sabem sequer quantas folhas tem uma resma. «Cem», alvitrou um, possivelmente licenciado, não sei nem quis saber. Depois não querem que as pessoas digam, como o fotógrafo António Homem Cardoso: «Tenho a 4.ª classe, que corresponde hoje em dia a um curso universitário» (entrevista à revista Sábado, n.º 113, 29.06.2006, p. 110). Quem é que não sabia, antigamente, que uma resma se compõe de 500 folhas, ou seja, vinte mãos, e que cada mão tem 25 folhas? (A propósito de folhas, leia-se este texto de Nuno Crato.) E isto trouxe-me à memória o seguinte anúncio publicado no Diário de Notícias (21.05.2006, p. 56): «I.P.S.S. Na área da Infância e Juventude em Lisboa, precisa de candidatos para as funções de Perfeitos e Vigilantes. Enviar Curriculum Vitae para o apartado n.º 9025 Lisboa.» Que me recorde, os vocábulos «perfeito» e «prefeito» eram os únicos que eram apresentados para ilustrar o conceito de parónimo nas antigas gramáticas. Perfeito cretino me acharia a minha professora da escola primária se eu não soubesse usar, num contexto tão óbvio, o vocábulo «prefeito». Quando é tão rara a ocasião de usá-lo, eis que se falha por ignorância ou desmazelo.

Gentílico: francesano

Ao menos isso

No Portugal em Directo (RTP1), uma jornalista foi fazer uma reportagem à aldeia raiana de França, a 15 quilómetros de Bragança, nos contrafortes da serra de Montesinho. A razão, e a pergunta, era saber como iriam os habitantes ver o Portugal-França. A resposta foi, previsivelmente, bocejante, a aconselhar decisões mais ponderadas sobre que reportagens fazer, que meios disponibilizar. Valeu a informação de que os naturais da aldeia de França se dizem francesanos. À semelhança de Bragança → bragançano.

Ortografia: maldisposto

Está mal

«Nas carruagens da classe económica, muitos passageiros sentiram-se mal. “Agora que chegámos cá acima, estou mal disposta, com náuseas e dores de cabeça”, explicou ao enviado da Reuters, Wu Jia, uma turista chinesa de 32 anos» («Terminou primeira viagem de comboio entre a China e o Tibete», Público, 4.07.2006, p. 48). Pois é, mas «maldisposta» escreve-se como acabei de o fazer: é uma palavra composta por aglutinação. O prefixo «mal-» apenas exige o uso do hífen antes de vogal e de h: mal-afamado, mal-entendido, mal-estar, mal-humorado, etc. O adjectivo «bem-disposto», pelo contrário, é formado por justaposição.

Lhasa ou Lassa?

Do Tibete

«O primeiro comboio a partir da China para o Tibete chegou ontem a Lhasa, depois de uma viagem de dois dias e quase mil quilómetros» («Terminou primeira viagem de comboio entre a China e o Tibete», Público, 4.07.2006, p. 48).
«A viagem entre Pequim e Lassa demorará dois dias e custará 36 euros na classe mais económica — os chamados “bancos duros” — e mil euros na classe mais cara — as “camas moles”» («Sobre carris e muito perto do céu está a linha de comboio mais alta do mundo”, Ângela Marques, Diário de Notícias, 3.07.2006, p. 18).
Já conhecem as minhas preferências: se temos o topónimo aportuguesado, é este que eu uso e recomendo.

De Mocambo a Madragoa


Notícias de Lisboa

      Nas suas deambulações por Lisboa, conta-nos Appio Sottomayor a propósito do Convento das Trinas: «A zona onde o novo mosteiro foi inserir-se era conhecida por Mocambo, o antecessor da Madragoa actual, povoado por gente ligada às fainas do mar e por pessoas de raça negra» («Rua das Trinas», Jornal da Região (Lisboa), 3 a 9.07.2006, p. 13). Não nos conta é o que significa o topónimo Mocambo, e só isso merecia uma crónica. «Mocambo, s. m. (do quimbundo um + kambu). Bras. Couto de escravos na floresta; quilombo.│Choça, palhota em que os pretos se refugiavam quando fugiam para o mato.│Cerrado de mato ou moita, onde se esconde o gado.│Habitação, choupana, abrigo, de quem vigia a lavoura» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coord. por José Pedro Machado). O Dicionário Houaiss, por sua vez, acrescenta que a etimologia é controversa. Na Academia, perderam o respectivo verbete.

Bicho-de-conta

Imagem tirada daqui

Vamos brincar


      O bicho-de-conta*, de nome científico Armadillium vulgare, é um crustáceo (crusta, «revestimento», aceo, «semelhante») terrestre, dos poucos que existem. Reparem na couraça que o reveste. Foi a esta protecção que se foi buscar inspiração para as armaduras antigas. E para os miúdos menos urbanos, juntamente com as formigas, são um dos brinquedos mais interessantes.


      * Colporte em francês; espanhol, bicho bolita; italiano, onisco; inglês, woodlouse.

Léxico: lacticinoso

Com deleite

Estávamos, imaginemos, na tal ilha deserta dos questionários de Verão. As vicissitudes tinham-nos levado até ali apenas com dois livros: o Dicionário da Academia e um exemplar, achado na rua, de A Praia, de Cesare Pavese, com tradução de Alfredo Margarido, editado pela Portugália Editora, nos finais dos anos 60. No decorrer da leitura, deparar-nos-íamos inevitavelmente com alguma palavra menos comum, como, por exemplo, lacticinoso. «Clélia dissera-me que todas as manhãs Doro se escapava e ia nadar no mar lacticinoso da madrugada.» Consultando o dicionário, ficaríamos encalhados — varados, é caso para dizer — no vazio entre «lacticínio» e «láctico». Se não fôssemos minimamente inteligentes mas tivéssemos memória, talvez nos recordássemos de ter lido no Dicionário Houaiss:

lacticinoso adj. O m. q. lactescente.
lactescente adj. Que tem a cor e o aspecto do leite; leitoso.


De qualquer modo, não seria menos provável que lembrá-lo dito pelo poeta palavroso Carlos Argentino Daneri, de O Aleph, de Jorge Luis Borges, que, tal como Mattia Pascal, exercia «não sei que cargo subalterno numa biblioteca sem leitores dos arrabaldes do Sul».

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