De Mocambo a Madragoa


Notícias de Lisboa

      Nas suas deambulações por Lisboa, conta-nos Appio Sottomayor a propósito do Convento das Trinas: «A zona onde o novo mosteiro foi inserir-se era conhecida por Mocambo, o antecessor da Madragoa actual, povoado por gente ligada às fainas do mar e por pessoas de raça negra» («Rua das Trinas», Jornal da Região (Lisboa), 3 a 9.07.2006, p. 13). Não nos conta é o que significa o topónimo Mocambo, e só isso merecia uma crónica. «Mocambo, s. m. (do quimbundo um + kambu). Bras. Couto de escravos na floresta; quilombo.│Choça, palhota em que os pretos se refugiavam quando fugiam para o mato.│Cerrado de mato ou moita, onde se esconde o gado.│Habitação, choupana, abrigo, de quem vigia a lavoura» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coord. por José Pedro Machado). O Dicionário Houaiss, por sua vez, acrescenta que a etimologia é controversa. Na Academia, perderam o respectivo verbete.

Bicho-de-conta

Imagem tirada daqui

Vamos brincar


      O bicho-de-conta*, de nome científico Armadillium vulgare, é um crustáceo (crusta, «revestimento», aceo, «semelhante») terrestre, dos poucos que existem. Reparem na couraça que o reveste. Foi a esta protecção que se foi buscar inspiração para as armaduras antigas. E para os miúdos menos urbanos, juntamente com as formigas, são um dos brinquedos mais interessantes.


      * Colporte em francês; espanhol, bicho bolita; italiano, onisco; inglês, woodlouse.

Léxico: lacticinoso

Com deleite

Estávamos, imaginemos, na tal ilha deserta dos questionários de Verão. As vicissitudes tinham-nos levado até ali apenas com dois livros: o Dicionário da Academia e um exemplar, achado na rua, de A Praia, de Cesare Pavese, com tradução de Alfredo Margarido, editado pela Portugália Editora, nos finais dos anos 60. No decorrer da leitura, deparar-nos-íamos inevitavelmente com alguma palavra menos comum, como, por exemplo, lacticinoso. «Clélia dissera-me que todas as manhãs Doro se escapava e ia nadar no mar lacticinoso da madrugada.» Consultando o dicionário, ficaríamos encalhados — varados, é caso para dizer — no vazio entre «lacticínio» e «láctico». Se não fôssemos minimamente inteligentes mas tivéssemos memória, talvez nos recordássemos de ter lido no Dicionário Houaiss:

lacticinoso adj. O m. q. lactescente.
lactescente adj. Que tem a cor e o aspecto do leite; leitoso.


De qualquer modo, não seria menos provável que lembrá-lo dito pelo poeta palavroso Carlos Argentino Daneri, de O Aleph, de Jorge Luis Borges, que, tal como Mattia Pascal, exercia «não sei que cargo subalterno numa biblioteca sem leitores dos arrabaldes do Sul».

A língua do povo

Por assim dizer

Anos 90. Tratava-se de uma reportagem sobre a prática de sexo anal na população portuguesa. A repórter de uma das televisões, num qualquer lugarejo remoto do País, aproximou-se de duas senhoras idosas e perguntou a uma delas se praticava sexo anal com o marido. Como seria de esperar (ou não, como se verá a seguir), a senhora não sabia o que era isso de «sexo anal», e já não foi mau que não tivesse respondido, como nas anedotas, que, nessa matéria, só tinha planos quinquenais, como os da ex-União Soviética. A vizinha, contudo, ajudou a interpelada: «A menina quer saber se charingavas às avessas com o teu homem.» Querem mais inventiva do que isto? Provavelmente analfabetas, a mundividência delas era entretecida de outras palavras, diferentes das que expressavam a experiência da repórter.

Tradução: «adelantado»

Porque iam à frente

Caro João Lopes, pode traduzir o espanhol «adelantado», que eram também os conquistadores que por título real concentraram o comando político, militar e administrativo nos territórios das Américas, por «adiantado», porque assim está dicionarizado: «Adiantado s. m. (Do part. pas. do v. adiantar). Antigo governador de província ou comarca fronteiriça, com poderes militares ou civis, em Portugal e Espanha. “O adiantado de Galiza […] entrou pela província de Entre Douro e Minho com um grosso corpo de gente de pé e de cavalo” (Herculano, Lendas, I, p. 220)” (Dicionário da Academia). Deixar o termo original, «adelantado», neste caso, não presta um bom serviço ao leitor.

Léxico: serendipidade

Quase por acaso

      Foi interessante ver a alegria genuína de Paula Moura Pinheiro, no programa Câmara Clara, ao confessar aos telespectadores que tinha acabado de aprender uma palavra com Nuno Crato. E, como era uma aprendizagem fresca, pediu a Nuno Crato que esclarecesse a definição. Tratava-se do vocábulo «serendipidade», muito caro aos cientistas e divulgadores de ciência. Só os dicionários mais recentes a registam, como o Houaiss: «serendipidade s. f. 1 aptidão, faculdade ou dom de atrair o acontecimento de coisas felizes ou úteis, ou de descobri-las por acaso. 2 p. met. cada uma dessas coisas felizes ou úteis. Etim. ingl. serendipity (1754) ‘id’ < Serendip ou Serendib (do ár. Sarandīb), antigo nome do Sri Lanka, + suf. ingl. -ity, palavra cunhada, em 1754, por Horace Walpole (1717-1797, escritor inglês), a partir do conto de fadas Os três príncipes de Serendip, cujos heróis faziam sempre descobertas, acidentalmente ou por sagacidade, de coisas que não procuravam.»

À-vontade e à vontade

Crítica da crítica

      «Dito isto, Monica Ali parece mais à-vontade quando escreve, por exemplo, sobre a anárquica família Potts, a residir na aldeia, ou sobre Stanton, escritor em crise de inspiração, do que quando arrisca discorrer sobre camponeses comunistas, mesmo se actualizados por um caso de homossexualidade entre eles» («Polifonia em tons de azul», Ana Cristina Leonardo, Expresso/Actual, n.º 1757, 1.07.2006, p. 7). Este é um erro muito comum: nesta frase, não se deveria ter usado o substantivo «à-vontade», mas sim a locução adverbial «à vontade», que significa «descontraidamente» ou «sem constrangimento». Exemplificando: «Dito isto, Monica Ali parece mais à vontade quando escreve.» «Dito isto, Monica Ali parece ter mais à-vontade quando escreve.» Neste último exemplo, o que se diz é que o sujeito tem mais naturalidade, mais descontracção quando escreve.

«Vira-casaca» e «turncoat»

Somos todos iguais

É muito interessante que o nosso tão português «vira-casaca» tenha uma tradução perfeita no inglês «turncoat» («a disloyal person who betrays or deserts his cause or religion or political party or friend, etc.»), não é? «Vira-casaca, s. 2 gén. Indivíduo que muda frequentemente de credo político ou de ideias, conforme as suas conveniências» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coord. por José Pedro Machado).

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