Ortografia: caixa-forte e cofre-forte

O maldito tracinho…

O fenómeno tem poucos anos: especialmente nos jornais, a mania-de-usar-hífenes-a-torto-e-a-direito-é-simplesmente-confrangedora. Creio que foi o Dicionário da Academia, que nem sequer tem um papel normalizador na língua, que veio autorizar esta prática. Em contrapartida, cada vez se vê mais não usar o hífen nos vocábulos há muito registados nos dicionários com hífen. No Diário de Notícias, por exemplo, que é exemplar em relação a alguns, muitos, aspectos da língua, parece haver um conluio entre jornalistas e revisores para que a palavra «mais-valia» jamais apareça grafada com hífen. Ultimamente, são as palavras «caixa-forte» e «cofre-forte» que aparecem em toda a imprensa sem hífen. «Entre compras feitas nos hipers e outras grandes superfícies e os depósitos nas instituições financeiras, esses valores acabam por ir parar aos carros blindados das grandes empresas de transporte de valores e, posteriormente, para as suas caixas fortes» («Dentro da caixa forte», Paulo Santos, Visão, n.º 692, 8 a 14.06.2006, p. 136).

Utopia e ucronia

Ulogia

Tal como «utopia», «ucronia» é uma palavra que sabemos onde e como nasceu. Em 1876, o filósofo francês Charles Renouvier (1815-1903) cunhou, a partir do modelo do vocábulo «utopia», o termo «uchronie», que usou mesmo no título de uma obra: Uchronie, l’utopie dans l’histoire. Como define o Dicionário Houaiss, ucronia é uma «história apócrifa, recriada em pensamento como poderia ter ocorrido» e, por extensão de sentido, «período, época, tempo imaginário; recordação fictícia dentro de um tempo».
Muito interessante é a reflexão à volta do termo «utopia» que António Mega Ferreira reproduz na sua crónica na Visão: «E, como uma estudante [de arquitectura, num colóquio] não deixou de assinalar com argúcia, a história do termo utopia tem na origem um equívoco: é que Thomas More, que a inventou (ou-topos, um não-lugar), em 1516, via-a mais como uma forma de criticar a sociedade caótica do seu tempo do que como modelo para uma construção humana, In fine, aliás, rejeitava-a, por ela lhe parecer contraproducente na sua secante ortodoxia» (Visão, n.º 692, 8 a 14.06.2006, «Uma falsa modernidade», p. 21).

Erros dos jornalistas


Mundial do Desconchavo

Depois de ter dito qualquer coisa sobre o seu «homólogo Horacio Elizondo», árbitro do Portugal-Inglaterra, o repórter Horácio Antunes, da Antena 1, perguntou a uma criancinha que estava em Coimbra: «Gostastes de Coimbra?» Com jornalistas assim, para que precisamos de cataclismos naturais? Ganharmos foi, de alguma maneira, uma recompensa para todo este nosso infortúnio.

Dodo ou dodó

Imagem do dodo: http://www.davidreilly.com/

Doudo varrido

Embora sempre tenha preferido a forma «dodo», por a julgar mais próxima de uma suposta etimologia portuguesa, a verdade é que os dicionários também registam a forma «dodó», que foi precisamente a usada no seguinte artigo do Diário de Notícias:
«Quando os navegadores portugueses chegaram às ilhas Maurícias, por volta de 1505, encontraram uma ave até então desconhecida: isolada de toda a humanidade, a ave reagiu bem aos visitantes, nunca mostrou medo e não fugiu dos novos predadores. Esta inocência, que os portugueses interpretaram como loucura, valeu ao animal ser chamado “doudo” (variante de doido). Daí, dizem alguns, o nome de dodó.
Existe, porém, outra teoria: os holandeses, que entretanto começaram a chegar às ilhas, tornaram-se a partir de 1644 a principal potência colonizadora. Àquela ave demasiado grande e que passava os dias a arrastar-se pelo chão, sem conseguir voar, chamaram “dodoor”, que significa preguiçoso. E que terá dado origem ao nome “dodó”» («Ossos de dodó com dois mil anos encontrados nas ilhas Maurícias», Maria João Caetano, 26.06.2006, p. 19).

Achelense e chelense

Quaternário

Um leitor pergunta-me se se deve escrever «chelense» ou «achelense». Deve escrever-se das duas formas, porque remetem para coisas diferentes. Veja o que se afirma na seguinte citação:
«A era da quaternária tem sido dividida em época de Chelles (Seine-et-Marne) ou chelense; época de Saint-Acheul (Somme) ou acheulense; época do Moustier (comuna de Peyzac-en-Dordogne) ou musteriense; época de Aurignac (Haute-Garonne) ou aurinhacense; época de Solutré (Saône-et-Loire) ou solutrense; época de La Madeleine (comuna de Tursac, Dordogne) ou madelenense; época de La Tourasse (La Tourasse Haute-Garonne) ou turassense; época de Azil (Mas d’Azil, Ariège) ou azilense; época de Tardenois (Fère-en-Tardenois) ou tardenense; época de Campigny (Campigny) ou campinhiense» (Novos Elementos para o Estudo da Origem do Nome de Lisboa, Arlindo de Sousa, Publicações Culturais da Câmara Municipal de Lisboa, 1968, p. 229).

Hiper ou «hiper»?

Sem medo

      Lia-se no Correio da Manhã: «Hiper ficou com as caixas entupidas» («PJ investiga Multibanco», Miguel Alexandre Ganhão/Raquel Oliveira, 30.4.2006, p. 5). No Diário de Notícias, por sua vez, podia ler-se: «Hiper no Norte fechado por falta de condições» (Elsa Costa e Silva, 28.06.2006, p. 17). E, no mesmo jornal, o plural: «Combustíveis até 10% mais baratos nos hipers» (Caderno Economia, 15.5.2006, p. 2). Na Visão, finalmente: «Entre compras feitas nos hipers e outras grandes superfícies e os depósitos nas instituições financeiras, esses valores acabam por ir parar aos carros blindados das grandes empresas de transporte de valores e, posteriormente, para as suas caixas fortes [sic]» (n.º 692, 8 a 14.06.2006, p. 136). Estiveram bem, para me exprimir professoralmente, os jornalistas do Diário de Notícias. De facto, não precisamos de isolar assepticamente com aspas ou itálico a redução ou abreviação substantivada «hiper». Como também não o fazemos com metro, foto, moto, manif, pneu, quilo, otorrino, zoo, etc.

Parênteses angulares

Uma coisa, um nome

      O leitor J. Gomes pergunta-me que nome dar aos símbolos <>. Bem, já vi atribuir-se-lhes o nome de parênteses angulares ou angulosos. A juntar aos parênteses rectos — [ e ] — e aos parênteses curvos — ( e ) —, a forma ditou a designação. À mão só tenho uma abonação: «Neste capítulo, os parêntesis angulares <> são usados para representar versões ortográficas» (Língua Portuguesa, Instrumentos de Análise, Inês Duarte, Universidade Aberta, Lisboa, 2000, p. 216).

Plural dos apelidos

O nosso nome

      Embora já há algum tempo tencionasse escrever sobre este assunto, o facto de um leitor me ter escrito a perguntar a minha opinião obrigou-me a antecipar a publicação deste texto. Ainda recentemente, podia ler-se o seguinte num jornal gratuito: «Nas antigas casas da infanta D. Maria [filha de D. Manuel I] acabaria por surgir um palácio que foi propriedade dos Almeidas, descendentes do vice-rei da Índia, D. Francisco de Almeida», «Campo de Santa Clara» (Appio Sottomayor, Jornal da Região (Lisboa), p. 14). Appio Sottomayor ajuda-nos a descobrir a cidade de Lisboa e a língua, pois os apelidos têm, de facto, plural. Por influência francesa se começou a admitir o contrário, por ignorância se continuou a fazê-lo. Afonso da Maia e Carlos da Maia, recordemos, eram os Maias. Até Eça, que tanta influência recebeu da língua francesa, respeitou a índole da língua portuguesa.
      A dificuldade com que se deparam os jornalistas, os tradutores e os revisores — aqueles que têm consciência dessa realidade, que não serão muitos — é justamente a pluralização dos apelidos estrangeiros. A regra, pois, em relação a estes, é a de que se devem pluralizar os nomes próprios e os apelidos das pessoas sempre que a terminação se preste à flexão. Lembro-me de ter lido em Camilo Castelo Branco, por exemplo, «os Monizes». No caso dos apelidos terminados em s, como o meu, é simples: fica invariável. Como já se lia, de resto, no Capítulo XLV da Grammatica da Lingoagem Portuguesa, de Fernão de Oliveira, que defendia que os nomes portugueses têm plural, «tirando Domingos, Marcos e Lucas, que não variam seus números».

Arquivo do blogue