Kinshasa e Quinxasa

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Quase cachaça

      J. Castro Pinto, no seu excelente Novo Prontuário Ortográfico, afirma que a grafia portuguesa de Kinshasa ― Quinxasa ― «não é de fácil aceitação, mas não é possível atribuir-lhe outra». Os jornalistas da revista VIP quiseram desmenti-lo: «Em Quixassa, Carla Matadinho encantou com a sua beleza. A modelo, vestida por Augustus, fez parar o trânsito na visita que fez à capital da República do Congo» (VIP, n.º 466, 21 a 27.06.2006). O s suplementar deixa-nos adivinhar que não andam a ler o prontuário de Castro Pinto. Devem ter ouvido mal...

Palavras em -agem

O mundo é composto de mudança

      Apesar de alguns dicionários registarem a palavra «personagem» como tendo dois géneros, por isso reflectir a tendência dos falantes da actualidade (não importa agora discutir se essa tendência é mal informada, como parece ser em relação a toda a língua), continuo a aceitá-la e a escrevê-la somente como sendo do género feminino. Tenho, porém, consciência da evolução da língua. Para começar, sei que no português antigo, à semelhança do espanhol dos nossos dias, os nomes em -agem, de importação francesa, eram frequentemente masculinos, e a alteração nos géneros, através da analogia, não foi um fenómeno despiciendo. Boas razões, pois, para, defendendo as minhas ideias, o fazer sem dogmatismos.

Sotavento e barlavento

Depende do vento

      Ora aqui está uma interessante hipótese etimológica para o vocábulo «barlavento». «Barlavento: nome dado à parte ocidental do Algarve; oeste. Opõe-se a sotavento. Por extensão de barlavento = lado donde sopra o vento. Do francês par le vent (?).» (Eduardo Brazão Gonçalves, Dicionário do Falar Algarvio, Região de Turismo do Algarve, 1988, p. 47). Deverão ser grafados com maiúscula quando designam as respectivas regiões.
      Em espanhol, existem os termos «sotavento» e «barlovento». Em catalão, por sua vez, há os vocábulos «sotavent», a que se opõe «sobrevent».

Terceiro Mundo

É bom saber

      «O termo» Terceiro Mundo «foi utilizado, ao que parece, pela primeira vez, pelo demógrafo francês Alfred Sauvy, inspirando-se, para o efeito, num panfleto do político gaulês J. Sieyès (Qu’est ce que le tiers état?), datado de 1789» (José Carlos Venâncio, A Dominação Colonial, Protagonismos e Heranças, Editorial Estampa, 2005, p. 61).

Banto e talibã

Pensemos

      Para a esmagadora maioria das pessoas, é como se o vocábulo «banto» fosse invariável. Embora intua que não há motivo, mas mimetismo, convém ter consciência de que se fôssemos respeitar a flexão dos nomes que importamos de outras línguas, não teríamos uma língua própria. Que interessa ao falante de português, a não ser como conhecimento, que em banto, uma língua prefixal, o vocábulo «banto» seja um plural? Importámo-lo, agora é nosso e temos de o afeiçoar à congenialidade da nossa língua. Vejamos uma frase em espanhol: «Los grupos de lengua bantú se transformaron en herreros y en su enigmático trayecto introdujeron alimentos importados de Asia.» Um tradutor deu-no-la assim: «Os grupos de língua banto transformaram-se em ferreiros e no seu enigmático trajecto introduziram alimentos importados da Ásia.» Assim, à semelhança deste, também se devia preferir «talibã(s)», como grafa o Diário de Notícias: «O ministro dos Negócios Estrangeiros paquistanês, Khursheed Kasuri, rejeitou ontem as acusações de que Islamabad estaria a apoiar os talibãs no Sul do Afeganistão» («Islamabad rejeita acusações de que está a ajudar os talibãs», Susana Salvador, 20.05.2006, p. 14). Ao contrário do Público: «Forças de segurança procuram 100 suspeitos taliban» («Combates no Sul do Afeganistão causam pelo menos 16 mortos», S. L., 16.05.2006, p. 17).

Léxico: caracoleta

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Boa pergunta

      «Caracoleta moura: nome que se dá à espécie de moluscos gastrópodes terrestres, cujo nome científico é Helix aspersa, Lineu. É de dimensão maior que as outras caracoletas e, em geral, os algarvios não as comem. A palavra caracoleta não vem nos dicionários. Porquê?» (Eduardo Brazão Gonçalves, Dicionário do Falar Algarvio, Região de Turismo do Algarve, 1988, p. 66). Passados quase vinte anos, ainda não temos o vocábulo «caracoleta» registado nos dicionários. Comem-nas, mas não as respeitam.

Tradução de «chilaba»

Dicionários

      A personagem, um judeu, na Idade Média, «vestía una sencilla chilaba negra con capucha y portaba la rodela». Como traduzir «chilaba»? Os dicionários bilingues espanhol-português, como o da Porto Editora, por exemplo, que aponta como tradução de «chilaba»… «chilaba», deixam muito a desejar. O tradutor optou por «balandrau». Vejamos o que registam os dicionários sobre este vocábulo.

«Balandrau, s. m. Vestidura antiga, com capuz e mangas largas, usada pelos Mouros» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coord. por José Pedro Machado).
«balandrau. s. m. (Talvez do lat. medieval *balandra, pelo provenç. balandrán). 1. Antiga peça de vestuário semelhante a um capote, com capuz e mangas largas. 2. Capa larga e comprida, sem mangas mas com aberturas para enfiar os braços, usada por certas irmandades em cerimónias religiosas» (Dicionário Houaiss).
«balandrau, s. m. capote largo e comprido; opa usada por certas irmandades religiosas; (fig.) qualquer vestimenta comprida, larga e desajeitada; redingote. (Do ant. al. wallender, «peregrino»)» (Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 6.ª ed.).
«balandrau. [Do lat. medieval balandrana.] S. m. 1. Opa usada por algumas irmandades em cerimônias religiosas. 2. Capa ou casaco largo e comprido. 3. Antiga vestimenta de capuz e mangas largas» (Novo Dicionário da Língua Portuguesa Aurélio, 2.ª ed.).
«balandrau (Lat. *balandra), s. m. capote largo, comprido e de mangas largas; opa usada por certas irmandades» (Dicionário Universal da Língua Portuguesa, ed. 1995).
É preciso ver, contudo, que em espanhol* também há a palavra «balandrán». Vejamos o respectivo verbete no Diccionario de la Real Academia Española: «balandrán. (Del prov. balandran, de balandrà, balancear). m. Vestidura talar ancha y con esclavina que suelen usar los eclesiásticos.
Voltemos ao espanhol. «Chilaba. (Del ár. marroquí žellaba, y este del ár. clás. ğilbāb). f. Pieza de vestir con capucha que usan los moros.» O Grande Dicionário da Língua Portuguesa (edição actualizada em 2002 do Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa de António de Morais Silva, regista a forma gelaba. «Gelaba s. f. Veste comprida dos mouros.»

* E em catalão, balandram («Vesta llarga, ampla i oberta del davant, que hom duia a la baixa edat mitjana al damunt de l’altra roba» e «Vestit talar, amb esclavina o valona, que usaven els eclesiàstics»). Em inglês: «balandran. n. A wide wrap worn in the Middle Ages. Also balandrana» (Webster’s Comprehensive Dictionary).

Judeu e judaico

O judeu errante

      Na revista Elle de Julho encontrei um erro (encontrei demasiados…) muito comum entre os jornalistas e tradutores. Podia dar muitos exemplos. Vejamos a citação. «Com 18 anos, Sophie [Auster] herdou do pai o tom de pele, as raízes judias e aqueles olhos — grandes, intrigantes, misteriosos» (João Tordo, Elle, n.º 214, Julho de 2006, p. 48). «Judia» é o feminino de «judeu», e este designa o natural da Judeia, logo, as raízes serão «judaicas». Universidade Judaica, Museu Judaico de Berlim, cemitério judaico, colonato judaico, comunidade judaica, diáspora judaica, nação judaica, questão judaica… Mas povo judeu, pois claro.

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