AVC e cerebrovascular

Imagem: http://www.sgeier.net
Ainda acertam…

      É comum vermos, e assim está dicionarizado, «acidente vascular cerebral» (AVC). A revista Elle engendrou outra forma: «De acordo com um estudo efectuado em Londres, comer mais do que o recomendado [fruta] — cinco doses por dia — diminui o risco de ter um acidente vascular-cerebral em 26%» («Abuse», Elle, n.º 213, Junho de 2006, p. 159). E o hífen para que serve? É verdade que existe a palavra aglutinada — e até mais correcta —, mas ao contrário, como se prefere no Brasil, onde se diz «acidente cerebrovascular». Noutras línguas é também a forma preferida: «accidente cerebrovascular», em espanhol; «accident cérébrovasculaire», em francês; «accidente cerebrovascolare», em italiano; «cerebrovascular accident», em inglês. Em catalão usam-se as duas formas: «accident cerebrovascular» e «accident vascular cerebral».

Cerebrovascular adj. 2g. MED relativo à ou próprio da rede vascular do cérebro. (Dicionário Houaiss)

De «formulaic» a «formulaico»

Então é assim…

      Nenhum dicionário de língua portuguesa, que eu saiba, regista o adjectivo «formulaico». Este facto não impede ninguém, naturalmente, de o usar, e é o que acontece com Vasco Pulido Valente, que escreveu na sua habitual crónica no Público: «Nenhum político responsável desceu antes dela de um “liberalismo” formulaico e abstracto para a dureza e a impopularidade do concreto», «O “líder da transição”?» (26.05.2006, p. 60). Vindo do latim formula, o inglês formulaic estava mesmo a pedir, dir-se-á, bastou acrescentar um o, ser nacionalizado. Vejamos a definição num qualquer dicionário de inglês: «Formulaic: characterized by or in accordance with some formula.» Em contexto: «A considerable proportion of our everyday language is ‘formulaic’. It is predictable in form, idiomatic, and seems to be stored in fixed, or semi-fixed, chunks. This book explores the nature and purposes of formulaic language, and looks for patterns across the research findings from the fields of discourse analysis, first language acquisition, language pathology and applied linguistics.»
      Uma questão se impõe, porém: era necessário aportuguesar esta palavra, ou mesmo adoptar o vocábulo inglês? Nem uma coisa nem outra, parece-me. Já temos o adjectivo «formular» (que também existe no espanhol*), que significa rigorosamente o mesmo. Tanto é assim que o Dicionário Houaiss regista a locução «estilo formular».
      Retomo as definições do inglês. No Oxford Advanced Learner’s Dictionary, pode ler-se: «formulaic adj. (formal) made up of fixed patterns of words or ideas: Traditional stories make use of formulaic expressions like ‘Once upon a time…’» Neste caso, não hesitaria em usar o adjectivo «sacramental», há muito dessacralizado para estas necessidades expressivas. Também já vi bons tradutores verterem o formulaic como «formal». Deve atender-se, é evidente, ao contexto.
      Para acabar, vejo que formulaic também significa «lacking in creativity», o que não se aplica a Vasco Pulido Valente e, espero, a mim também não.

* O Diccionario de la Real Academia Española não regista «formulaico». O Oxford Spanish Dictionary, que os meus leitores já conhecem de outras andanças, regista-o na entrada do adjectivo «formulaic», o que é causa ou efeito, vá-se lá saber, de o ver usado em muitos textos espanhóis.

Tradução de «adicción»

Contas mal feitas

      Apesar de o Dicionário da Academia, entre outros, registar o vocábulo «adição» no sentido de dependência («Adição. Psiq. Compulsão apresentada por determinados indivíduos para repetir os mesmos comportamentos gratificantes, consumindo quantidades crescentes de drogas como tabaco, álcool, cocaína...»), não me parece a forma mais acertada de traduzir o vocábulo espanhol «adicción», em especial se não estivermos perante uma obra técnica. A citação que se segue, da recensão crítica de Paulo Nogueira ao livro Autobiografia de Marilyn Monroe, de Rafael Reig (Bico de Pena, 2006, trad. Afonso Leonardo), dá conta dessa estranheza:
      «Oxalá a Bico de Pena edite outro livro dele, Sangre a Borbotones — mas com mais cuidado na tradução. “O casamento causa adição”, como vem na página 29, é um disparate. O correcto será “o casamento vicia” (a não ser que a “adição” fosse a de um pimpolho, o que não é o caso)» (Expresso/Actual, 17.06.2006, p. 67).

Português antigo

A voz do povo

      A minha sogra, uma pequena proprietária rural brasonada que de vez em quando chama provinciano ao meu sogro (o que é, a par de um insulto leve, de uma notável intuição etimológica, pois que Proença, que é o apelido dele, deriva do provençal «Provincia-»), usa o muito popular e arcaico adjectivo «rudo». Se o arroz não está ainda cozido, por exemplo, ela diz que «o arroz está rudo». Na evolução da língua, «rude» chegou, de facto, a ser biforme.

Mas e vírgula

Gaudium certaminis

      Para quem gosta de classificações. Nesta questão, dividimo-nos em quatro grupos: os que sabemos que, por vezes, antes de «mas» deve estar uma vírgula; os que, ignorando-o, nunca a usam; os que têm a certeza de que antes de um «mas» deve haver sempre uma vírgula e, por fim, os que sabem que, ou antes ou depois, deve haver uma vírgula. Tal como algumas das nossas criancinhas, astuciosas, que escrevem os acentos gráficos na vertical, para que o professor decida para que lado devem cair. Vejamos um exemplo da imprensa.
      «Os vikings querem saber voar mas, quem voa mais alto é o amor e é a filha do grande líder bárbaro que vai, no fundo, ganhar asas e sair do ninho», «Os vikings que querem voar», Sofia C. de Castro, Correio da Manhã, 8.06.2006, p. 55.
      Neste caso, a oração coordenada adversativa deve ser separada da anterior por meio de vírgula, que fica antes da conjunção. Só assim não seria se, em vez de ligar orações, ligasse elementos de uma frase (O “leito” era uma estranha mas convidativa combinação entre o futon e uma cama ocidental.) ou desempenhasse uma função enfático-contrastiva (Vai mas é dar uma volta ao bilhar grande, palonço!).

Tradução: «gavilán»

Gavilanes e gaviões

      O leitor João Lopes pergunta-me se conheço a palavra portuguesa correspondente ao vocábulo espanhol gavilán*, referida a espada. Não conheço nem encontro em lado nenhum. Contudo, não me parece que se possa traduzir por «copos», como sugere, pois, sendo embora certo que este vocábulo designa a parte da espada que defende a mão, na espada celta que me descreve não há propriamente copos. Vejamos. Diz-se «copos» (e em espanhol, «conchas») por catacrese, pois que essa parte por vezes é semelhante a uma calota, ou pelo menos circular e convexa, se aberta. Sei é que alguns agricultores até há pouco tempo designavam a orelha, peta ou bico do sacho por gavião. Sugiro que traduza por extremidades ou pontas da guarnição, tanto mais que se trata de uma legenda que irá explicar a imagem da espada.

* Em francês sei que é quillon («Chacune des deux tiges formant la croix dans la garde de l’épée»), vocábulo que o inglês importou.

Estrangeirismo: «faisandée»

Imagem: http://www.wga.hu/
As palavras dos outros

      Temos a família completa: o faisão, a faisoa (ou faisã) e o pequeno faisanoto (1). Uma família feliz, dir-se-ia, não fosse os Franceses terem inventado, para gáudio papilar de alguns, o faisandée — que é isto tudo mas morto e quase podre. E é esta palavra, faisandée, que nos (faz) falta. Uma peça de caça faisandée — oxidada ao ar livre, quase pútrida — era, antigamente, iguaria apenas apreciada na mesa opípara dos reis.
      E a palavra é muito usada em Portugal? Talvez não entre os frequentadores do McDonald’s, suponho, mas em certos restaurantes, sim. E na imprensa? Ainda na edição do dia 13 do corrente do Diário do Sul (também leio o Saigon News) li num texto da autoria do escanção João Marques o verbo correspondente: faisander. Na literatura? Sim, n’Os Maias, mas não referido a caça… «Entre os Amigos, no Ramalhete, sobretudo na frisa, discutia-se às vezes Raquel, e as opiniões discordavam. Taveira achava-a “deliciosa!” — e dizia-o rilhando o dente: ao marquês não deixava de parecer apetitosa, para uma vez, aquela carnezinha faisandée de mulher de trinta anos: Cruges chamava-lhe uma “lambisgóia relambória”.»

      (1) Também os Franceses têm as correspondentes palavras: faisan, faisanne (ou faisande) e faisandeau. Os Espanhóis não se podem gabar do mesmo, pois só têm faisán e faisana. O étimo é grego, embora nos tenha chegado através do latino phasianu-, provavelmente intermediado pelo provençal. Conta-se que esta ave existia somente na Cólquida, junto ao rio Fásis, donde tomou o nome. (Sim, Camões refere n’Os Lusíadas este rio: «Ó famoso Pompeio, não te pene/De teus feitos ilustres a ruína,/ Nem ver que a justa Némesis ordene/Ter teu sogro de ti vitória Dina,/Posto que o frio Fásis, ou Siene,/ Que para nenhum cabo a sombra inclina,/O Bootes gelado e a linha ardente,/Temessem o teu nome geralmente.») Ao menos o faisão, seja qual for a sua origem, pode ver-se e, o que é melhor, comer-se, o mesmo não se podendo afirmar do fabuloso τραγέλαφος, como é referido por Aristóteles, e entre os autores latinos hircocervus, ou tragélafo (como se lê na História Natural de Plínio), que é a mera transcrição do grego, que teria existido também junto do mesmo rio, actualmente com o nome de Rion, no Cáucaso, perto do desfiladeiro de Mamisson.

Arquivo do blogue